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A Alegria
da Revolução
Capítulo 2: Excitação
preliminar
Descobertas
pessoais
Intervenções
críticas
Teoria
versus ideologia
Evitar
falsas opções e elucidar as verdadeiras
O
estilo insurrecional
Cine
radical
Opressão
versus jogo
O
escândalo de Estrasburgo
A
miséria da política eleitoral
Reformas
e instituições alternativas
Correção
política, ou igualdade na alienação
Inconveniências
do moralismo e do extremismo simplista
Vantagens
da audácia
Vantagens
e limites da não violência
Capítulo 2. Excitação
preliminar
«O indivíduo
não pode saber o que ele realmente é enquanto não
se realizar mediante a ação. . . . O interesse
que o indivíduo encontra em um projeto é a resposta à
questão sobre se deve atuar ou não e como».
— Hegel,
Fenomenologia do espírito
Descobertas
pessoais
Mais adiante tratarei
de responder a algumas outras objeções comuns. Mas enquanto
os objetores permanecerem passivos, nenhum argumento do mundo os comoverá,
e continuarão entonando o velho refrão: «É uma bela
idéia, mas não é realista, vai contra a natureza
humana, as coisas sempre foram assim». Quem não realiza seu próprio
potencial é improvável que reconheça o potencial
dos outros.
Parafraseando aquela
velha oração plena de sentido, necessitamos de iniciativa
para resolver os problemas que podemos resolver, de paciência para
suportar os que não podemos resolver, e sabedoria para discernir
a diferença. Mas também necessitamos ter presente que alguns
dos problemas que o indivíduo isolado não pode resolver
podem ser resolvidos coletivamente. Descobrir que outros compartilham
do mesmo problema é com freqüência o princípio
da solução.
Alguns problemas podem,
por conseguinte, ser resolvidos individualmente, mediante métodos diversos
que vão desde terapias elaboradas, práticas espirituais, e até
mesmo simples decisões de sentido comum para corrigir alguma falha,
romper com algum hábito nocivo, provar alguma coisa nova, etc. Mas não
me ocupo aqui de expedientes puramente pessoais, úteis mesmo dentro de
seus limites, mas dos momentos em que as pessoas se movem "para fora"
em empresas deliberadamente subversivas.
Existem mais possibilidades
do que parece à simples vista. Uma vez que se rechaça a
intimidação, algumas delas são muito simples. Podes
começar por onde quiseres. Mas tem que fazê-lo a partir de
algum lugar - Crês que poderás aprender a nadar se nunca
te atirastes na água?
As vezes é
preciso um pouco de ação para romper com o falatório
excessivo e restabelecer uma perspectiva concreta. Não importa
que seja algo transcendental; se não surge outra coisa, pode bastar
alguma iniciativa arbitrária - suficiente para mover um pouco as
coisas e despertar.
Outras vezes é
necessário deter-se, romper a cadeia de ações e reações
compulsivas. Aclarar o ambiente, criar um pequeno espaço livre
da cacofonia do espetáculo. Quase todos fazem isto em alguma medida, por
simples autodefesa psicológica instintiva, praticando alguma forma de
meditação, comprometendo-se periodicamente em alguma atividade
que serve efetivamente ao mesmo propósito (trabalhar no jardim, passear,
pescar), ou deter-se para respirar um pouco em meio a sua rotina quotidiana,
voltando por um momento ao «centro tranqüilo». Sem tal espaço
é difícil ter uma perspectiva sadia sobre o mundo, ou mesmo conservar
o próprio juízo.
Um dos métodos mais
úteis que encontrei foi escrever. O beneficio é em parte
psicológico (alguns problemas perdem seu poder sobre nós ao ordenar-se
de modo que podemos ve-los mais objetivamente), em parte pela questão
da organização de nossos pensamentos para ver os diferentes
fatores e opções mais claramente. Às vezes mantemos
noções inconsistentes sem chegar a tomar consciência
das contradições até que tentamos colocar essas coisas
no papel.
Às vezes tenho
sido criticado por exagerar na importância das coisas escritas.
Reconheço, assim, que muitos assuntos podem ser tratados de modo
mais direto. Inclusive as ações não verbais requerem
normalmente que se pense, que se fale e que se escreva acerca delas para
leva-las a cabo, comunica-las, debatê-las e corrigi-las eficazmente.
(De qualquer forma,
não pretendo ocupar-me de todos os assuntos; apenas abordo alguns
pontos acerca dos quais sinto que tenho algo a dizer. Se acha que esqueci
de passar algo importante, porquê você mesmo não faz
isso?)
Intervenções
críticas
Escrever te permite
desenvolver idéias em teu próprio ritmo, sem se preocupar
com tua habilidade oratória ou medo do público. Podes expressar
uma idéia de uma vez por todas em vez de ter que repeti-la constantemente.
Se é necessária a discrição, um texto pode
ser lançado anonimamente. As pessoas podem lê-lo em seu
próprio ritmo, parar e pensar sobre ele, voltar atrás e revisar
pontos específicos, reproduzi-lo, adapta-lo, recomenda-lo a outros, etc.
O discurso falado pode gerar uma reação mais rápida e precisa,
mas pode também dispersar tua energia, te impedir de se concentrar
e de executar tuas idéias. Aqueles que são escravos da mesma
rotina que te escraviza tendem a resistir a teus esforços por escapar
porque teu êxito desafiaria a passividade deles.
Às
vezes o melhor que podes fazer para provocar melhor estas pessoas é
simplesmente deixá-las para traz e seguir teu próprio caminho.
Ao ver teu progresso, algumas delas dirão: «Ei, espere-me!». Ou
transferir o diálogo a um plano diferente. Uma carta força tanto
quem a escreve como quem a recebe a desenvolver suas idéias mais
claramente. As cópias nas mãos de outras pessoas envolvidas
podem a avivar a discussão. Uma carta aberta pode atrair o interesse
de mais gente.
