Alexandre
Matias
O avião pára no aeroporto de Brasília e eu pergunto à comissária se posso passar
em uma farmácia. Ela consulta algum gerente de uniforme, que diz ser impossível.
Agradeço, enquanto um time de faxineiras e arrumadores dá uma geral na aeronave, jogando
fora coisas esquecidas pelos passageiros, aspirando o chão, repondo cartões de medidas
de segurança nos bolsões à frente de cada assento. A farmácia era apenas uma desculpa
idiota para pisar na minha terra, já que não dou as caras em Brasília desde o último
Porão do Rock, em maio ou junho do ano passado. Da linha Campinas - Brasília, só eu
faria conexão Recife e lá estava, sozinho, num avião, esperando algum aceno do destino
para me dar algum alô de novidade. À minha frente, a Gazeta Mercantil não dava a real
dimensão do mais novo escândalo nacional, com apenas uma meia página falando do
depoimento da diretora do Prodasen sobre a violação do painel eletrônico de votação
do Senado Federal. A Zero Hora (o vôo vinha de Porto Alegre) era mais enfática e dava
quatro páginas (de tablóide, mas quatro páginas) ao assunto. Mas a dimensão do estrago
causado pela confissão da corrupta arrependida (pelas circunstâncias) embarcaria na
capital. Além de uma manchete bombástica do Correio Brasiliense (ELES SABIAM DE TUDO)
acompanhada de um caderno com a transcrição na íntegra do monólogo culposo da tal
Regina, há ainda a presença, digamos, "ilustre" de três parlamentares: os
senadores Roberto Freire e Carlos Wilson e o deputado Inocêncio de Oliveira. "Se
esse avião cair, não será em vão", pensei. Eu sempre penso que o avião vai cair,
embora essa idéia não me apavore. A impressão que eu tenho é que um dia um avião vai
cair comigo dentro - e não vai acontecer nada (talvez apenas alguns dias perdido em
alguma selva, mas é por isso que o meu chaveiro é uma bússola).
Outros parasitas da cidade embarcavam e cumprimentavam Freire, que se sentou exatamente
à minha frente. Era seu aniversário (era também o sexagésimo de Roberto Carlos) e
todos que sabiam da data - todos pareciam saber - faziam questão de saudá-lo.
Inocêncio, largo e baixinho (todo mundo parece maior na televisão), sentou duas filas à
minha frente, no assento do corredor. Wilson, primeiro-secretário do Senado (o Correio
Brasiliense e o comissário de bordo me ajudaram em sua identificação), estava na
fileira ao lado, folheando um grosso clipping com notícias dos principais jornais do dia.
Vez ou outra, ele o repassava a Freire, que examinava com seus óculos de leitura com um
ar de "hm, interessante", mas eu não estava certo se ele realmente estava lendo
aquilo que o outro senador lhe passava. Mais à frente, Inocêncio se irritava com o
passageiro a seu lado - idiota, pedindo autógrafos em seu bilhete aéreo - e ia dormir no
banco da frente, ao lado de um de seus seguranças (se aquilo for um assessor, estamos
lascados). Lendo a Folha de São Paulo por cima do ombro de Freire, vejo que o primeiro
editorial não fala do problema no painel eletrônico do Senado. Típico da Folha.
Passeando pelo resto dos jornais, lia mais notícias indicando a ordem das coisas:
começava a terceira cúpula das Américas, em Québec, onde seria decidido os primeiros
passos da infame Alca; a África do Sul havia ganho a primeira briga entre genéricos e a
indústria farmacêutica; a Argentina se segurava mais forte para não ir para o buraco.
Nenhuma palavra sobre o Abril Pro Rock, nos três jornais que tinha em mãos.
Compreensível: o Correio não mandaria nenhum repórter, a Gazeta não fala sobre esse
tipo de assunto e a Zero Hora fica muito longe para se preocupar. Mas será que um
festival de música em Pernambuco não teria mais importância para o dia-a-dia do
brasileiro do que qualquer um destes itens? A Alca é jogo de peixe grande, como a
indústria farmacêutica ou crises econômicas e não há como mudar isso com protestos,
passeatas ou ataques terroristas. Eu sempre achei - e continuo achando - que a única
forma de se derrotar o Sistema é simplesmente desprezá-lo, seja numa comunidade hippie
ou num ataque coletivo. A política é feita simplesmente para mantê-la (como o direito,
a polícia, o sistema econômico e a ciência institucional) e não para ajudar as pessoas
a viverem bem. O único jeito de mudar o mundo é quebrar as regras - nenhum candidato
eleito vai mudar as coisas. Talvez um festival de rock possa mostrar como a massa pode
reagir positivamente a algo que lhe é cagado sobre sua cabeça.
Deitei a poltrona e, antes de dormir, pensava nisso. Das duas outras
edições do festival pernambucano que presenciei (1998 e 2000), a grande estrela era
fatalmente o público, que transformava qualquer show num showzaço. O pernambucano é,
talvez, a essência do "ser brasileiro", um cara que não se importa muito com
bandeiras ou tribos (a não ser times de futebol), e que prefere estar junto das pessoas
certas a estar nos lugares certos. O mote do Mágico de Oz ("home is where the heart
is") é lei na capital pernambucana - e, olhando de perto, em quase todo o Nordeste.
É isso que talvez faça o Brasil um país tão legal: não é só o tempo, a natureza, o
visual ou qualquer outra coisa, mas as pessoas. Por isso que São Paulo, capital, é um
lugar tão ruim: atravesso a Paulista de ponta a ponta e as pessoas não cruzam olhares,
se olham desconfiadas, balconistas não te olham no rosto, caixas evitam sorrisos. As
executivas que passeiam pela Augusta, as jovens mães na frente do Masp, as deusas
magrelas que entram e saem da Cásper Líbero, as donas de casa que cruzam desatentas a
Brigadeiro, as madames que passam correndo pela Maternidade Santa Catarina, as filhas
trabalhadoras quase na Vergueiro: todas elas passam correndo, sem encarar, sem dar bom
dia. De todos naquela avenida, só as mulheres que pedem a pressão (no bom sentido) pouco
depois da estação Trianon, os hare-krishnas na frente do Itaú ou o cachorro que dorme
na Oswaldo Cruz dirigem um olhar mais aberto. O problema é que o Brasil, nos últimos dez
anos, tem se concentrado demais em São Paulo, o que dá um peso formal (e mau humorado)
à brasilidade, fazendo com que ela perca o que tem de melhor - o calor humano. Em Recife,
este calor é uma presença inegável, que sorri reluzente para a gente em cada mulher com
pouca roupa que passeia em qualquer lugar da cidade. "White man go to pieces in
tropics", disse um poeta contemporâneo, e é muito fácil lembrarmos de europeus e
norte-americanos pirando ao simples contato com a natureza tropical dos países do
terceiro mundo - vamos de Hemingway a Segall, Gauguin e Mailler. Em contrapartida, um
séquito imbecilizante de cabeças-de-pau engravata o tribalismo e paulofrancisa o
nelsonrodrigues. Brasileiros que não gostam de calor, de praia, de samba, de gente se
esfregando, de suor, de cerveja gelada, de carnaval, de noites no mato, de sol na moleira,
de quentura na madrugada, de brisa fresca, de esticar as pernas na areia, de futebol, de
multidões em polvorosa, de piadas contadas em grupo, de cantadas baratas, de apelidos
idiotas, de guaraná, de dindim, de moqueca e comida apimentada, de bermuda, de ficar sem
camisa, de paquerar no calçadão e afins - favor se retirar do país. Vão lavar prato de
europeu e deixem esse bem-bom daqui pra gente. Mas se você gosta de ao menos uma dessas
coisas, não se dê por vencido - sempre é tempo de mudar.
Dormi, dispensando a insossa refeição da Tam. Tinha dormido pouco e
finalmente aprendi a cochilar em poltronas, depois de um mês viajando diariamente para
São Paulo. Depois do cochilo, ensaiei uma ida ao banheiro para esticar as pernas e no
meio do caminho encontro Terence Machado, apresentador do programa Alto Falante, produzido
em Belo Horizonte pela TV Educativa local. Alto, magro e bom de conversa, Terence usava um
óculos escuro azul e estava sentado ao lado dos produtores de sua equipe: a bela loira
Cris e o rapaz que, merda, esqueci o nome. Falamos um pouco sobre tudo, naquele clima de
amenidades típicas dos primeiros encontros depois de muito tempo. Havia conhecido-o no
Rock in Rio e ele me lembrava de óculos - que eu havia conseguido quebrar uma semana
antes. Depois de um longo papo superficial, a tripulação avisava do pouso na capital
pernambucana. Hora de voltar ao assento inicial e esperar o avião descer. Lá de cima,
Recife é um organismo vivo, com prédios e casas se empilhando sobre matas, rios e
açudes. Não há como descobrir regra por trás desta organização. Como o Rio de
Janeiro (e as principais cidades brasileiras que ficam na praia), Recife criou-se cidade
como se o concreto e o barro de suas construções brotasse da natureza, postes de
iluminação fossem árvores deturpadas e o asfalto nascesse no chão depois de muito
andar pelo mesmo caminho.
Lá embaixo, ninguém nos esperava. Melina, produtora executiva e amiga de outros
festivais, havia dito que o primeiro vôo trazendo jornalistas chegaria ao meio-dia e ela
estaria lá para recebê-los. Era uma hora da tarde e provavelmente a primeira turma já
devia estar a caminho do hotel. Acionada via celular, ela me explica que um cara vai estar
com uma placa com o nome do festival na mão. Enquanto os Alto Falantes procuravam o
contato, fui para a farmácia comprar brinquedos para o cérebro e venenos para o
estômago. Localizado o sujeito, embarcamos na van e, batendo papo sobre jornais, Nordeste
e música, nos conhecemos melhor.
