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por Cristiane Campestrini

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Função da Arte

 

O Homem quer sempre ser mais do que apenas ele mesmo. Quer ser um homem total. Não lhe basta ser um indivíduo separado; além da parcialidade da sua vida individual, anseia uma "plenitude"que sente e tenta alcançar; uma plenitude de vida que lhe é fraudada pela individualidade e todas as suas limitações; uma plenitude na direção da qual se orienta quando busca um mundo mais compreensível e mais justo, um mundo que tenha significação. Rebela-se contra o ter de se consumir no quadro de sua vida pessoal, dentro das possibilidades transitórias e limitadas da sua exclusiva personalidade. Quer relacionar-se a alguma coisa mais do que o ëu, alguma coisa que, sendo exterior a ele mesmo, não deixe de lhe ser essencial. O homem anseia por absorver o mundo circundante, integrá-lo a si; anseia por estender pela ciência e pela tecnologia o que seu "eu"curioso e faminto de mundo até as mais remotas constelações e até os mais profundos segredos do átomo; anseia por unir na arte o seu "eu"com uma exist6ecnia humana coletiva, e por tornar social a sua individualidade.

Se fosse da natureza do homem o não ser ele mais do que um indivíduo, tal desejo seria absurdo e incompreensível, porque então como indivíduo ele já seria um todo pleno, já seria tudo o que era capaz de ser. O desejo do homem de se desenvolver e completar indica que ele é mais do que um indivíduo. Sente que só pode atingir a plenitude se se apoderar das experiências alheias que potencialmente lhe concernem, que poderiam ser dele. E o que um homem sente como potencialmente seu inclui tudo aquilo de que a humanidade, como um todo, é capaz. A arte é o meio indispensável para essa união do indivíduo com o todo; reflete a infinita capacidade humana para a associação, para a circulação de experiências e idéias. Outras vezes, ao contrário, serve para um desligamento, o observador liberta-se na arte do esmagamento em que se acha sob o cotidiano, causando uma excitação em controlar essa realidade.

O livre resultado do trabalho artístico resulta da mestria. É um processo no fim do qual resulta a obra de arte como realidade dominada, e não - de modo algum - um estado de inspiração embriagante. Aristóteles, tão freqüentemente mal compreendido, sustentou que a função do drama era purificar as emoções, superando o terror e a piedade, de maneira que o expectador ao se identificar com Orestes ou Édipo viesse a ser por sua vez liberatdo daquela identificação e se erguesse acima da ação cega do destino.

Dessa qualidade libertadora da arte Berlot Brecht disse o seguinte: "Nosso teatro precisa estimular a avidez da inteligência e instruir o povo no prazer de mudar a realidade. Nossas platéias precisam não apenas saber que Prometeu foi libertado mas também familiarizar-se com o prazer de libertá-lo.

No mundo em que vivemos, a realidade social precisa ser mostrada no seu mecanismo de aprisionamento. A obra de arte deve apoderar-se do público, não através de uma identificação pssiva, mas através de um apelo à razão que requeira ação e decisão, que seja incitado a formular um julgamento, afinal, quanto ao que viu: não era assim que devia ser. Assim, assite às suas próprias atribulações e sofre os impactos das incessantes transformações. Aqui poderá produzir-se a si mesmo da maneira mais fácil, pois o modo mais fácil de existência é exatamente a arte.

quanto ao conceito de realismo na arte, vemos que a nova e mais ampla realidade é determinada, em parte, pelo ponto de vista individual e socialdo artista. É a soma de todas as relações entre o sujeito e o objeto, envolve não só o passado como o futuro, não só os acontecimentos objetivos como as experiências subjetivas, os sonhos, pressentimentos, emoções, fantasias. A obra de arte une a realidade à imaginação. As bruxas de Shakespeare e de Goya são mais reais que os pintores idealizados que aparecem em certo g6enero de pintura. A rotina estúpida da vida cotidiana, elevada ao nível da sátira fantástica por Gógol ou kafka, revela-nos mais acerca da realidade do que as descrições naturalistas. Dom Quixote e Sancho Pança são mais reais, ainda hoje do que as centenas de personagens prosaicas que pululam em romances "tirados da vida real". Se decidirmos definir o realismo não como um método, mas como uma atitude - a atitude que fixa a realidade na arte - chegaremos a conclusão de que quase toda a arte ( com excessão da arte abstrata, do tachismo, etc ) é realista. Mas o realismo - em seus sentido mais estrito - é apenas uma das possíveis formas de expressão, e não a única.

Uma obra de arte não está obrigada a ser entendida e aprovada em princípio - particularmente - por qualquer que seja. A função da arte não é a de passar por portas abertas; mas a de abrir portas fechadas. Quando o artista descobre novas realidades, porém, ele não consegue apenas para si mesmo; ele realiza um trabalho que interessa a todos os que querem conhecer o mundo em que vivem, que desejam saber de onde vem e para onde vão. O artista produz para uma comunidade. Perdeu-se de vista esse fato no mundo capitalista. a arte deve procurar cumprir a tarefa de restabelecer sua unidade, através de um processo lento e doloroso, para erradicar, afinal, todos os sintomas de alienação.

O homem, que se tornou homem pelo trabalho, que superou os limites da animalidade transformando o natural em artificial, o homem, que se tornou o criador da realidade social, será sempre o mágico supremo, será sempre Prometeu trazendo o fogo do céu para a terra, será sempre o Orfeu enfeitiçando a natureza com sua mágica. Quanto mais chegarmos a conhecer trabalhos de arte há muito esquecidos, antigos, tantos mais claramente enxergamos, apesar da variedade deles, seus elementos contínuos e comuns. São fragemntos que se acrescentam a outros fragmentos para irem compondo a humanidade.

Enquanto a própria humanidade não morrer, a arte não morrerá.
 

Bibliografia:

FISCHER, Ernest. A necessidade da arte. Círculo do livro, São Paulo, 1959.

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