Se
se consegue criar uma reação em
cadeia na qual cada vez mais gente lê teu texto porque vê
que outros lendo e o discutem acaloradamente já não será
possível para ninguém fingir que não têm consciência
dos temas que estão circulando. (1)
Suponhamos, por exemplo,
que criticas a um grupo por ser hierárquico, por permitir que um
líder tenha poder sobre outros membros (ou seguidores ou fãs).
Uma conversa privada com um dos membros pode simplesmente resultar em
uma serie de reações defensivas contraditórias contra
as quais é inútil argumentar. («Não, ele não
é realmente nosso líder, e se for, não é autoritário,
e além disso, que direito tens tu de criticar?») Mas uma crítica
pública obriga a tirar essas contradições e põe as
pessoas diante de um fogo cruzado. Enquanto um membro nega que o grupo
seja hierárquico, um segundo pode admitir que é hierárquico
e tentar justificar isto atribuindo ao líder uma perspicácia superior.
Isto pode fazer pensar em um terceiro membro.
A princípio,
molestados por teres perturbado sua pequena e cômoda tertúlia,
é provável que o grupo cerre fileiras em derredor do líder
e denuncie tua «negatividade» ou «arrogância elitista». Mas se tua
intervenção for suficientemente aguda pode calar fundo e
ter um forte impacto. O líder tem que tomar cuidado posto que todos estão
mais sensíveis a qualquer coisa que possa parecer confirmar tua
crítica. Para demostrar quão injusto tu estavas, pode ser que os
membros insistam em uma maior democratização. E inclusive
se o grupo particular se mostra impermeável à mudança,
seu exemplo pode servir como lição para um público mais
amplo. Outras pessoas que não estejam comprometidas e que, sem
tua crítica, haveriam cometido talvez erros similares podem ver
mais facilmente a pertinência de tua crítica porque tem menos investidura
emocional no grupo.
Normalmente é
mais efetivo criticar instituições e ideologias que atacar
aos indivíduos que se encontram simplesmente envolvidos com elas
- não apenas porque a máquina é mais importante que suas
partes móveis, mas porque este enfoque faz mais sentido para os
indivíduos na hora de salvar a cara dissociando-se eles mesmos
da máquina.
Mas por mais diplomático
que sejas, quase toda crítica significativa seja ela qual for provocará
provavelmente reações defensivas irracionais, que vão
desde ataques pessoais até invocações de uma ou outra
ideologia da moda para demonstrar a impossibilidade de qualquer consideração
racional dos problemas sociais. A razão é denunciada como
fria e abstrata pelos demagogos que acham mais fácil jogar com o sentimento
das pessoas; a teoria é depreciada em nome da prática
Teoria
versus ideologia
Teorizar é
simplesmente tratar de entender o que fazemos. Todos somos teóricos ao
discutir honestamente sobre o que sucede, distinguir entre o significante
e o irrelevante, penetrar as explicações falsas, reconhecer
o que foi eficaz e o que não foi, considerar como algo pode ser
feito melhor da próxima vez. A teoria radical é simplesmente falar
ou escrever a uma grande quantidade de pessoas sobre temas mais gerais
em termos mais abstratos (ou seja, mais amplamente aplicáveis).
Inclusive aqueles que dizem rechaçar a teoria teorizam — simplesmente
o fazem mais inconsciente e caprichosamente, e portanto de modo mais impreciso.
A teoria sem casos
particulares é vazia, mas os casos particulares sem a teoria são
cegos. A prática prova a teoria, mas a teoria também inspira práticas
novas.
A teoria radical não
tem nada que respeitar nem nada que perder. Critica a si mesma como tudo
o mais. Não é uma doutrina que deva ser aceita pela fé,
mas uma tentativa generalizada que as pessoas devem provar e fazer constantes
correções por si mesmas, uma simplificação
prática indispensável para tratar com as complexidades da realidade.
Mas com o cuidado
de que não seja uma simplificação excessiva. Toda
teoria pode transformar-se em ideologia, chegar a ser rígida como um dogma,
ser desviada para fins hierárquicos. Uma ideologia sofisticada
pode ser relativamente segura em certos aspectos; o que a diferencia da
teoria é que carece de uma relação dinâmica
com a prática. Na teoria tu tens idéias; na ideologia as
idéias tem a ti. «Busca a simplicidade, e desconfia dela».
Evitar
falsas opções e elucidar as verdadeiras
Temos de encarar o
fato de que não há truques seguros, de que nenhuma tática
radical é invariavelmente apropriada. Algo que é coletivamente
possível durante uma revolta pode não ser uma opção
sensata para um indivíduo isolado. Em certas situações
urgentes pode ser necessário incitar as pessoas a levar a cabo
alguma ação específica; mas na maioria dos casos o que mais
convêm é simplesmente elucidar os fatores relevantes que
as pessoas devem levar em conta ao tomar suas próprias decisões
(Se me atrevo a dar aqui ocasionalmente alguns conselhos diretos, é
por conveniência de expressão. «Fazer isso ou aquilo» deve
ser entendido como «Em algumas circunstancias fazer tal coisa pode ser
uma boa idéia»).
Uma análise social
não necessita ser grande e detalhada. Simplesmente «divida em um
ou dois pontos» (indicando as tendências contraditórias dentro
de um determinado fenômeno, grupo, ou ideologia) ou «agrupe os dois
dentro de um» (revelar um aspecto comum entre duas entidades aparentemente
distintas) pode ser útil, especialmente se se comunica aos diretamente
envolvidos. O acesso a uma informação é mais importante
que levantar muitos temas; o que faz falta é abrir o caminho entre
o excesso para revelar o essencial. Fazendo isso, outras pessoas, inclusive
as bem informadas, serão estimuladas a efetuar investigações
mais completas, caso necessário.