Recife parece suja, talvez por causa do calor. Sempre que visito a cidade,
tenho esta impressão - a umidade do local faz as paredes brilharem de suor, as pessoas
usam pouca roupa, o lixo acumula-se nas calçadas e carros caindo aos pedaços circulam no
trânsito. Mas talvez seja uma visão paulista que acabamos nos impondo depois que se vem
morar em qualquer lugar de São Paulo. Aqui estamos acostumados à formalidade e um aperto
de mãos é algo tão sério quanto um contrato assinado. Em Recife, não. As pessoas
apertam as mãos como se dessem um abraço de reencontro. E é assim que as coisas
funcionam: esta informalidade está refletida em cada recanto da cidade, como se fizesse
questão de expor sua intimidade, de não guardar segredos para aquele que passa. Com
pouco tempo de Recife, vemos que não é a cidade que é suja: São Paulo é que é limpa
demais. Não estou só falando de sentido estético. É como se SP jogasse todos seus
problemas para debaixo do tapete e não falasse sobre eles nem com seu melhor amigo (no
caso paulista, o psiquiatra). Já Recife, os expõe, sem complexo, sem frescura. Uma faixa
de mar nos acompanha por todo o caminho, entrecortada por rios cobertos de mangue, pontes,
um porto, galpões enormes e pequenos predinhos coloridos.
Quando chegamos ao Sete Colinas de sempre, a típica confusão de
jornalistas e artistas na recepção. Vou cumprimentar Janaína, do Estadão, no meio da
confusão e passo batido pelo Tomate, da Bizz, que me intercepta com uma braçada no
ombro: "Tá me olhando de cima pra baixo, porra?". "E tem outro
jeito?". Ele me explica que vamos ficar no mesmo quarto do fotógrafo Marcos
Bragatto, que na edição passada do festival saiu com a pecha de "visceral" -
uma história que eu vou contar mais na frente. Chiques (nem tão chiques assim) e (quase)
famosos se atropelam no balcão para pegar a chave de seu quarto - uma Cris Couto ali, um
Marcelo Yuka acolá, Arnaldão trelelê sorrindo feliz com a balbúrdia, Luciano Vianna
tentando segurar juntos os Asian Dub Foundation que correm de um lado pro outro
entusiasmados com o tempo quente e o verde local. O compadre Paulo André, o anfitrião,
está suando em bicas e com o rosto contraído de preocupação. Me apresenta ao Bill
algumacoisa (algumacoisa não - era algo como um "Braga" inglesado), organizador
do festival Summer Stage, em Nova York, que me explica a ansiedade de assistir o festival.
"Estou querendo ver as bandas locais", conta. Explico, me sentindo veterano de
Abril Pro Rock, que o festival não tem nada a ver com as bandas que estão tocando, e sim
a própria atmosfera do local - a velha ladainha de que Recife não tem tantos shows e que
o APR vem suprir a falta destes num mesmo final de semana. É a troca de energia da
audiência com ela mesma e dela com o palco que fazem do festival o melhor evento musical
do Brasil. Mas a tensão no rosto de Paulo André não deixa de ser preocupante: é a
primeira vez que ele leva seu festival a São Paulo e não pôde contar com a ajuda
financeira do governo de Pernambuco, o que o obrigou a cortar a tenda eletrônica, entre
outras coisas. Mas não é simplesmente isso. Depois de desligar o celular, faço uma
piada qualquer sobre o assédio telefônico sobre o organizador do festival e ele
responde: "Acabando essa merda, eu vou jogar essa porra fora!", erguendo o
celular à altura do rosto, sem sorrisos. Para quem conhece Paulo André um pouco, mau
sinal. Há alguma coisa errada e fico com a impressão que, se o Abril Pro Rock der
prejuízo este ano, poderá ser seu último ano.
Tomate mostra a chave do 14 - Bragatto ainda não tinha chegado -, embarcamos e demos
inícios aos trabalhos de defumação antes de irmos para uma mesa à beira da piscina
("amebóide", descreveu alguém), esperar o tempo passar. Antes disso,
telefonema para o intrépido Matias Maximiliano, fotógrafo e picareta. "Alou Matias,
tamos no hotel Sete Colinas, dá uma ligada quando puder". O hotel, que fica em
Olinda, é construído num terreno inclinado e o quarto 14 ficava na parte de baixo,
enquanto a piscina fica no plano mais alto - uma piscina grande com umas estátuas
teoricamente eróticas numa pequena ilha de concreto. Ao redor, uma enorme área verde
cercada por coqueiros gigantescos, que deixava cocos caírem, talvez tentando acertar
aqueles macacos pelados barulhentos que, em menos de uma hora, espantaram a paz do local.
À beira da piscina, Luciano nos explica o que aconteceu até agora enquanto Bernardo
Araújo, dO Globo, um metaleiro família, surge para os cumprimentos iniciais.
Trivialidades jogadas fora, piadas bestas e causos de redação temperam a cerveja, quando
Matias Maxx chega ao local, com sua discreta camisa florida e cabelo comprido ensebado -
"Sambarilove", diz Tomate. "Matias Magnum, o detetive número 1 do
Havaí", completa Bernardo. Matias masca uma sílaba qualquer e se larga sobre uma
cadeira. "Hippie sujo", Tomate acrescenta. Retardado completo, havia ligado pra
telefonista pedindo o telefone do hotel 7 coelhinhos. Sem comentários.
Matias, bom ressaltar, vem do "apê do rock", um projeto que eu
idealizei sem querer ("last night I spawned a monster"). A idéia era simples:
havia um grupo de amigos/fanzineiros que vinha para Recife assistir à nona edição do
Abril Pro Rock e o festival não tinha ainda seu site oficial. Apresentei a Paulo André a
proposta de dar o site para este grupo, formado por três cariocas, um baiano, um
paraense, uma gaúcha e um paulista. Ele havia me dito que estava em negociação com o
site Usina do Som e que não fosse o caso, mas disse para conversar com Melina sobre
credenciamento para este povo, que não teria problema. Dito e feito - passei as
informações para as pessoas e sugeri que elas fizessem um fanzine, batizado, por Matias,
de "núcleo Tarja Preta". Depois de vários emails trocados, o grupo - Fábio
Macedo (do zine Pastilhas Coloridas), Luciano Matos (do zine El Cabong), Zé Felipe (da
festa Loud!), Clarah Averbuck (do zine Cardoso On Line), Kamille Viola (do zine Real Punk)
e Vladimir Cunha (colaborador da Bizz) - começou a agilizar um apartamento para ficarem
na capital pernambucana. Era o tal apê do rock. Na aventura, ainda embarcaram a mulher de
Vladimir (Dani, é isso? O cara não me apresentou formalmente à digníssima), o crítico
de cinema Ruy Gardner e outro organizador da festa Loud!, Áureo, que, segundo consta, é
quem mexe com a parte chata de se organizar uma festa - os dois só for fun mesmo. Matias,
que pedira as contas de seu antigo emprego e estava curtindo o marasmo no Nordeste há
dias, passando em Maceió na semana anterior, vinha de lá, pedindo pelo amor de deus pra
sair daquele lugar. Como era de se imaginar, o lugar era uma república temporária.
"Aquilo tá uma zona, não tem lugar pra dormir direito", disse, sem contar que
era um dos responsáveis por levar três prostitutas para o apartamento na noite anterior
- evento que causou comoções diferentes nos presentes (dá pra imaginar, né? - não,
não dá). Enfim, os caras fizeram um sitezinho de cobertura do festival e tudo que eles
fizeram - sem mim, no fim, furei bonito - tá no http://abrilprorock.zip.net De repente
até este texto foi colocada lá (ou aqui) e tu tá lendo isso no próprio site...
Então vem Marcos Bragatto, o soldado do rocknroll. Poucos
profissionais se dedicam tanto à causa quanto este cidadão. Cabeludo, mas dono de uma
proeminente careca, Bragatto acredita piamente na salvação pelas guitarras - rezaria
parte de seu credo mais tarde. Usa óculos de aro grosso e está sempre de bermudas -
ínfimas, assustadoramente indiscretas, que, como ele explica, diminuem um centímetro a
cada lavada, a histórica "cueca jeans", de tão bisonha. No ano passado,
Bragatto foi protagonista de um diálogo que sintetiza sua devoção rocker. Estávamos no
café da manhã pós-primeira noite (assistindo à deprimente cena do café da manhã da
Plebe Rude - onde apenas os roadies ficavam na mesa ao mesmo tempo: a banda simplesmente
não sentava junto; cada um saía na mesma hora que outro aparecesse no ambiente, se
evitando): eu, Tomate, Bart, da RockPress, e Bragatto. O papo, claro, era bobagem. Até
que falamos de qualquer coisa (axé music ou música brega ou pop radiofônico gringo ou
pagode, sei lá), e Marcos ficou perturbado. Que que foi Bragatto? "Tô falando muita
merda, preciso voltar meu pensamento para coisas mais viscerais". Explosões de
risos, enquanto Bart (que já estava com o saco na lua comigo e com Tomate - havíamos
ficado em seu quarto) balançava a cabeça rindo e fazendo "tsc, tsc" - talvez
pensando "não, Bragatto, não...". Daí pra todo mundo começar a chamá-lo de
Wilson Visceral foram dois tempos...
Enfim, reunido o grupo (mais a turma do Alto Falante e Janaína), fomos
almoçar no essencial Oficina do Sabor, ponto obrigatório se o passeio passar por Olinda.
Vizinha de Recife, Olinda é daquelas cidades que dá pra pensar em morar lá depois de
chutar o balde, fácil, fácil. O único problema são as ladeiras, que dão um certo
charme cubista à arquitetura colonial, apinhada de igrejas barrocas. A preservação
histórica faz com que o centro turístico da cidade tenha a mesma aparência de dois
séculos antes + facilidades turísticas, claro. Guias e taxistas em carros caindo aos
pedaços circulam pela cidade, apinhada de pousadas, tendas e ateliês de artesanato,
ressaltando o aspecto mercadológico local. Depois de comermos bem, chamamos um táxi para
levar-nos de volta ao hotel. Vem um monza prata que, ao abrir a porta, nos recebe com
reggae roots de primeira: Crystal Ball, de Peter Tosh, pra ser mais exato. No clima, fomos
para o 14, onde Matias nos apresentou ao material que havia comprado na cidade. A tal
operação Cabrobó parecia ter surtido efeito e o dito "pernambucano" vivia
tempos escassos. Mas estava solto, o que é bem melhor do que o espremido que temos que
aturar aqui embaixo. O gosto era bom e a quantidade dava conta do recado. Hora de ir para
o festival.
