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Cousas
1. Domingo passado foi o dia internacional do roquenrol.
Viva. Vou pôr aqui o disco do Elvis que a Biba adora. Eu tenho pena
de quem não gosta de rock. É tão leve, tão simples e tão bom. Eu
já fui curado de um estado de mega tristeza (como diz um conhecido,
eu sou superficial demais para entrar em depressão) meramente ouvindo
Rock and Roll Star do Oasis. Um dia eu estava ouvindo a introdução
de Top Floor Bottom Buzzer do Morphine, e cheguei àquela conclusão
de ter pena lá de cima, sabe. Coisa simplíssima, linha de baixo
das mais elementares e bateria mais que ortodoxa, mas se você é
um de nós (os superficiais?) aquilo te pega pelos culhão e te põe
sacudindo o esqueleto, nem que ele conte com pança e carequinha.
Roquenrol é a minha dance music. Roquenrol e suas extensões. De
James Brown e Kool and the Gang a Mose Allison e Stevie Ray Vaughan.
Cês já me viram dançando? Não sabem o que estão... Cês já ouviram
Mose Allison? Perdendo.
2. Eu sei que vai ter branquinho que vai dizer que
o negócio todo é manipulado. Olha só, Caetano, você está ouvindo
Elvis e tua filha gosta de Heartbreak Hotel meramente porque a Disney
participou de um esforço, útil para ambolos lados, de reviver o
homem, já que o espólio cedeu as canções para Lilo e Stitch (Cês
já viram!?), para o comercial da Nike, e tudo o mais, numa estratégia
bem calculada e bem sucedida de promoção de uma reputação que andava
em baixa. Pois bem, um dia um arquiduque casou-se com uma moça de
condição inferior e descobriu que a mulher que ele amava não poderia
ser vista a seu lado em ocasiões oficiais, por não pertencer à nobreza,
a não ser que ele estivesse agindo na condição de comandante militar
e não de imperador, condição na qual ele então resolve passar em
revista (em carro aberto) suas tropas em Sarajevo: vem um maluco,
mete-lhe uma faca, suas roupas são justas demais e atrasam o socorro
à hemorragia, ele morre, começa a primeira guerra mundial, que nem
por isso deixou de existir. No ano que vem as pessoas vão falar
muito mais de Joyce do que neste.
3. Vi no Globo Repórter de sexta-feira. Parece que
era um negócio de religiões. Um monte de gente, bem alimentada e
bem vestida, no meio da noite, pulando em volta de uma fogueira
no mato, buscando um eixo espiritual para o seu mundo. Vivemos em
tempos de uma busca desesperada por uma condição de inclusão que
nos forneça simultaneamente um cosmo, uma organização de mundo e
de ações, substituindo, para alguns de nós, o catolicismo, para
outros a psicanálise e para outros qualquer outro jugo. E coisa
e tal e o canalho. Mas nada me fará crer que não existe uma diferença
qualitativa entre macacos saltitando na floresta em volta de fogo
e, por exemplo, eu. Tem dó.
4. Warden threw a party in the county jail. [...]
Let's rock. Everybody in the whole cell block.
5. Terça ou quarta-feira eu vou rodar lojas de estormentos
para vender duas guitarras. É difícil se desfazer de instrumentos.
Uma ligação bem maior do que a que se pode ter com a maioria dos
outros "objetos". Das minhas três guitarras fico só com a que o
meu pai me deu quando eu tinha quinze anos. Metade atrás. As duas
que eu comprei no correr dos anos vão para os cobres. Uma guitarra
é uma coisa especial, saturada, distorcida, vibra toda junto de
você, segura pela ponta de um dedo que, mexendo, altera o grito.
Um quarto de tom acima pode significar uma contorção e uma careta
que só assim a gente consegue em público (vestido, como dizia o
Miles Davis). Cada uma é diferente da outra. Há muito tempo comparo
a sensação de volume e forma de uma guitarra, e os formatos diferentes
que elas têm, aos diferentes corpos das mulheres (guitarra é um
instrumento sexista? Misógino?). Das minhas três, fico, no momento,
com a mais adequada. Semana que vem quero ver se volto mais nos
eixos.
ps. Eu tinha prometido uma promessa, não é? Pois eu
não sou mesmo confiável.
pps. Como os leitores mais antigos já sabem, o dia do Foda-se, alegremente
celebrado por esta Redação há onze anos, está se aproximando. Gostaria
de dizer que encontrei um lema ainda melhor que o do ano passado
(o glorioso Fuck You, I Won't do What You Tell Me, do RATM). Meu
novo lema mantém o mesmo espírito, com menos agressividade, mais
adequação ao meu estado de espírito desde o nascimento e um verniz
de curtura pra gente enganar os outros. Eis o lema, roubado do futurista
italiano Aldo Palazzeschi:
Lasciatemi divertire.
Té pra semana.
Caetano
Waldrigues Galindo, 29, é professor de Filologia Românica e História
da Língua Portuguesa na Universidade Federal do Paraná, e escreve
muito regularmente nessa coluna.
olapaonahileia@hotmail.com
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