Quando nos defrontamos
com determinado tópico, a primeira coisa a fazer é determinar
se com efeito é um simples tópico. É impossível
levar uma discussão significante sobre «marxismo», «violência»,
ou «tecnologia» sem distinguir os diversos sentidos que se incluem sob
tais etiquetas.
Por outro lado, também
pode ser útil tomar um tema amplamente abstrato e mostrar suas tendências
predominantes, se bem que tais tipos puros não existam realmente.
O panfleto Sobre a miséria no meio estudantil... dos situacionistas,
por exemplo, enumera mordazmente toda sorte de estupidez e pretensões
do «estudante». Obviamente nem todo estudante é culpado destes
defeitos, mas o estereotipo serve como um enfoque a partir do qual organizar
uma crítica sistemática das tendências gerais. Sublinhando as qualidades
que a maioria dos estudantes tem em comum, o panfleto também desafia
àqueles que afirmam ser exceções para que provem.
O mesmo se aplica à crítica do «pro-situ» em A verdadeira cisão
na Internacional de Debord e Sanguinetti — um desafiante desprezo
aos seguidores, talvez único na historia, dos movimentos radicais.
«Peça a todos
uma opinião acerca de cada detalhe para que possas visualizar a
totalidade» (Vaneigem). Muitos temas estão tão carregados
emocionalmente que qualquer reação a eles pode levar ao
emaranhado das falsas opções. O fato de que dois lados estejam
em conflito, por exemplo, não significa que devas apoiar alguma
das partes. Se não podes fazer nada acerca de um problema em particular,
é melhor confessar claramente este fato e passar para outro assunto
que tenha possibilidades práticas presentes. (2)
Se tomas partido escolhendo
um mal menor, admita isso; não aumente a confusão purificando
tua escolha ou demonizando ou inimigo. Se tem que fazer algo, analise
sob todos os aspectos: seja advogado do diabo e neutralize o delírio
polêmico compulsivo examinando com calma os pontos fortes da posição
oposta e os pontos débeis da tua. «Um erro muito comum: ter a coragem
de defender as próprias posições; a questão
é ter a coragem de atacar as próprias convicções!»
(Nietzsche).
Combina a modéstia
com a audácia. Recorda que se consegues realizar algo é
sobre a base dos esforços de muitos outros, muitos dos quais tem
enfrentado horrores tais que fariam a ti e a mim desabar em submissão.
Mas não esqueças que o que dizes pode produzir algum efeito:
dentro de um mundo de espectadores pacificados até mesmo a mais
pequena expressão autônoma sobressai.
Posto que já
não há nenhum obstáculo material para inaugurar uma sociedade
sem classes, o problema se reduz essencialmente a uma questão de
consciência: o único obstáculo real é que as pessoas ignoram
seu próprio poder coletivo. (A repressão física é
efetiva contra as minorias radicais apenas na medida em que o acondicionamento
social mantêm dócil o resto da população). Por conseguinte
um elemento amplo da prática radical é o elemento negativo:
atacar as formas diversas da falsa consciência que impedem as pessoas
de dar-se conta de suas potencialidades positivas.
O
estilo insurrecional
Tanto Marx como os
situacionistas tem sido com freqüência denunciados de modo
ignorante por essa negatividade, porque eles se concentraram principalmente
no esclarecimento crítico evitando promover qualquer ideologia
positiva que as pessoas pudessem aderir passivamente. Por Marx ter destacado
a forma como o capitalismo reduz nossas vidas a um precipício econômico,
os apologistas «idealistas» deste estado de coisas lhe acusam de «reduzir
a vida a temas econômicos» — como se a grande importância
do trabalho de Marx não fosse ajudar-nos a superar nossa escravidão
econômica para que nossos potenciais criativos pudessem florescer.
«Apelar para que as pessoas abandonem suas ilusões sobre sua condição
é apelar para que abandonem uma condição que requer
ilusões... A crítica arranca as flores imaginarias da prisão
não para que o homem continue suportando essa prisão sem
fantasia ou consolação, mas para demolir a prisão
e recolher a flor vivente (Introdução a uma crítica
da filosofia do direito de Hegel).
Expressar acertadamente
um tema chave com freqüência tem um efeito surpreendentemente
poderoso. Jogar luz sobre as coisas faz com que as pessoas abandonem suas
evasivas e tomem posição. Como o destro açougueiro
na fábula taoísta que nunca necessitava afiar a faca porque sempre cortava
pelas juntas, a polarização radical mais efetiva não
vem de protestos estridentes, mas de simplesmente revelar as divisões
que existem, elucidar as diferentes tendências, contradições,
opções. Muito do impacto dos situacionistas procede do fato
de que articularam coisas que a maioria das pessoas já havia experimentado,
mas não eram capazes de expressa-las ou temiam fazê-lo até
que o gelo fosse rompido. («Nossas idéias estão na mente
de todos»)
Se alguns textos situacionistas
parecem sem embargo difíceis ao principio, é porque sua estrutura
dialética vai contra a fibra de nosso condicionamento. Quando este condicionamento
se rompe não parecem tão obscuros (foram a origem de alguns
dos grafites mais populares de maio de 68). Muitos espectadores acadêmicos
ficaram confusos tratando de resolver sem êxito as várias
descrições «contraditórias» do espetáculo em A
sociedade do espetáculo deixando escapar definições
simplistas como, «cientificamente consistente»; mas qualquer um que esteja
comprometido com a contestação desta sociedade comprovará
que um exame elaborado desde diferentes ângulos, como fez Debord,
é esclarecedor e útil, e fará tudo que estiver ao seu alcance
para não desperdiçar uma única palavra em vulgaridades
acadêmicas ou em expressões escandalosas e inúteis.