O Abril Pro Rock acontece no Centro de Convenções do Recife, um enorme pavilhão de
concreto na divisa da capital pernambucana com Olinda - daí ficarmos nesta cidade e não
em Recife. Não muito coincidentemente, foi ali perto que Chico Science perdeu o rumo de
seu Uno branco e de sua vida, transformando-se em mártir da cultura local. Misto de Che
Guevara, Bob Marley e Raul Seixas local, Chico precisou morrer para que sua mensagem fosse
entendida. Hoje, pernambucanos suspiram sua ausência e lembram da simplicidade do
vocalista ao transitar pela cidade, mesmo depois da fama. Mais do que isso: Chico Science
devolveu a Pernambuco a auto-estima que havia se perdido nos tempos de Alceu Valença. E
se hoje os recifenses recebem a dupla de emboladores Pinto e Rouxinol - que abriram o
festival - com entusiasmo, não duvide: a culpa é de Francisco França.
O D-Urb, que entra na seqüência clamando ser "a primeira banda de
drumnbass de Recife", enquanto soa exageradamente hardcore. Nada a ver,
pelo menos no palco. A próxima é a vez da Nação Zumbi e, aí sim, começa o festival.
É impressionante como a banda conseguiu superar a morte de seu líder original. Os
tambores, antes coração do grupo, se firmam como apenas uma nova percussão, um outro
jeito de tocar bateria, e já não chamam mais atenção como antes (embora o grave
continue a percutir nos tóraxes e no chão). O grupo agora gira em torno de sua dupla
infalível: o estridente Lúcio Maia e seu fail-safe Dengue. A química entre os dois é
bem interessante - o guitarrista se coloca em primeiro plano em todos os aspectos, seja
como persona no palco, nos agudos de seu instrumento, solos intermináveis ou bases com
wah-wah, caretas e comunicação com quem ele consegue enxergar com o público. O baixista
é soturno como um segurança e o baixo fica por trás de tudo, como o chão em que a
Nação pisa. Como se Dengue fosse o Atlas da Nação, segurando todo o planeta de som nas
costas de seu contrabaixo. Lembrei de um show que assisti no começo do ano, a Nação
(sem os tambores, com o prodígio Pupilo respondendo pelas baquetas) ao lado de Otto. Ali
ficava claro a importância da dupla Lúcio/Dengue, que iam da bossa nova ao lounge ao
reggae roots ao funk pesado ao samba rock - sempre com elegância e desenvoltura. E como o
timbre da voz de Jorge Du Peixe lembra (eu disse "lembra") a voz de Chico
Science, todas as músicas pareciam ter sido compostas por aquela mesma banda que estava
no palco, sem o vocalista falecido. Impressionante - além do público estar completamente
imerso no carisma da banda, que é apenas musical. Eles não sabem falar com o público,
não se movimentam eletricamente, não agem como se estivessem num teatro, não nada. O
show da Nação é apenas musical e "apenas" é eufemismo - sempre disse que se
eles não substituíssem Chico por nenhum outro vocalista, seriam um Zimbo Trio
pós-moderno. Para coroar a noite, chamaram Nossa Majestade Lia de Itamaracá (mais rainha
que Roberto e Pelé juntos) que, com uma simples entoada de sua ancestral ciranda, fez com
que o público começasse a girar em círculos.
Estar com a credencial da imprensa dava acesso a alguns pontos legais para
assistir ao show: embaixo do palco (um dos lugares com a melhor acústica, pois pegava
exatamente o retorno de todo mundo), o fosso dos fotógrafos, as laterais do palco e uma
construção que se estendia por toda a profundidade do centro de convenções,
funcionando como um camarote. Era um imenso corredor fechado à esquerda do palco, do
ponto de vista do público, que contava com algumas "varandas" que facilitavam a
visão de uns poucos privilegiados. Apesar do melhor destes camarotes ser o segundo (a
poucos metros de distância do palco), o primeiro era o meu favorito. Ficava do lado do
palco, onde dava pra ver a banda de lado. Mas o grande lance era a perspectiva da
platéia: via-se a banda de lado e o povaréu todo de frente.
"UÓÓÓÓÓÓ!!!", dizia a massa sempre que o grupo parava de tocar. Usina de
som, literal, a Nação é o melhor grupo instrumental do Brasil há pelo menos cinco
anos. Um dínamo de energia acústica que, quando botou o público pra cantar a
seqüência Manguetown e Da Lama ao Caos (esta emendada numa versão pernambucana para
Refuse/Resist, do Sepultura). Fico pensando quando os caras tiverem velhos, pra lá dos
50, e, certamente, farão um showzão das mesmas proporções. Porque não é o
guitarrista que tocapracaralho, o vocalista que se arrebenta, o baixista fodão ou rumas
de tambores que fazem a banda: é a química.
Falando nisso, foi mais ou menos nessa hora que as coisas que tinham que funcionar
começaram a fazer efeito. Virei pro Matias e tive de citar o trecho mais óbvio do
jornalismo gonzo - "estávamos no meio do deserto quando as drogas começaram a
bater..." - e o moleque olhou pra mim e começou a rir, zuretaço. Boca ficando mole,
corpo ficando extático, cérebro zunindo informações em forma de choques elétricos,
olhos tão arregalados quanto os do moleque, efeito
homem-de-seis-milhões-de-dólares-correndo em volta de todas as formas que se moviam à
minha frente... Ao mesmo tempo - não existe coincidência, né? - comecei a encontrar os
figuras do apê do roque: Luciano, de camisa de manga comprida (definitivamente, é um
anti-baiano) e que eu nunca tinha visto, eu reconheci de foto, dentro da sala de imprensa.
Lá também estava Kamille e o Zé Felipe (já conhecia os dois pessoalmente). Clarah me
puxou pelo braço no meio do show do Bonsucesso Samba Clube (banda legal, um Vulgue
Tostói à nordestina, rock com ares de trip hop, mas com batida de samba). Vladimir me
descreveram (um gordinho de óculos com a camisa do Yellow Submarine com uma menina com a
camisa do Autoramas) e foi fácil achar. Macedo eu só fui encontrar no final dos shows,
depois do ADF, também na sala de imprensa.
Enquanto o BSC tocava no palco secundário, fui com Janaína visitar o
lendário Calcinha Preta, a alma do Abril Pro Rock. Lá encontrei apenas o DJ AC (não,
nada disso, o nome vem do bairro que ele mora: Águas Claras - tá bom, vai), desolado
porque não tinham achado um cabo pra ligar as caixas no som. Pra quem não sabe, o
Calcinha - ou melhor: "Complexo de Diversão Calcinha Preta" - é um barraco de
madeira (tipo favela, mesmo) montado numa das esquinas do centro de convenções, no
fundão. Idealizado para a edição do ano passado, o lugar contava com uma boate-muquifo
no andar de baixo, com direito a luz colorida e globo espelhado: era a Pomba-Gira
Discothéque. No segundo andar, um lounge nordestino, com cama de casal, poltrona e
mosquiteiro. Na edição 2001, a ausência de som no primeiro andar deixou o local às
moscas. Apenas uns poucos ousados arriscavam entrar no lugar, quase sempre para fazer
preces e mais preces - cada vez mais longas - a Jah. Numa dessas sessões, Rogê, antigo
dono da lendária Soparia e hoje proprietário do roqueiro (no mau sentido - a jukebox
tocou Stairway to Heaven quando pisamos lá) Pina de Copacabana, se espantava com sua
própria popularidade ao descrever uma cena acontecida num cinema que assistia à sua
estréia como ator. Fazia uma ponta num filme, interpretando um taxista que, puto da vida,
ameaçava largar a vida atrás do volante para "abrir uma casa pra vender sopa".
Sua emoção vinha com a lotação completa do cinema gargalhando após sua fala no filme.
Ao mesmo tempo em que o andar de baixo do Calcinha Preta bufava odores nativivos, o
público, lá fora, se socava para tentar entrar - teve até tiro pra cima.
Era o Rappa, que tocava em Recife pela primeira vez desde o acidente com
Marcelo Yuka, que causara o rebuliço na entrada. O povo provavelmente tava naquele
espírito bebedeira-papo-furado que antecede qualquer show e, quando o grupo carioca subiu
no palco, todo mundo saiu correndo ao mesmo tempo. Deu no que deu: lotou. Impressionante,
bateu o recorde de público do festival, quando o Sepultura tocou no Recife em 1999. Mais
do que impressionante: era gente até o final do centro de convenções. Sou péssimo para
medidas: quantas pessoas têm aqui? Qual o tamanho disso tudo? Não vou nem dizer o
tamanho que pensei pra não passar vergonha, mas imagine dois campos de futebol
profissional frente a frente. Agora povoe este espaço com gente em cada metro quadrado,
um farnel humano plural, jovem e sorridente. Não vi o Sepultura, mas dá pra imaginar a
cara da audiência no megapúblico de 99: moleques de 13 a 18 anos vestidos de preto e
bêbados de vinho. Aqui, não. O público do Rappa é o próprio público do Abril Pro
Rock. Skatistas, nordestinistas, mangueboys e manguegirls, clubbers, metaleiros,
excêntricos, estudantes de teatro, pseudomendigos, hippies velhos, universitários,
alunas de dança, punks de butique, rastas roots, surfistas, forrozeiros, modernettes,
ternos e gravatas de araque... A fauna gentílica do festival é mais diversa do que o
público de rave no outro lado do Brasil, onde é possível ver o conceito de "gente
normal". No Abril Pro Rock não existe "gente normal", o normal é ser
você mesmo e isso tem de ser traduzido de cara, na cara, na roupa. Mas isso não é o que
mais impressiona: é o fato da platéia ser plural e ser autêntica. Nenhum cocar é mais
alto que o semancol, por isso nada parece exagerado. O que em públicos paulistas e
cariocas fica concentrado em determinados indivíduos da noite (que, em médio prazo,
tornam-se caricaturas), no Abril Pro Rock se dilui no maior número de cabeças possível.
A massa, grande estrela de todo o evento, é naturalmente múltipla, sem parecer-se
fantasiada. As máscaras do evento, acredite, estão no palco.