O método dialético
que vai de Hegel e Marx aos situacionistas não é uma fórmula
mágica para produzir uma serie de predições corretas, é
uma ferramenta para apreender os processos dinâmicos da mudança
social. Nos recorda que os conceitos sociais não são eternos;
e que contem suas próprias contradições, interagindo
e transformando-se entre si, inclusive em seus opostos; que o que é
verdadeiro e progressista em um contexto pode chegar a ser falso e regressivo
em outro.(3)
Um texto dialético
pode requerer um estudo cuidadoso, uma vez que cada nova leitura é
portadora de novos descobrimentos. E mesmo que apenas influa diretamente
em pouca gente, tende a fazê-lo tão profundamente que muitos
deles acabam influindo em outros da mesma forma, levando a uma reação
qualitativa em cadeia. A linguagem não dialética da propaganda
esquerdista é mais fácil de entender, mas normalmente seu efeito
é superficial e efêmero; ao não delinear desafios,
logo acaba aborrecendo os espectadores confusos sobre o que foi exposto.
Como descreve Debord
em sua última película, aqueles que acham que o que dizem é demasiado
difícil fariam melhor culpar sua própria ignorância e passividade,
culpar às escolas e à sociedade que lhes fez deste modo,
do que queixar-se de sua própria obscuridade. Quem não tem
suficiente iniciativa para reler textos cruciais, fazer uma pequena indagação,
ou uma pequena experimentação por si mesmo é improvável
que leve algo a cabo sem ser mimado pelos demais.
* * *
Cine
radical
Debord é praticamente
a única pessoa que faz um uso verdadeiramente dialético e antiespetacular
do cinema. Embora muitos realizadores ditos radicais aplaudam o «distanciamento»
brechtiano, ou seja, cutucar os espectadores para que pensem e atuem por
si próprios, em vez de absorvê-los em uma identificação
passiva com o herói ou a trama — a maioria das películas radicais
se dirige à audiência como se ela fosse composta por um bando
de imbecis. O parvo protagonista gradualmente «descobre a opressão»
e se «radicaliza» ao ponto de se alistar como um fervoroso partidário
do "progressismo" político ou como um militante leal a algum
grupo esquerdista burocrático. O mais distante que conseguem chegar se
limita a algumas trucagens cinematográficas que permitem ao espectador
pensar: «Ah, um toque brechtiano! Como este realizador é inteligente!
Sou muito esperto percebendo tais sutilezas!» A realidade, é que
a mensagem radical é normalmente tão banal quanto óbvia
para qualquer um que fosse ver tal película pela primeira vez; mas o espectador
tem a gratificante impressão de que outras pessoas podem superar
seu nível de consciência vendo tal filme.
Se o espectador sente
alguma inquietude acerca da qualidade do que está consumindo, logo é
acalmado pelos críticos, cuja principal função é
descobrir profundos sentidos radicais em praticamente qualquer filme.
Como no conto da roupa nova do imperador, é improvável alguém
admitir não ter consciência destes supostos sentidos tanto
que busca saber deles temendo ser taxado de menos sofisticado que o resto
da platéia.
Certos filmes podem
ajudar a expor alguma condição deplorável ou comunicar
alguma noção da sensação ante uma situação
radical. Mas não é muito significativo apresentar imagens
de uma luta se não se critica nem as imagens nem a luta. Os espectadores
se queixam às vezes quando determinada película retrata inadequadamente
alguma categoria social (p. e. as mulheres). Isso pode ser certo na medida
em que a película reproduz certos estereótipos falsos; mas a alternativa
normalmente implícita — de que o realizador «deveria apresentar
imagens de mulheres lutando contra a opressão « — é na maioria
dos casos igualmente falsa. As mulheres (como os homens ou qualquer outro
grupo oprimido) são de fato normalmente passivos e submissos —
este é precisamente o problema que temos que encarar. Atender à
autosatisfação das pessoas apresentando espetáculos de heroísmo
radical triunfante apenas reforça esta escravidão.
* * *
Opressão versos jogo
Confiar que condições
opressivas radicalizem as pessoas é desaconselhável; piorá-las
intencionalmente para acelerar este processo é inaceitável.
A repressão em cima de alguns projetos radicais pode incidentalmente
trazer à tona o absurdo da ordem dominante; mas tais movimentos
devem ser dignos de consideração por seu próprio
valor — perdem sua credibilidade se são meros pretextos desenhados
para provocar a repressão. Inclusive nos meios mais «privilegiados»
quase sempre há problemas mais que suficientes, é desnecessário
agregar outros. O importante é revelar o contraste entre
as presentes condições e as presentes possibilidades,
e transmitir às pessoas um maior apego e um maior desejo pela vida
real.
Os esquerdistas com
freqüência dão a entender que é necessário
muita simplificação, exagero e repetição para
neutralizar toda a propaganda dominante. Isto é como dizer que
um boxeador que ficou grogue por um gancho de direita voltará à
lucidez com um gancho de esquerda.
A consciência
das pessoas não «aumenta» quando a sepultamos sob uma avalanche
de historias de horror, nem sob uma avalanche de informações.
A informação que não é criticamente assimilada
e utilizada logo acaba esquecida. Tanto a saúde mental como a física
requerem um equilíbrio entre a absorção e a utilização
das informações recebidas. Às vezes pode ser necessário
colocar pessoas complacentes diante de alguma atrocidade por eles desconhecida,
mas mesmo quando as machucamos interiormente até provocar náuseas,
normalmente não se consegue outra coisa senão provocar uma
fuga em direção a espetáculos menos chatos e deprimentes.
Um dos principais
motivos que nos impede compreender nossa situação é
o espetáculo de aparente felicidade de outras pessoas, que nos faz ver
nossa própria infelicidade como um um vergonhoso sinal de fracasso.
Mas um espetáculo onipresente de miséria também nos
impede de ver nossos potenciais positivos. A constante difusão
de idéias delirantes e de atrocidades nausebundas nos paralisa,
nos converte em cínicos paranóicos e compulsivos.