Não é o caso do Rappa, pelo menos hoje à noite. Sentindo a
responsabilidade de tocar para um público consciente de sua força coletiva e individual
como o do evento, o grupo carioca não poupou garra e suor para fazer um dos melhores
shows de sua carreira - o melhor que eu já vi, ao menos. Outro bom foi o dub total aqui
mesmo, no Recife, em 1998, onde o vocalista Falcão se limitava a cantar pedaços da
música ao mesmo tempo em que acionava o eco com o pedal e a banda reduzia a velocidade
das músicas para a gravidade zero. Foi um ótimo show, mas o público o sorveu como uma
dose pesada de um alucinógeno inesperado e a passividade atordoada foi praticamente a
língua-mãe da audiência naquela noite. Mas hoje, não. O dub entrava com força
dinâmica, acrescida de um lado funky e até mesmo rocknroll que a banda não
passa em seus discos. Há uma energia forte, hiperdimensionada, crescente, violenta e
consciente, que parte da banda mas encontra eco instantâneo na platéia, que retorna à
banda com a mesma intensidade e compactação de energia. O mais próximo do que estava
acontecendo naquele palco era o show do Massive Attack no Brasil, quando a banda de
soul/reggae eletrônico vivia seu momento mais rocknroll, mais intensamente
elétrico, valvulado. A diferença é que no Free Jazz de 1998 o público já tinha sido
apresentado à desconstrução da lógica newtoniana rumo à nova visão multirrealista do
espaço-tempo que o Kraftwerk havia promovido minutos antes. O show do Rappa na edição
2001 era, portanto, mais agressivo e tenso, mas a intenção de ser um "ataque
massivo" era a mesma do coletivo inglês. "Dub massacre!", rotulou Tomate,
lembrando uma coletânea inglesa do mesmo nome e salientando a brutalidade do
baixo-britadeira. Qualquer hit se erguia por mais de dez minutos e a tensão no ar era
ligada pela virulência do bombardeio sonoro da banda - todos os músicos triturando as
versões com bordoadas auditivas e o vocalista narrando músicas que deveriam ser
cantadas, a banda demolindo as próprias composições tal um grupo terrorista rasta, como
se, por pouco mais de uma hora, os Bad Brains baixassem no grupo e o "I and I"
se transformasse no "I Against I" que prova que o mundo está uma merda porque
NÓS MESMOS não fazemos porra nenhuma.
Aí entra o Yuka, pra delírio da turba. Antes do acidente - estúpido,
convenhamos, mas plausível -, o baterista do grupo era o cara para se entrevistar, um bom
papo que articulava uma consciência política muito mais eficaz e prática do que a de
grupos como o Clash ou o Rage Against the Machine. Depois do acidente e frente à
possibilidade de não poder mais usar as próprias pernas, Yuka tornou-se símbolo da luta
social que o grupo advoga em sua carreira, vítima - e, portanto, herói - do caos que se
tornou a sociedade brasileira, encurralada por um medo artificial manipulado pela mídia
capitalista e por uma classe dominante hostil, falsa e reacionária. Virou o rosto da
banda ao mesmo tempo em que sua raiva contra tal opressão social chegasse ao limite,
tornando-se uma pessoal ainda mais convicta de seus princípios e disposta a jogá-los na
cara de qualquer um que tente desdizê-lo. No hotel em Olinda, ele era o artista mais
facilmente identificável (mesmo que por motivos óbvios), sempre em acaloradas
discussões ao redor da mesa do café da manhã, quando os outros debatedores sentavam-se
para, entre papos/entrevistas, ouvirem o que se passa na cabeça de um artista que passou
para as estatísticas da secretaria de segurança municipal. No lugar do Marcelo risonho,
contador de histórias em forma de "causos", estava o novo Yuka: determinado,
ríspido, sem meias palavras ou sorrisos de ironia. Com o cérebro numa ebulição causada
pelo calor do ódio contra o estado das coisas, o ex-baterista do Rappa subiu no palco
como um messias anti-violência, clamando pela atenção das pessoas naquilo que interfere
diretamente em suas vidas: "A gente precisa saber que tudo que a gente lê, vê ou
ouve, muitas vezes é distorcido por motivos escusos", estas não eram as palavras
exatas, "acreditem no MST!".
A mensagem tinha de ser direta, não se pode debater no campo das idéias,
filosoficamente, quando se está na frente de um turbilhão de pessoas querendo se
divertir. As pessoas querem slogans, frases de efeito, que dêem a ela, naquele instante,
um sentido de coletividade e consenso, como um refrão. Esta é o grande desafio da arte,
diga-se de passagem. Como entrar em contato com milhares de pessoas ao mesmo tempo e
conseguir convencê-las de um conceito? Foi esta pergunta que deu origem ao populismo e à
demagogia, cânceres de comunicação que deram à política o sentido circense de ser a
arte de se dizer exatamente o contrário do que o que se pensa ("A política é o
ramo de entretenimento do complexo militar" - Frank Zappa). É preciso trazer o povo
de volta ao jogo de poder e talvez o entretenimento seja a única forma de conseguir com
que as pessoas se liguem da condição social que as cercam. É isso que falta a essa
"nova esquerda", reunida sob o manto da sociedade civil, que se sentiu una a
partir dos manifestos anti-OMC/Banco Mundial/FMI em novembro de 1999, em Seattle - um
sentido de diversão, de cultura politizadora, que não caia nas armadilhas da velha
esquerda. O problema é que, não importa o discurso que se faça num show de rock, ele
funciona apenas como um recurso cênico - como se o palestrante largasse palavras como se
quebrasse um instrumento no palco. É um tiro no escuro, o que Yuka ou qualquer outro
politizado diga num palco/palanque. O pedido final do baterista na cadeira de rodas foi
atendido de forma distorcida no show seguinte da banda, no Rio de Janeiro, quando parte do
público compareceu vestida com a grife do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra.
Mas, ao mesmo tempo em que não é nada, faz uma fagulha de consciência acender-se na
multidão. Se ela não explode como deveria, é porque o combustível não está com sua
inflamabilidade no ponto correto. É preciso esperar - mas que se tente, enquanto se
espera.
Pra fazer sentido ao seu papel cada vez mais forte de voz do oprimido, falta
ao Rappa culhão contra o mercado. Era preciso que eles fizessem seu melhor álbum e
rompessem com a Warner, botando o disco pra vender na banca e fazendo o ponto de
equilíbrio com seus únicos rivais (em termos de ideologia social, carisma de
comunicação e tamanho físico): os Racionais MCs. Imagine isso: rompendo assim, eles
endossariam as palavras que cantam com um ato ferrenho e corajoso, muito mais foda do que
o que Lobão (criado por quinze anos nos corredores da indústria fonográfica) diz ter
feito em seu A Vida é Doce. Seria um ato pensado, não um acidente de percurso. Podiam
escancarar nas letras, aproveitar o ódio curtido de Yuka e desmedir palavras para tacar
álcool na ferida, deixando-a queimar para limpar. Seria preciso muita coragem - mas os
louros seriam facilmente colhidos. Põe uma revista de encarte e publica as seguintes
seções: todas as músicas cifradas para violão (algumas faixas tinham de ser menos
complexas musicalmente, até para apelo radiofônico), uma entrevista-bomba com o Yuka
(poderia ser até aquela que ele deu pro Paulo Diniz, autor do livro Cidade de Deus, que
circulou na internet, mas só quem tem acesso à rede leu) e um ensaio fotográfico com o
Falcão, porque a mulherada vai em peso pra assistir ao cara, não à banda. Aliás,
comentário nos arredores do palco: show mesmo é a mulher do vocalista, com todo o
respeito. Tá certo: você colhe o que você planta.
Do mesmo lado do palco, os Asian Dub Foundation roíam as unhas enquanto
esperavam com ansiedade a sua hora de tocar. A comunhão da platéia com a Nação Zumbi e
o Rappa foram fortes o suficiente para deixar a banda com um certo cu-na-mão. O consenso
era que o grupo indo-(ásio-? paquistano-?)britânico teria que suar bastante o turbante
pra fazer o público levantar. Começaram com sua faceta mais óbvia, a agressividade Rage
Against the Machine com os telecotecos drumnbass que caracterizam os hits do
grupo. Foi o suficiente para mais da metade do público ir embora. Era um processo de
seleção natural: parte da massa havia ido ao centro de convenções apenas para
prestigiar o Rappa, e não estava com disposição para agüentar a dançalheira cabeçuda
do grupo de protesto. Foram cinco ou seis petardos que explicaram para o público a nova
ordem, apresentando à massa os novos vocalistas do grupo, os moleques Akshka e Spex, que
não têm nem vinte anos, mas levam um freestyle bonito no vocal. Trocando rimas como
pistoleiros MCs, os dois moleques foram tangindo o público excessivo pra fora, deixando
apenas no local cerca de seis mil cabeças abertas para o novo.
E o novo, já disseram por aí, é o velho de roupa lavada e passada. Quando
as coisas apaziguaram e o fulgor inicial do grupo foi segurado numa onda pesada de vapor
canábico que saía do público e dos ancestrais ensinamentos que aquele misto de rock,
música eletrônica, música indiana e, principalmente, jamaicana que o ADF promove. Por
baixo das gírias orientais, do lingo de rua, dos movimentos ágeis de todos os músicos e
da batida jungle que filtra quase todas as faixas do grupo, surgia um senhor rastafari num
manto multicolorido envolto por brancas brumas. Quando a porção dub do grupo foi
acionada na derrubadora-de-queixos Riddim I Like, a conexão com o público do Recife se
fechava. Dá pra pensar na tremenda ponte aérea que atravessamos, como um portal
temporal? Tudo começa na África, onde escravos são trazidos para diferentes regiões da
América (Pernambuco e Jamaica), forçados a trabalhar para diferentes europeus
(portugueses e ingleses) e que só puderam manter sua identidade social através da
sobrevivência clandestina de sua cultura (música, religião, danças, tradição oral
etc.). Vestindo as roupas da cultura bíblica, ambos afro-americanos conseguem tornar-se
vivos graças à popularidade da fusão com a tradição judaico-cristã: os rastas
remontavam a tradição do Êxodo, de retornar à Terra Prometida para derrotar a
Babilônia (o capitalismo), os recifenses criavam maracatus e cavalos-marinhos para saudar
as divindades européias, máscaras para a verdadeira celebração de ícones afro que
acontecia em praça pública, respaldada pelo povo. Migrando para a Inglaterra, os
jamaicanos encontraram um povo igualmente maltratado pelos ingleses: os indianos, que
também criavam na Grã-Bretanha sua colônia às avessas, tentando a sorte no coração
do Império. No Recife, mais recentemente, os próprios pernambucanos foram apresentados
às suas raízes pré-Alceu Valença, e o contato com o folclore típico da região teve
um efeito revitalizador para as gerações adolescentes do final do século 20. Ambas
colisões (duas culturas de terceiro mundo se colidindo ao mesmo tempo em que reconhecem
suas diferenças e semelhanças) deram origem a movimentos musicais que tiveram
desdobramentos sociais, tornando ricas e férteis os terrenos locais. O que vemos agora é
o braço musical de uma destas cenas refletindo-se na cena criada pelo braço musical da
outra, em perfeito transe musical coletivo. Se ainda lembrarmos que um dos pontos de
consumo de drogas de uma destas cenas é a mesma Holanda cujos ancestrais trouxeram Recife
para a modernidade há mais de duzentos anos, fechamos a conexão e tudo faz sentido.
Por isso não soa estranho quando um grandalhão sai do fundo do palco com
uma tamboura hindu sacolejando-se no ritmo jamaicano eletrônico ao mesmo tempo em que o
público bate pés e cabeças em um mesmo ar tropical. É um festival de rock? É. Mas o
conceito "festival de rock" (tantos Woodstock, Hollywood Rock, Reading e Rock in
Rio depois) torna-se limitado para conceber a troca de energias entre banda e público que
acontece num Abril Pro Rock. O festival pernambucano é uma mega terapia de grupo, um
laboratório de colisão de emoções positivas onde qualquer cientista social (ou
psicólogo) veria o quanto a unidade coletiva de um grupo pode mexer com a consciência de
cada indivíduo. O Estado tem as armas, a burguesia tem o dinheiro e o que o povo tem? A
mobilização, a possibilidade de mudar vidas e o rumo histórico apenas com a quantidade
de pessoas reunidas em torno de um mesmo ideal. Do mesmo jeito que qualquer dono de time
de futebol delira quando a multidão berra um gol, vertendo gritos em votos, consumidores
ou influência política, qualquer entusiasta do novo entra em devaneio febril ao perceber
que a utopia intacta de uma população jovem e bem informada pensando positivo é
possível. Resta saber como manter a energia gerada nesta válvula social ainda ligada,
sem deixar o teor revolucionário do encontro coletivo cair quando o show acabar.
E depois de mais de duas horas e meia (de músicas dos dois últimos discos
e até números novos - um deles sobre a situação dos prisioneiros no Brasil), o dínamo
ADF é desligado e, putz, três da matina, todo mundo debanda. Melina sobe ao palco
principal para anunciar a apresentação do DJ brasileiro (residente na Inglaterra há uma
cara) Amon Tobin e o público sobrevivente fica apenas para dizer que viu o tal músico em
ação. Mas Tobin começa mal, pegando leve, e não parece antever a distorção de
caráter que faria em menos de meia hora. Mas antes disso, outra parte do público
debandou correndo, deixando apenas uma centena de corajosos entenderem o lado direito do
cérebro do euro-brasileiro. Do começo light à metade do set, Tobin já havia distorcido
os sons originais que discotecava, transmutando-os todos em ecos sintéticos de um futuro
próximo, fazendo-os distorcer um som pesado e robótico. Drumnbass cabeção,
um torpor industrial de ritmos que estremecia as paredes da sala de imprensa com seus
graves. Lá dentro, as pessoas caíam umas sobre as outras, dança do dominó, à espera
da van que nos levaria de volta ao hotel. E o povo do apê do roque vindo de gaiato no
navio, combinando as pautas e quem escreveria os textos. Apenas eu e Matias ainda de pé,
100%, motivos óbvios. Terminei de ver o show do cara da lateral do palco, ainda pasmo com
a energia dos últimos heróicos noturnos, gente que fechava os olhos para deixar o baixo
carregado tomar conta do ambiente. "Amanhã vai rolar uma festa em que ele vai tocar,
depois do show", me explica Melina. "É, aí talvez dê pra ter uma noção
melhor do impacto do som dele", concordei.
Todos na van, vamos daqui até o hotel ouvindo os comentários de Matias
(nervosaço) sobre tudo quanto é assunto. "Odeio gordo! Cara, eu odeio gordo",
dizia sem motivo nenhum (sem notar o gordo - e provavelmente bilíngüe - correspondente
do New York Times ao seu lado [se bem que vai saber se alguém já disse pra ele como era
gordo em inglês - só se o cara for um complexado geral, o que torna a situação mais
absurda]), antes de improvisar uma versão inglesada para Quando a Maré Encher. Pra
apaziguar, lembro para o moleque de The Tide is High, do Blondie, e ele começa a entoar o
reggaeinho e, achei, aos poucos acalmar. No fundo da van, Bragatto dava aulas de sabedoria
rocknroll enquanto o sol nascendo. Pedia para que olhássemos para o nascer do
sol e perguntava: "O que vocês lembram quando vêem esta cena?", inquiria,
metafísico. Derrubados, ninguém soube soltar a menor divagação sobre a aurora do
sabadão. Felizmente. "Isso é a capa do Caress of Steel, do Rush", disparou,
"ou em bom português: Carência de Metal". Rei-filósofo, diria
Sócrates. Completaria sua liturgia ao sentenciar, sem delongas, que "hoje é que
começa o Abril Pro Rock!", ao lembrar da noite pesada do festival, que aconteceria
ao final do dia. Also spracht Marcos Bragatto.
Chegando no hotel, aquele downtempo básico para esperar o café da manhã, à beira da
piscina. Matias foi ao quarto e trouxe seu laptop, sacando um CDzinho só MP3s diversos, e
fez um sarau latino, quebrando a seqüência de músicas em espanhol apenas para um ou
outro número do Bob Marley ou do Mano Negra (ah, como esquecer: DOZE versões diferentes
para La Cucaracha). Foi para provocar Bragatto: "Que língua horrível, castelhano
definitivamente não tem nada de rocknroll", bradava, tomando cerveja às
cinco da manhã, "português já é duro agüentar, espanhol então...". E
continuava: "Cadê a guitarra? Não tem guitarra nessas músicas, não? Porra, isso
não é rock". Entre risadas, controvérsias e regras cagadas naquela
despreocupação típica das primeiras horas do dia (com Luciano Vianna e Clarah
ameaçando pular na piscina). Matias ainda arma um penteado mullet inacreditável,
esculpindo aquele cabelo engrenhado num visual laquezaço, enquanto os diálogos na mesa
beiram o surrealismo: Tentei transcrever, mas melhor não tentar.
Dali pro café da manhã (o mesmo ovo mole do ano passado, a mesma lentidão em servir
os pratos, a mesma macaxeira cozida, o mesmo copo minúsculo para pegar suco) e depois pro
quarto para, aí sim, começarmos tudo de novo, no sábado à tarde. Matias foi o primeiro
a pular da cama e depois de ver que era limpeza ficar no hotel, zarpou para o dito apê do
roque para pegar suas coisas e ficar tranqüilo na conexão Olinda - APR. Bragatto
resolveu ficar no hotel (eram três da tarde e a van sairia às cinco), enquanto eu e
Tomate fomos caçar almoço. Fomos atrás do tal Mourisco que, fechado, fomos informados
que o restaurante já não era mais grande coisa. German, guia local, nos deu as
coordenadas para outro pit-stop obrigatório: o restaurante Goya. No caminho, ia nos
contando do carnaval local ("mulher até o teto!") ao mesmo tempo em que
vangloriava-se de suas conquistas sexuais recentes. Engraçado isso: você nem conhece o
cara e no minuto seguinte ele está te contando sua vida íntima - mas de uma forma
camarada, apenas para você fique à vontade. Chegando no restaurante (depois do guia ter
parado em várias janelas para cumprimentar dezenas de pessoas), ele caiu fora e ficamos
conversando sobre qualidade de vida, e eu percebo que cada vez mais fico hippie no que diz
respeito ao meu próprio futuro. Toda vez que eu chego perto da natureza, vejo que não
tem mistério; que o lance é chegar cada vez mais perto... Enquanto o compadre falava das
qualidades da terra natal (Floripa) com o entusiasmo de um Guia 4 Rodas (citando números,
estatísticas, o escambau), eu ficava olhando para os pés de cajá que deixavam frutas
cair sobre as telhas das casas e os coqueiros que cortavam o horizonte. Morar no Nordeste
deve ser do caralho, quando finalmente conseguir sublimar estas "facilidades" da
vida eletrodigital que só fazem a gente ficar mais tempo presos e sentados, estagnados no
espaço-tempo sob a ilusão de estar nos movimentando. Na frente de nossos computadores,
sofremos de uma ilusão de ótica idêntica às cenas de correria dos princípios do
cinema: parados no mesmo lugar, vemos o cenário se movimentar e, fechando o cérebro para
o óbvio, achamos que estamos nos movendo. Um dia eu tomo coragem e me mudo pro mato.