A estridente propaganda
esquerdista, ao fixar sua atenção sobre o insidioso e sobre
o odioso dos «opressores», alimenta com freqüência o delírio,
apelando para o lado mais mórbido e mesquinho do povo. Se nos limitamos
a ruminar males, se permitimos que a enfermidade e a fealdade desta sociedade
perverta inclusive nossa rebelião contra ela, esquecemos por que
estamos lutando e terminamos perdendo a própria capacidade de amar,
de criar, de desfrutar.
A melhor «arte radical»
se manifesta quando é ao mesmo tempo positiva e crítica.
Quando ataca a alienação da vida moderna, ela nos adverte
simultaneamente das potencialidades poéticas ocultas dentro dela. Mais
que reforçar nossa tendência em evocar a auto compaixão,
estimula nossa resistência, nos permite rir tanto de nossos próprios
problemas quanto da estupidez das forças da «ordem». Um bom exemplo
são algumas das velhas canções e tiradas cômicas
da IWW [Industrial Workers of the World, organização anarcosindicalista
que ainda existe, mas que teve seu momento mais importante entre 1910-1930
(N. do T.)], se bem que a ideologia da IWW atualmente esteja um tanto
quanto rançosa. Outro exemplo são as irônicas canções
agridoces de Brecht e de Weill. A hilaridade de O bom soldado Svejk
é provavelmente é um antídoto mais efetivo contra
a guerra do que o ultraje moral do típico folheto pacifista.
Nada atinge tanto
a autoridade do que conduzi-la ao ridículo. O argumento mais efetivo contra
um regime repressivo não é afirmar sua maldade, mas sua
estupidez. Um belo exemplo disso são os protagonistas da novela
de Albert Cossery, A violência e a burla, que vivem sob
uma ditadura no Oriente Médio. Eles cobrem as paredes da capital
com um pôster de aspecto oficial que glorifica o ditador de um modo
tão ridículo que o obriga a se demitir por vergonha. Embora os
zombadores de Cosséry sejam apolíticos e seu êxito demasiado bonito
para ser infalível, muitos tem utilizado algumas parodias similares
com fins mais radicais (p.e. o golpe de Li I-Che mencionado em Public
Secrets página 304, «Um grupo radical em Hong-Kong»). Nas manifestações
dos anos 70 na Itália os Índios Metropolitanos (inspirados
talvez no primeiro capítulo de Sylvie and Bruno de Lewis Carroll:
«Menos pão! Mais impostos!») portavam cartazes e cantavam slogans
como «Poder os Chefes!» e «Mais trabalho! Menos salário!» Qualquer
um reconhecia a ironia, mas era mais difícil rechaçá-los
com os habituais qualificativos.
O humor é um
antídoto saudável contra todo tipo de ortodoxia, tanto da esquerda
quanto da direita. É altamente contagioso e nos incita a não
levar as coisas demasiadamente a serio. Mas pode facilmente vir a ser
uma mera válvula de escape, canalizando a insatisfação
para um eloqüente cinismo passivo. A sociedade do espetáculo aproveita
as ações delirantes contra seus mais delirantes aspectos.
Os satíricos tem freqüentemente uma relação de dependência
de amor e de ódio no que diz respeito a seus objetivos; a paródia
chega a não distinguir-se daquilo que parodia, dando a impressão
de que tudo é igualmente estranho, insignificante e desesperante.
Em uma sociedade baseada
na confusão e sustentada artificialmente, a primeira tarefa não
é agregar mais confusão e artificialismo. As irrupções
caóticas não geram habitualmente outra coisa senão irritação
e pânico, resultando em que as pessoas apóiem qualquer medida
que o governo tome para restaurar a ordem. Uma intervenção
radical pode parecer a principio estranha e incompreensível; mas
se for levada a cabo com suficiente lucidez, as pessoas prontamente a
entenderão perfeitamente.
O
escândalo de Estrasburgo
Imagine que estás
na Universidade de Estrasburgo no inicio do ano letivo em 1966-67, entre
estudantes, professorado e distintos convidados que entram no auditório
para ouvir o discurso inaugural do presidente de Gaulle. Encontras um
pequeno panfleto colocado em cada assento. Um programa? Não. Algo
sobre «a miséria da vida estudantil». Abres o folheto ociosamente
e começas a ler: «Podemos afirmar sem grande risco de nos equivocarmos,
que depois da policia e do sacerdote, o estudante é na França
o ser mais universalmente depreciado...». Olhas ao derredor e vês
que todos os demais também o estão lendo, com reações
que vão desde a perplexidade e regozijo até reações
de choque e horror. Quem é o responsável por isso? O título
da página revela que foi publicado pela União dos Estudantes de
Estrasburgo, mas se refere também à «Internacional Situacionista»,
qualquer que seja ela...
O que torna o escândalo
de Estrasburgo diferente de outras gozações estudantis,
ou das cabriolas confusas e contundentes de grupos como os yippies, foi
sua forma escandalosa que trazia consigo um conteúdo igualmente
escandaloso. No momento em que os estudantes se proclamaram como o setor
mais radical da sociedade, este texto foi a única coisa que pôs
as coisas em seu lugar. Mas as misérias particulares dos estudantes
apenas estavam ali por serem o ponto de partida; textos igualmente duros
podiam e deviam ser escritos sobre a miséria de todos os demais
segmentos da sociedade (preferivelmente daqueles que a conhecem a partir
de dentro). Algumas tentativas haviam sido efetuadas, de fato, mas nenhuma
se aproximou tanto da lucidez e da coerência como esse panfleto
situacionista, tão conciso quanto compreensivo, tão provocativo
quanto exato, pela sua abordagem metódica de uma situação
específica através de ramificações cada vez mais gerais,
com o capítulo final apresentando o resumo mais conciso que existe do
moderno projeto revolucionário. (Ver Sobre a miséria
da vida estudantil e o artigo «Nossos fins e nossos métodos
no escândalo de Estrasburgo em I.S. # 11.)