Voltando pro hotel (no mesmo táxi do dia anterior, fechando com Tiago um
esquema para ele nos descolar o principal prato da culinária local), a van já havia
saído e Bragatto, de camisa social e tudo mais ("Gods of Metal" bordado na
lapela) estava nos esperando. Matias voltava do apartamento em Boa Viagem com a bagagem,
nauseado - "tá foda, lá". Foda quanto? Fecofilia? Coprofagia? Saló? Ângela
CO-CÔ? Eu hein... Chamamos uma segunda condução e chegamos quando o Dolores del Fuego
estava na metade de sua apresentação. Não convenceu - era daquelas bandas formulaicas,
presas ao trinômio metal-punk-hip hop que prende qualquer aspirante a
rocknroll numa camisa de força criativa. Os americanos Queers, que vieram
logo em seguida anunciados como "influenciados por Ramones", abriram seu set com
Rockaway Beach e a galera foi à loucura. Hoje, sábado, apesar das meninas bonitinhas, é
um dia como qualquer outro festival de rock, em termos de público. Tá certo que em
linhas gerais ainda é melhor que a média de qualquer platéia (todo mundo que te esbarra
pede desculpa, coisa deste nível), mas lá estão os escravos do rocknroll,
aquela molecada sangue de boi, que bebe até morrer e só quer ouvir os mesmos três
acordes de sempre. É a choldra retrógrada, a porção mais conservadora do festival, que
faz a massa usar roupas pretas num dia de sol. Enfim, só isso explica a comoção causada
pelo hit punk. Ok, Joey Ramone tinha morrido há mais ou menos uma semana, mas mesmo
assim, não era para tanto. "Carbonão", disse tanto o Matias quanto o Zé
Felipe sobre o show dos caras, comparando-os com a banda mais ramônica do Rio de Janeiro.
"Carboninha", pensei: o Carbona é muito melhor que isso aí que tá no palco.
Banda de punk velho, coisa que sempre merece desconfiança. Punk velho, não banda.
Depois, no palco menor, veio o Infierno, do Rio de Janeiro. Boa pedida -
metal à moda antiga com alguns toques de modernice (nada de novo metal, estou falando da
facção genérica que busca conselhos na música eletrônica, no industrial e no punk
rock, mas sem deixar o sotaque sair das fronteiras Black Sabbath/ Metallica fase I). Bom,
bom... Não é o tipo de música que eu escuto em casa, mas é fácil ver que os caras
têm a manha. O público está gostando, o som (tecnicamente) é bom, dá até pra
imaginar o discurso: "Estamos resgatando a linha evolutiva da música popular
brasileira que parou em Chaos A.D.", hehehe... Aí os caras atacam de Construção.
É, esta mesma, o clássico proparoxítono. Metal cabeção. Entre outras covers (que
mais? Nem lembro), tocaram Pet Sematery, dos Ramones, claramente populistas. Ponto fraco
do show. Cansou, né? Sobe a caravana ao segundo andar do Calcinha Preta, na varanda, de
frente pro palco principal. Ia começar o show do Ratos de Porão, o Rappa da segunda
noite.
Em escala industrial, ficamos observando os Ratos à distância. Eu tenho uma
teoria sobre o Ratos de Porão. Que eles são a banda mais barulhenta do Brasil, isso não
se discute. João Gordo faz com as palavras exatamente o que qualquer outro músico da
banda faz com o som de seu instrumento: distorce, quebra, amassa, tritura, mói. O
resultado sonoro é um liqüidificador de som que aproxima o grupo de experimentalistas de
primeira, desde monstros sagrados da música erudita moderna a titãs intelectualóides da
música eletrônica para dançar. Só dá pra ouvir (ou melhor, entender) a música do RDP
como um rolo compressor ritmado, como os mais pesados drumnbass. Você só
entende os ciclos do som, o rugido da banda, o barulho primal. Aí você vai ouvir os
discos dos caras e nenhum deles faz jus ao que é a banda ao vivo - a maioria deles faz
com que os Ratos soem tão agressivos quanto o Sepultura na fase mineira. E eles são
muito mais barulhentos do que isso. A minha teoria é: os Ratos de Porão merecem
continuar vivos até fazer o disco mais ruidoso da música brasileira. Este mérito tem de
ser deles e tinha de ter um produtor que topasse entrar no estúdio com os caras para
quebrar o som. Quebrar, este é o verbo. É isso o que eles fazem com a música: quebram.
Tirando as versões (como O Dotadão Tem Que Morrer, dos Cascavellettes - porra, esses
caras tinham de ser fodões na história do rock brasileiro -, e Commando, dos Ramones -
quebrando um tabu e tanto: o RDP não toca isso, que é cover clássico na carreira do
grupo, desde um pau numa turnê dos Ramones no Brasil), não dá pra reconhecer música
nenhuma. O que se reconhece é a vibração, o andamento, o peso. Fizeram um showzão, o
público curtia pacas e João Gordo - goste ou não - é um dos poucos vocalistas de rock
pesado no Brasil que têm um pingo de noção do que é carisma.
Eis que entra na roda da varanda Wado, o novo nome do pop alagoano. Aliás, parêntese
aqui: Maceió cada dia se firma como "nova Seattle", devido à quantidade de
bandas novas e espírito rocknroll que cresce na cidade. O mesmo acontece em
Goiânia, mas as bandas do cerrado ainda não aconteceram como as alagoanas. Primeiro,
veio o Mopho; depois o Sonic Júnior (ambos no Abril Pro Rock deste ano, a primeira em
Recife, a segunda em São Paulo) e agora vem Wado, com seu excelente O Manifesto da Arte
Periférica, até agora o melhor disco de 2001. Sai Daft Punk, sai Vídeo Hits - o lugar
é deste catarinense radicado em Maceió que conseguiu fazer um disco com sotaque, mas sem
soar pós-mangue beat. Os dois discos que mais gostei no ano passado foram o do Mundo
Livre S/A e o do Badly Drawn Boy. Wado converge os dois e cria um Damon Gough sambista,
praiano. Com uma mensagem clara (e tão aprazível quanto todo o universo de Jorge Ben),
uma banda afiada e um suíngue gostoso, Wado despretensiosamente coloca-se entre os novos
grandes e, como quem não quer nada, busca seu lugar ao sol. O problema é que o cara
fechou com a Dubas, selo carioca do produtor Ronaldo Bastos, e isso faz com que o disco
seja meio impossível de se achar nas lojas normais. Por isso, a saída é a internet: o
cara tá fazendo um site próprio (http://www.wado.com.br - que ainda não tava
funcionando) e pode ser que se ache este disco nas megastores da vida. De qualquer jeito,
dê um jeito de caçar: só a faixa A Linha Que Cerca o Mar vale a bolachinha.
Papo vai, papo vem, fazendo um atrás do outro e os Raimundos começam - e
chutando o balde com Blitzkrieg Bop e Surfin Bird (de quem?). Confesso que perdi a
paciência, faz tempo, com os caras. O primeiro disco é legal, mas do segundo em diante
os caras se conformaram em ser só aquilo mesmo, sem acrescentar nada à fórmula criada.
Mas o público não tá nem aí; mesmo porque eles têm uma cacetada de hits - e os vão
tocando um atrás do outro, paulada na moleira. A impressão é estarmos frente a uma
banda de rock clássico, sem pender para subgêneros como punk ou metal. Como o Kiss, os
Ramones ou o Deep Purple, o show dos Raimundos é composto por músicas para cantar com o
punho fechado pra cima, berrando riffs de guitarra e o refrão em uníssono. Pena que o
som é um saco - mas o show garante a felicidade de quem se contenta com isso. E tem uma
placa de plástico entre o baterista Fred e o resto da banda? Coisa estranha. O show vai
crescendo à medida que passa e a massa vai encorpando cada vez mais o som do grupo. Até
que o ápice acontece quando toda a banda sai do palco, deixando apenas o guitarrista
Digão que, só na guitarra, faz a audiência cantar o hit candango Liberdade pra Dentro
da Cabeça, aquele, dos Nativus. Excelente - como o ADF na noite anterior, foi via Jamaica
que os Raimundos tiveram seu clique com o público. Indo no clima, emendaram com o Reggae
do Maneiro e aí sim a magia de um show estava completa. Nada da agressividade besta das
músicas do grupo, mas uma harmonia coletiva que colocou meninas nos ombros de boa parte
do festival e todo mundo cantando junto. Finalizaram o set com o rap bobo de Boca de Lata
e a versão percussiva para Kaiowas, do Sepultura (com os quatro tocando bateria), mas já
haviam ganho a noite com os dois momentos reggae. Poderiam cagar no palco que seriam
ovacionados.
Findo o show; onze horas? Entre papos com o pessoal da produção do festival
(detalhando o corre-corre por trás do espetáculo), esperamos os jornalistas se
organizarem para ir para a tal festa com o Tobin, num lugar chamado Armazém 14, "com
uma puta vista pro mar", prometia Melina. Boa nova: os MCs do ADF e seu DJ estavam na
lista de estrelas da noite, prometendo infernizar o povo com um drumnbass
maligno. Ótimo. Parte do povo foi direto pra festa, mas desviei um pedaço da turma pro
hotel, pra uma recarregada de energias e, daí sim, pra festa. Acionamos Tiago, o
intrépido taxista que ativou o Bob Marley. Tudo numa boa: táxi-sauna no Recife à noite,
taxímetro desligado, todo mundo espremido dentro do carro enquanto a cidade sorria com a
franqueza de uma prostituta no final de uma boa noite. Chegamos ao lugar, um baita
galpão, e Amon Tobin está mandando um set bem parecido com o da noite anterior. O
povaréu todo se apertava na pista de dança enquanto a caipirinha a um real fazia a festa
da moçada. Mas cadê o Tobin depois que os moleques do ADF assumem as picapes? Nem sinal,
deve ter ido pra casa, com vergonha. Meu deus, aquilo começa a se tornar o melhor
inferninho do mundo, todo mundo pra lá de Bagdá, na beira-mar, esperando o sol nascer
enquanto os inglesinhos entortavam funk, reggae e jungle no mesmo pulsar, fazendo o
cérebro chacoalhar dentro da cabeça com o mesmo entusiasmo que os quadris. Se não rolou
som no Calcinha Preta todo o festival, era ali que estava batendo o coração do evento. O
sol nascia (coisa linda, desfecho perfeito pra uma noitada e tanto) e Luciano Vianna
estava desesperado atrás do Chandrasonic, guitarrista do ADF, que estava querendo ir pra
casa e, de repente, sumiu. Nada de pânico (será?): Matias foi dar um rolé com o cara
pela cidade. As pessoas aos poucos foram indo embora e eram mais ou menos sete da manhã
do domingo quando vi a cara do hotel de novo.
De volta ao quarto, passar uma água no rosto pra encarar o café da manhã e
- toc, toc - batem à porta. Desesperado, o sujeito pede um "kit-maconha".
"Como assim, kit-maconha?". "Ah, sabe como é, seda, fogo...". Olhares
assustados - "coisa estranha..." - e "ah tá, pega aí". "Mas,
peraê, e a maconha?". "Ah, tu quer isso?", "Quero, quero",
"Então tá, toma". O cara vai embora e "só faltou pedir pra enrolar,
hein?". Dá cinco minutos e - toc, toc -, o mesmo cara. "Qual foi agora?".
"Enrolaê pra mim!". Ataques de riso. "Tá, tá - podem rir, mas faz
aí". "Tá bom, me dá o fumo". "Que fumo? Gastei tudo".
"Como assim, GASTOU?". Depois do susto emudecedor, explosões de riso. O cara
sai puto e chega a hora do café da manhã. No meio da mesa, o mesmo cara surge no
horizonte, cumprimenta com um murro no ombro (sem olhar na cara) e, sem rumo, pula na
piscina. Não esperava o reencontro depois do vexame. Segundo desfecho surreal pra segunda
noite.
No dia seguinte, à tarde, novo almoço e, de volta ao hotel, encontramos os moleques
do ADF na portaria e, após cumprimentos, eles notam a cor das pontas dos meus dedos
(vermelhas, sem exagero) e me perguntam onde têm fumo. "Luciano told us today was
smoking day and we havent smoked any!", lamentava um dos moleques. Outros ADFs
entram em polvorosa ao saber que alguém tinha fumo naquele hotel. "Lesmoke! Lesmoke!
Say ten ma-col-nga?", falavam em portinglês rastaqüera. Vamos lá, vai. Carregamos
meio ADF prum bate papo esfumaçado no 14, um verdadeiro intercâmbio cultural. As
conversas iam de futebol a drogas, passando por música, hábitos alimentares, funk
carioca, cultura brasileira, movimentos sociais, sistema carcerário, showbusiness e
outros assuntos. Curiosidade, surpresa, susto e conhecimento rolando pelo quarto enquanto
a bruma embaçava a vista. De repente, um deles presta atenção no som que está tocando:
"Isto é Prince Far I?". "É", respondi, "é uma coletânea da
On-U-Sound". O sujeito dá um sorrisão: "Pô, eu trabalhei na On-U-Sound, olha
que legal. Adrian Sherwood adoraria conhecer o Brasil". Muitas rodadas depois de mais
de duas horas de papo furado e os caras começaram a pedir arrego. "Não quero mais,
não, valeu", diziam. Haha, overdose na cabeçada? Asian Dancehall Foundation, isso
sim.
Correndo pro festival, porque já havia começado há um tempo. Ouço o Mopho tocando e
fico feliz: já havia perdido dois shows dos caras, conheço os sujeitos e ia ficar muito
puto se perdesse um terceiro. Mas cadê o tecladista? No lugar, entrou um sujeito com um
violão. Brigaram, disse-me alguém, e o teclado saiu da banda. Rapaz, vejam um jeito de
voltar o teclado urgente. Porque mesmo sem o teclado a banda funciona, mas é ele quem dá
o charme psicodélico ao grupo alagoano. Sem teclado, a banda fica num meio termo entre um
Made in Brazil puxado pro folk e um Tutti-Frutti requentado, ultrapassando os limites
permissíveis do bicho-grilismo. Por isso, todo cuidado é pouco, daqui pra frente.
"Tu viu o Jon Spencer?", alguém me perguntou. O QUÊ? Já rolou? Por um
segundo, fiquei meio aéreo - caralho, como é que eu vou explicar que não vi o...
Peraê: explicar pra quem? Não tô trabalhando pra ninguém, não vim pro festival fazer
uma cobertura formal, o único motivo de ter vindo foi escrever esse texto que você tá
lendo agora. Porra, eu não tenho patrão! Foda-se o Jon Spencer, não é pra ficar tão
puto. Mas aí veio o pedaço do cérebro que gosta de estar em todos os shows puxar a
minha orelha. Mandei-o se fuder. Porque é aquela coisa: só os shows da segunda-feira já
foram suficientes para justificar a vinda ao Recife e o show do JSBX não deve ir muito
além do que um puta show de rock. Mas será que é isso que eu quero? Na boa, já vi uns
três shows dos Butchers Orchestra que fecharam tudo que eu esperava de um show de
rock. Na real - show de rock cada vez me parece um conceito limitado. Não sei se eu teria
a mesma reação que teria há uns cinco anos, quando comecei a escrever pra valer. Vai
ver, estou ficando velho. Pensei até em ver o show do cara em São Paulo, mas depois
pensei bem: já tô passando um fim de semana longe de casa, não vou ficar DOIS fins de
semana à base de shows, deixando minha mulher sozinha em casa. Já bastou a maratona do
Rock in Rio este ano. Então me conformei em ter perdido o show dos caras e, sei lá, foi
melhor assim. Ninguém morre por isso e quebra aquele tabu que você TEM QUE VER todos os
shows que possa conseguir assistir... Não é desdém, não, eu queria ver um show do Jon
Spencer, sim, sempre quis - como queria ter visto o show do Textículos de Mary, que todo
mundo chapou (falaram em Alice Cooper, teatro do absurdo, Kiss, Plínio Marcos, Secos e
Molhados, pornografia gay, New York Dolls, músicas de duplo sentido, Marilyn Manson, tudo
de uma vez só). Mas não se pode ter tudo o tempo todo - é uma das lições que a vida
te ensina.
Passando o Mopho foi a vez do Mundo Livre S/A fazer as pazes com Recife, depois de
passar ao largo do Abril Pro Rock por um tempão (Paulo André e o empresário do grupo,
Gutchie, não se bicam) e, finalmente, lançando seu Por Pouco em sua cidade-natal. O
grupo liderado por Fred 04 é uma banda mais de estúdio do que de palco, definitivamente.
Mas pelo que pude acompanhar a evolução de seus shows, deu pra ver o quanto eles
cresceram. Quando Otto ainda estava na formação, era uma banda desencontrada, parecia
que Fred puxava qualquer música e os outros seguiam como dava. Aqui no palco do Abril Pro
Rock, não. Se bem que é aquela coisa: todo mundo já sabe cantar cada uma das músicas
do grupo, até os refrões mais improváveis. Optam pelo lado mais rocknroll
de sua discografia (a faceta Super-Homem Plus e Concorra a um Carro) e aos poucos vão
caindo pro sambão, sendo seguido fielmente pelo público, disposto a ser levado. Zero
Quatro percebe a deixa e discursa à vontade, sobrando até pro chocolate (ele fez um
discurso inflamado sobre como o chocolate vendido no Brasil usa cacau estrangeiro e é
feito por mão-de-obra semi-escrava). O show está coeso, a banda está boa, o som
(embaixo do esfumaçado palco) está legal, mas... algo evita o estado
"showzão" das coisas. Claro: a dispersão de energia. Efeito semelhante teve o
show do Mudhoney em São Paulo - o que acontecia no palco não chegava no público com o
mesmo impacto, com a mesma potência. Por quê? Porque o espaço era grande demais e a
energia da banda vai se dissolvendo à medida que se afasta da fonte geradora. O show do
Mudhoney deveria ser feito num muquifo para 200 pessoas (oito shows numa mesma semana, pra
todo mundo ir - falta essa mentalidade, de temporada, aos produtores de show brasileiros,
sejam de gringos ou artistas nacionais); o show do Mundo Livre num espaço de mesma
lotação também não deixaria uma partícula de energia escapar dos ouvidos do público.
Ano passado mesmo, eu vi um show dos caras num palco bem menor (no Woodstock? Não lembro,
acho que não, um lugar perto da Consolação - o show começou meia hora depois do Tom
Zé lançar o seu Jogos de Armar (Faça Você Mesmo) no antigo Palace) e o impacto sonoro
é melhor canalizado. O foda era que era aquele público paulistano, metade "do
rock", metade "da mídia" (os abas), que prefere ficar analisando os
movimentos de cada um dos integrantes da banda a simplesmente se divertir. Imagino aquele
mesmo show, no mesmo lugar, transportado para o Recife que assiste, com um sorriso nos
lábios, a reconciliação da banda com o festival mais importante do Brasil.
Falando nisso, cai um mito aqui. O Abril Pro Rock sempre foi lembrado como um
festival alternativo ou um festival de novas bandas, mas não há nenhuma coisa nem outra
nesta edição. As bandas novas não destoam da média, a alternatividade é quase zero -
afinal, o que é ser alternativo em tempos de cultura tão pulverizada quanto os nossos? A
sacada do festival (provavelmente, não intencional) foi criar esta própria aura para si
mesmo e ir comendo pelas beiradas para fazer do evento o melhor panorama da música
brasileira atual. Ainda faltam alguns remendos para assumir definitivamente (ou melhor,
oficialmente) este posto, afinal os medalhões ainda são escassos e é uma festa bancada
praticamente pela venda de ingressos - a ajuda oficial não é nem metade do preço do
festival -, por isso, os produtores ainda têm de pensar em nomes que tragam público. Mas
uma coisa que vem se firmando cada vez a cada ano é o fato que o público está indo para
o festival para ver o festival - e não uma ou outra banda. Outro movimento migratório
interessante é a ida em massa (tudo bem, não tão "em massa" assim, mas vão)
de gente de outras cidades do Brasil. E quem vem de fora sente o impacto cada vez mais
forte: um festival super organizado com um elenco de encher os olhos de qualquer um que
goste de boa música pop (imagine, quando você pode ver Asian Dub Foundation, O Rappa e a
Nação Zumbi na mesma noite? Ou Jon Spencer Blues Explosion, Lobão com Arnaldo Baptista
e Mundo Livre S/A?), com um público espetacular (moderno, esperto, bonito, jovem, bem
educado, quente, alto astral, sossegado), numa cidade ímpar, turística e mundana. É
este todo que faz do Abril Pro Rock o melhor evento musical do Brasil. Transfira o evento
para outro lugar e não terá a mesma graça que em Recife. É o magnetismo natural da
capital pernambucana que transforma o festival em parada obrigatória pra quem quer se
divertir. Sem contar o serviço e tanto que é ajudar a mostrar como a dobradinha Rio-SP
já deu o que tinha que dar e pode (aliás, deve) ser descartada como centro da produção
cultural brasileira. Para chegar a seus pés, o Free Jazz tem cada vez que juntar mais
nomes gringos fodões. É a velha dupla, sempre separada: uns têm a grana, outros têm a
manha.