Os situacionistas
nunca pretenderam provocar sozinhos a revolução de maio
de 1968 — como foi dito, eles predisseram o conteúdo da revolta,
mas não o desfecho nem o lugar. Mas sem o escândalo de Estrasburgo
e a agitação subseqüente do grupo Enragés influenciado
pela IS (da qual o bem conhecido Movimento 22 de março foi apenas
uma imitação tardia e confusa) a revolta nunca se sucederia.
Não havia crises econômicas ou governamentais na França,
nenhuma guerra ou antagonismo racial desestabilizava o pais, nem nenhuma
outra questão particular que pudesse anunciar uma revolta como
a que ocorreu. Na Itália e na Inglaterra estavam em marcha lutas
operárias mais radicais, na Alemanha lutas estudantis mais militantes.
No Japão, movimentos contraculturais mais amplos, como também
nos EUA e nos Países Baixos. Mas apenas na França havia uma perspectiva
que vinculava todos ao mesmo tempo.
Intervenções
cuidadosamente calculadas como o escândalo de Estrasburgo devem
ser cuidadosamente diferenciadas não apenas de desordens confusionistas,
mas também das revelações meramente espetaculares.
Na medida em que a crítica social se limita a contestar este ou aquele
detalhe, a relação espetáculo-espectador se reconstitui
continuamente: se os críticos conseguem desacreditar os líderes políticos
existentes, acabam muitas vezes se convertendo em novas estrelas (Ralph
Nader, Noam Chomsky, etc.) que alimentam seus espectadores mais conscientes
com um fluxo continuo de informações escandalosas a respeito
das quais raramente fazem qualquer coisa. As revelações
mais moderadas conseguem uma audiência que apóia esta ou
aquela facção do poder intragovernamental; as mais sensacionalistas
alimentam a curiosidade mórbida do povo, incitando-o a consumir
mais artigos, telejornais e docudramas, fora os intermináveis debates
acerca das diversas teorias da conspiração. É evidente
que a maior parte destas teorias não são senão reflexos
delirantes da falta de sentido histórico crítico produzida pelo espetáculo
moderno, e tentativas desesperadas de encontrar algum sentido coerente
em uma sociedade cada vez mais incoerente e absurda. Em qualquer caso,
na medida em que as coisas permanecem no terreno do espetacular quase
não importa se algumas destas teorias estejam certas: aqueles
que passam o dia na expectativa do que irá acontecer algo amanhã
nunca afetarão o futuro.
Certas revelações
são mais interessantes não só por levantar temas
significativos ao debate público, mas também por atrair muita gente
ao debate. Um exemplo simpático foi o escândalo de 1963 de «Spies
for Peace» na Inglaterra, onde alguns desconhecidos anunciaram a localização
de um refugio atômico secreto reservado aos membros do governo.
Quanto mais veemente a ameaça do governo em perseguir a qualquer
um que reproduzisse este «segredo de estado» que já não
era segredo para ninguém, mais alegre e criativa era a difusão
por milhares de grupos e de indivíduos (que começaram também
a descobrir e a invadir muitos outros refúgios secretos). Tanto
a estupidez do governo como a loucura do espetáculo da guerra nuclear
ficaram evidentes para qualquer pessoa, a espontânea reação
em cadeia humana aportou uma mostra de um potencial social mui diferente.
* * *
A
miséria da política eleitoral
«Nenhum governo
liberal desde 1814 subiu ao poder a não ser pela violência.
Cânovas, suficientemente inteligente para ver a inconveniência
e o perigo que isto representava, determinou que os governos conservadores
deveriam ser sucedidos regularmente por governos liberais. Diante de
uma crise econômica ou de uma greve, o plano seria demitir e deixar
que os liberais resolvessem o problema. Isto explica por que a maior
parte da legislação repressiva aprovada durante o resto
do século foi aprovada por eles».
—Gerald
Brenan, The Spanish Labyrinth
O melhor argumento
a favor da política eleitoral radical foi elaborado por Eugene Debs, o
líder socialista americano que em 1920 obteve cerca de um milhão
de votos para a presidência enquanto permanecia na prisão
por opor-se à I Guerra Mundial: «Se as pessoas não tem informações
suficientes para saber em quem votar, não saberão contra
quem disparar». Por outro lado, os trabalhadores durante a revolução
alemã de 1918-19 não sabiam contra quem disparar exatamente
devido à presença dos líderes «socialistas» no governo trabalhando
constantemente para reprimir à revolução.
A grosso modo podemos
distinguir cinco graus de "governo":
(1) liberdade irrestrita
(2) democracia direta
(3) democracia delegada
(4) democracia representativa
(5) ditadura de uma
minoria
A presente sociedade
oscila entre os pontos (4) e (5), isto é, entre governo minoritário
declarado e governo minoritário disfarçado, ambos camuflados
por uma fachada simbólica de democracia. Uma sociedade liberada
eliminaria os pontos (4) e (5) e progressivamente reduziria a necessidade
dos pontos (2) e (3). . .
Nas democracias representativas
as pessoas abdicam de seu poder ao eleger governantes. A plataforma política
dos candidatos são limitadas a algumas vagas generalidades. Uma
vez eleitos, há pouco controle sobre suas reais decisões
em centenas de assuntos -- apesar da possibilidade de redirecionamento
do voto das pessoas, alguns anos depois, para outros políticos
rivais igualmente incontroláveis. Em suas campanhas, os representantes
dependem das contribuições e dos subornos dos ricos; são
subordinados aos donos dos meios de comunicação de massa
que decidem o que vai e o que não vai ser divulgado pela mídia;
e eles são quase tão ignorantes e impotentes quanto o público
em geral, dando muita importância aos assuntos que são pautados
pelos burocratas não eleitos e pelas agencias secretas independentes.