Novamente o público se acumulou em volta do palco secundário, esperando a nova banda:
era a vez do Brasov, do Rio de Janeiro, uma banda instrumental cuja cena principal gira em
torno dos metais. "Essa é da Bulgária!", "essa é da
Bielorrússia!", "essa é do Kazaquistão!" - iam disparando temas musicais
de veia leste-européia, trazendo aquele popzinho cabeça de faculdade de música que, há
muito, não me levanta nem a sobrancelha. "Karnak instrumental", as pessoas
começaram a falar ao redor, e com razão. Pode ter gente que ache legal, mas, sei lá, eu
não. Ora de dar uma passeada pela feirinha de artesanato do festival, comer uma comidinha
típica, ver os discos de bandas novas, essas coisas...
Findo o Brasov, Lobão entra no palco. Engraçado: a maioria das pessoas com que eu
conversei não tiveram a oportunidade de ver um show da nova fase do ex-Blitz. Engraçado
porque eu imaginei que, com o sucesso de sua volta à mídia (mesmo como anti-mídia), ele
tivesse recebendo bons elogios quanto a shows, coisas do tipo. Eu mesmo havia visto o show
do cara no Porão do Rock, em Brasília, no ano passado. E comparando aquele show com este
de hoje à noite... Bem, não dá pra comparar. Em Brasília, Lobão fez um show de TRÊS
HORAS, tocando TODAS as músicas que vieram à sua cabeça. E a banda - no baixo, Dé,
ex-Barão; e o produtor Jongui, na bateria - era outra, mais afiada, segura. Mas como boa
parte do povo não tinha visto nenhum show, todo mundo tava gostando. "Tem
pegada", "show de rock", etc... Nah, o show de Brasília tava bem melhor do
que este.
Até que as coisas começaram a dar errado. Numa música, Lobão tropeça e
cai. Em outra, atira o pedestal do microfone (que quase cai na cabeça de todo mundo - eu
inclusive - que estava no fosso dos fotógrafos). Começa a reclamar no microfone, diz que
"tava com medo que tudo desse errado". Depois dá outro chilique e atira uma
garrafa de vinho no chão, a guitarra tava desafinada, sei lá o que aconteceu com o cara,
ele tava tendo uma crise de descarrego braba. Torci pra não ser nada com o Arnaldo que,
até há pouco, tava dando voltinhas atrás do palco, acompanhado da mulher/babá. Sei
lá, vai que deu uma merda e o Lobão tá disfarçando pra não dar na cara. Bate na
madeira aí, malandro, senão, já viu. E o cara ficava falando mal do Padre Marcelo
Rossi. Disseram que ele amarelou pro Caetano num Jô Soares da vida e parece que agora seu
alvo favorito é o bicho-que-pula. Porra, Lobão, todo mundo que te ouve SABE que o Padre
Marcelo é um dos males brasileiros encarnados, gritar contra ele num show de rock é o
mesmo que queimar guitarra, só tem efeito cênico. Mira num inimigo mais alto, no cara
que controla o Padre Marcelo, mira na Rede Globo, não sê tão óbvio, vai. Entre uma
esquisitice ou outra, o carioca ia ressuscitando hits (que a maioria do público não
lembrava) e citando seus discos mais recentes. Talvez só Me Chama (cantada só pelo
público), Vida Bandida e Rádio Blá atiçaram a platéia que, bom frisar, bem menor que
as dos dois dias anteriores. Neguinho não conhecia Decadence Avec Elegance, Vida Louca
Vida, Corações Psicodélicos! Cacete, é a idade...
Certa feita, o show é interrompido para que o dono do show chame ao palco o
bom e velho irmão Baptista, o louco mais querido do Brasil. Com seu figurino
Roger-Daltrey-em-Woodstock e sentado na banqueta que colocaram para ele na frente do
teclado, Arnaldão entrou amarradaço, sorrisão no rosto, besta de ver aquela galera toda
o aplaudindo. Escolheram uma seqüência de músicas quase sem hit: Senhor Empresário,
Sexy Sua, Sanguinho Novo e, no meio delas, o hit Ando Meio Desligado, que todo mundo
cantou junto (novela das sete, esqueceu?). Musicalmente não foi lá grande coisa (o show
já não estava sendo): valeu apenas pelos improvisos Jerry Lee Lewis/Captain Beefheart do
velho mutante ao teclado. Mas mais do que isso - lá estava o cara ("o" cara),
cantando e tocando naturalmente, com algumas seqüelas do passado, claro, mas ótimo,
pronto pra outra. Não chamando os caras errados pra tomarem conta da sua volta (a última
trouxe-o acompanhando de Guto Graça Mello e Wander Taffo, regravando a manjada Balada do
Louco), o cara parece pronto para soltar mais um de seus discos ímpares, esforços de
insanidade mental que lhe fazem a fama de Syd Barrett tropical. Ele ainda fala em gravar
seu disco "perdido", Let it Bed, mas vamos ver no que dá.
Festival encerrado, Paulo André e Melina acabam se encontrando na sala de imprensa
para uma espécie de balanço não oficial do fim de semana. No rosto dos dois, nada da
preocupação que antecedia o evento - tanto um quanto o outro exibem sorrisos largos de
satisfação. "Empatamos", comemorava Paulo André, "só aquele público da
primeira noite lavou a alma". Eles falam da vontade de crescer ainda mais, dos
contatos que tiveram com o Motörhead para esta edição, do desejo de restabelecer a
conexão latina (que trouxe a bela surpresa dos Aterciopelados, da Colômbia, no ano
passado), da apreensão quanto à edição paulistana do evento, enquanto trocamos piadas
e comentários positivos sobre o evento. Não resisti e perguntei: "Tava foda,
né?". Os dois trocaram olhares cúmplices, com sorrisos presos no ar, soltaram uma
pequena risada exatamente no mesmo fôlego, aliviados, e voltaram os olhares pra mim.
"Olha, tava", concordava Melina, apertando os lábios numa risada horizontal,
que abriu nos dentes que se mordiam de satisfação. "Se esse desse errado, não
tinha ano que vem, né?". "Eu não ia agüentar", suspirou a produtora, sem
convicção. Claro, o festival era cria dos dois, filhote. Até parece que os dois não
iam continuar tentando. Enquanto Melina explicava a tensão pré-produção, Paulo André
concordava calado, balançando a cabeça afirmativamente, limpando o suor da testa com as
costas da mão vez por outra. Olhar no infinito, a cada deixa que a parceira dava para o
humor - salpicado por comentários idiotas dos interlocutores jornalistas -, o dono da
festa abria ainda mais o sorriso, ainda sem acreditar que tudo havia dado certo. O segredo
de tudo talvez esteja justamente nesta inocência dos dois produtores, de acreditar que,
nove anos depois, ainda podem surpreender-se com um festival que só cresce a cada ano que
passa (em tamanho, em importância, em aceitação, como marca) e aos poucos vai se
firmando como uma das melhores manifestações culturais da história recente da música
popular brasileira - senão a melhor. Vai ver não é inocência, vai ver é justamente o
calor humano que faz falta ao resto do Brasil.
Mas apesar do palco haver desligado, o festival não acaba enquanto não se sai de
Recife. O povo ainda volta pro hotel, mas eu não tenho mais forças. Migro pro quarto,
enquanto o resto do pessoal brinca de Almost Famous com o Jon Spencer (eu falei que ele
tava de barba? Parecia o Charles Manson), com Lobão, os ADF, Arnaldão e outros menos
celebridades. Não dá, descansar era preciso. Sem surrealismos ao nascer do sol, hoje
não. A ausência de substâncias alheias ao corpo humano na terceira noite também
colaboraram para o tombo morto na cama. Às cinco da manhã (o festival tinha acabado
cedo, meia-noite) me acordam para fechar a conta do quarto: Bragatto e Tomate saem quase
de madrugada e o Matias chega para garantir um pingo de sono. Meio dia depois, acordo e
chamo o moleque para tomar uma cerveja. Vamos num botecão, pedimos um arrumadinho de
charque (carne seca, feijão verde, verdura, tudo misturado) e ficamos falando sobre a
vida enquanto bebericamos tranqüilamente a cerva. Voltamos para o hotel e, putz, em cima
da hora, preciso pegar o vôo. Como Matias ia pro outro lado da cidade, ele pega uma
carona no táxi e, merda, presos no trânsito. Vendo perder o avião, peço pro cara fazer
um desvio e ele passa pela favela do Coque (a do "Galeguinho do Coque", que
Chico Science cantava em Banditismo por uma Questão de Classe), enquanto eu fico rezando
e prometendo citar que estava rezando no texto para conseguir pegar o avião de volta.
Chego no aeroporto e, fudeu tudo, o vôo atrasou, sem previsão de chegar. Merda, vou
perder a conexão pra Campinas e se o avião demorar, perco até o ônibus que sai do
aeroporto de Guarulhos pra cidade. Arrisco e peço pra trocar de empresa aérea, pego um
vôo da Varig em cima da hora e em três horas estou em São Paulo (não antes sem passar
pelo aperto de descobrir se aquele avião estava indo pra qual dos aeroportos da cidade).
Em Guarulhos, tarde demais, perdi a conexão. O jeito é encarar o Caprioli pra Campinas.
Tudo bem: disco do Wado no fone, uma horinha de viagem, tempo para pensar em tudo que
aconteceu nas últimas 100 horas e tentar organizar tudo de forma racional. "Vitória
Química", diz o letreiro da fábrica à esquerda da rodovia. Hehehe...
Rocknroll? Que rocknroll? Com rock só no nome, o festival é
muito mais do que a imbecilidade retrógrada deste mostrinho chamado rock. O Abril Pro
Rock ao mesmo tempo em que ultrapassa o exibicionismo rock, volta às origens, ao começo
e faz uma volta completa, colocando os quatro pólos do mercado fonográfico - artista,
público, crítica e indústria - no mesmo nível. "Uma raiz é uma flor que despreza
a fama", canta a voz de Maceió no fone do discman. É isso.