Eventualmente, ditadores declarados podem ser depostos, mas os verdadeiros
governantes nos regimes "democráticos", aquela minúscula
minoria que virtualmente possui e controla tudo, nunca é eleita
nem interna nem externamente. A maioria das pessoas nem mesmo sabe quem
eles são . . . .
O ato de votar, por
si só, de uma forma ou de outra, é destituído de
grande significância (aqueles que fazem um grande alvoroço
recusando-se a votar apenas revelam seu próprio fetiche). O problema
do voto é que ele tende a fazer com que pessoas deixem a ação
a cargo de outras pessoas, tornando remotas as possibilidades mais significantes.
No final das contas, as pessoas que tomam alguma iniciativa criativa (pense
nos primeiros protestos pelos direitos civis) podem alcançar um
resultado mais efetivo do que colocar sua energia na eleição
de políticos menos ruins. Na melhor das hipóteses, os legisladores
raramente fazem mais do que aquilo que foram forçados a fazer pela
pressão dos movimentos populares. Um regime conservador sob pressão
de movimentos radicais independentes freqüentemente concede mais
que um regime liberal que sabe que pode contar com o apoio radical. Se
as pessoas invariavelmente se reúnem para obter o menos ruim, tudo
o que qualquer governante tem que fazer em qualquer situação
que ameace seu poder é eliminar qualquer ameaça de um mal
maior.
Até mesmo no
caso raro quando um político "radical" tem uma chance real de ganhar
uma eleição, todos os tediosos esforços de campanha
de milhares de pessoas podem repentinamente virar em nada diante de algum
escândalo trivial descoberto em sua vida pessoal, ou porque ele
inadvertidamente disse algo inteligente. Se consegue evitar estas armadilhas,
ele tende a evitar assuntos controversos temendo desagradar os eleitores
indecisos. Se finalmente acaba sendo eleito, ele quase nunca implementa
as reformas que prometeu, a não ser, talvez, depois de anos de
disputas e embates com seus novos colegas; que lhe dá uma boa desculpa
para sua principal prioridade: fazer os acordos necessários para
que se mantenha indefinidamente no poder. Na lida com os ricos e poderosos,
ele desenvolve novos interesses e gostos pelos quais ele se justifica
dizendo que merece essas coisas para se recuperar dos anos que dedicou
trabalhando pela causa. Pior de tudo, se ele eventualmente consegue passar
algumas medidas "progressivas", este excepcional e normalmente trivial
sucesso é colocado como uma prova de que as políticas eleitorais
são dignas de confiança, atraindo muito mais pessoas que
irão desperdiçar suas energias nas futuras campanhas deste
tipo.
Uma das pichações
de maio de 1968 ilustra bem esse aspecto, "submeter-se a um chefe é
doloroso; escolher um chefe é estúpido!"
Os referendos sobre
temas específicos são menos susceptíveis à
precariedade dos personalismos; mas os resultados não são
com freqüência melhores porque os temas tendem a ser colocados
de modo simplista, e qualquer projeto de lei que ameace os interesses
dos poderosos normalmente acaba derrotado pela influencia do dinheiro
e dos meios de comunicação.
Às vezes as
eleições locais oferecem às pessoas uma oportunidade
mais realista de influenciar as políticas e manter sob vigilância
os candidatos eleitos. Mas nem mesmo as comunidades mais conscientes estão
imunes à deterioração do resto do mundo. Se uma cidade
consegue preservar características ambientais ou culturais desejáveis,
estas mesmas vantagens a situam sob uma crescente pressão econômica.
O fato de se dar preferencia aos valores humanos em detrimento aos valores
de propriedade causa no final das contas enormes incrementos aos últimos
(muita gente vai querer inverter essa situação ou mudar-se
dali). Cedo ou tarde o incremento dos valores de propriedade se sobrepõe
aos valores humanos: as políticas locais acabam anuladas por escalões
superiores ou pelos governos nacionais ou regionais, chega muito dinheiro
de fora para influir nas eleições municipais, os políticos
municipais são subornados, os bairros residenciais são demolidos
para dar lugar a arranha-céus e autopistas, a rentabilidade sobe
vertiginosamente, as classes mais pobres são expulsas (inclusive
os diversos grupos étnicos e artistas boêmios que animavam e compunham
o aspecto original da cidade), e tudo o que resta da antiga comunidade
são alguns lugares separados de «interesse histórico» para o consumo
dos turistas.
* * *
Reformas e instituições
alternativas
Não obstante,
«atuar localmente» pode ser um bom ponto de partida. Quem sente que a
situação global é desesperadora ou incompreensível
pode buscar sem embargo uma oportunidade de afetar algum assunto local
específico. Associações de moradores, cooperativas, centros
de informação, grupos de estudo, escolas alternativas, clínicas
gratuitas de saúde, teatros comunais, periódicos de bairro, emissoras
de radio e televisão de acesso público e muitos outros tipos de
instituições alternativas são valiosas em si mesmas,
e se são suficientemente participativas podem conduzir a movimentos
mais amplos. Mesmo que não durem muito, aportam um terreno temporal
da experimentação radical.
Mas sempre dentro
de alguns limites. O capitalismo foi capaz de desenvolver-se gradualmente
dentro da sociedade feudal, no momento em que a revolução
capitalista se desfez dos últimos vestígios do feudalismo, a maioria
dos mecanismos da nova ordem burguesa estavam já firmemente assentados.
Uma revolução anticapitalista, pelo contrario, não
pode realmente construir sua nova sociedade «sobre a armação
da velha». O capitalismo é muito mais flexível e onipenetrante
do que era feudalismo, e tende a cooptar qualquer organização
opositora.
Os teóricos radicais
do século XIX podiam todavia ver suficientes resíduos sobreviventes
das formas comunais tradicionais para supor que, uma vez consumada a eliminação
da estrutura exploradora, poderiam reviver e ampliar-se para formar os
alicerces de uma nova sociedade. Mas a penetração global
do capitalismo espetacular no presente século destruíu quase
todas as formas de controle popular e de interação humana
direta. Inclusive os esforços mais modernos da contracultura dos
anos sessenta foram há muito integrados pelo sistema. As cooperativas,
os grêmios, as granjas de alimentos orgânicos e outras empresas
marginais podem produzir bens de melhor qualidade sob as melhores condições
laborais, mas esses benefícios todavia tem que funcionar como mercadorias
no mercado. As poucas empresas afortunadas tendem a desenvolver-se no
comercio ordinário, nos quais os membros fundadores assumem gradualmente
um status de proprietários ou de diretores diante dos novos trabalhadores,
envolvendo-se com todo tipo de assuntos burocráticos e comerciais rotineiros
que nada tem que ver com «preparar o terreno para uma nova sociedade».
Quanto
mais dura uma instituição alternativa, mais ela tende a
perder seu caráter voluntário, experimental, desinteressado.
Seus assalariados permanentes desenvolvem um interesse pessoal na manutenção
do status quo e evitam questões controversas temendo ofender seus
partidários ou perder seus fundos de governo ou das fundações.
As instituições alternativas também tendem a exigir
demasiadamente o já limitado tempo livre das pessoas, dispersando,
subtraindo energia e imaginação no confronto de temas mais
gerais. Depois de um breve período a participação
acaba esquecida e abandonada, deixando o trabalho aos tipos serviçais
ou aos esquerdistas que tentam dar um bom exemplo ideológico. Pode soar
bonito ouvir falar de associações de moradores, etc., mas
a menos que suceda uma emergência local pode ser fastidioso
agüentar reuniões intermináveis para escutar as reclamações
de teus vizinhos, ou participar de assuntos que realmente não te
interessam.
Em nome do realismo,
os reformistas se limitam a perseguir objetivos «factíveis», mas
mesmo quando conseguem algo, ele é normalmente neutralizado por
algum desenvolvimento em outro nível. Isto não significa
que as reformas sejam irrelevantes, são simplesmente insuficientes.
Temos que continuar resistindo os males particulares, mas temos também
que reconhecer que enquanto não dermos um fim ao próprio
sistema ele continuará gerando outros novos problemas. Supor que uma serie
de reformas resultarão finalmente em uma mudança qualitativa
é como pensar que podemos chegar a atravessar um abismo de dez
metros com uma serie de pulinhos.
Geralmente é
assumido que como a revolução implica em uma mudança
bem maior que reformas, deve ser mais difícil leva-la a cabo. A grosso
modo, pode ser na realidade mais fácil, porque de um golpe elimina muitas
pequenas complicações e provoca um entusiasmo muito maior.
Em certa medida chega a ser mais prático começar do zero do que
recuperar uma estrutura apodrecida.
Entretanto, até
que uma situação revolucionaria nos capacite para sermos
verdadeiramente construtivos, o melhor que podemos fazer é ser
criativamente negativos — nos concentrarmos no esclarecimento
crítico, deixando que as pessoas persigam qualquer objetivo possível
que possa interessar-lhes, mas sem a ilusão de que uma sociedade
nova se «constrói» mediante a gradual acumulação
de tais projetos.
Os projetos puramente
negativos (p.e. abolição das leis contra o uso de drogas,
sexo consensual e outros crimes sem vítimas) tem a vantagem da simplicidade:
beneficiam quase a todos (exceto a esta dupla simbiótica, o crime organizado
e a industria de controle do crime) e requerem pouco trabalho, se é
que tem algum, para serem exitosos. Mas por outro lado, não aportam
uma grande oportunidade de participação criativa.
Os melhores projetos
são aqueles que são valiosos por si mesmos na medida em
que contêm um desafio implícito a algum aspecto fundamental do sistema;
projetos que permitem às pessoas participar em temas atraentes
de acordo com seu grau de interesse, enquanto tendem a abrir caminho a
possibilidades mais radicais.
Menos interessantes,
se bem que úteis, são as demandas por melhores condições
ou direitos mais igualitários. Embora tais projetos não
sejam em si mesmos mui participativos podem eliminar impedimentos à
participação.
As menos desejáveis
são as meras lutas de soma zero, onde a ganância de um grupo
é a perda de outro.
Em última análise
a questão não é dizer às pessoas o que elas
devem fazer, mas fazê-las ter consciência daquilo que estão
fazendo. Se promovem algum assunto para recrutar gente, é apropriado
revelar seus motivos manipulativos. Se crêem que estão contribuindo
para um cambio radical, pode ser útil mostrar-lhes como sua atividade
está realmente reforçando o sistema de alguma forma. Mas se estão
realmente interessados no projeto pelo projeto, que continuem!
Mesmo se estamos em
desacordo com suas prioridades (coleta de fundos para a ópera, por exemplo,
enquanto a rua está cheia de gente sem teto) deveríamos nos guardar
de qualquer estratégia que meramente invoque a culpabilidade das
pessoas, não só por tais invocações exercem geralmente
um efeito negativo mas porque tal moralismo reprime saudáveis aspirações
positivas. Abster-se de enfrentar assuntos de «qualidade de vida» porque
o sistema continua estabelecendo questões de sobrevivência
é submeter-se a uma chantagem que já não tem nenhuma
justificação. «O feijão e o sonho» já não
são mutuamente excludentes.(4)
Os projetos de «qualidade
de vida» são com freqüência de fato mais inspiradores
que demandas políticas e econômicas rotineiras porque despertam
nas pessoas perspectivas mais ricas. Os livros de Paul Goodman são
plenos de exemplos imaginativos e muito divertidos. Mesmo que suas propostas
sejam «reformistas», o são de uma forma tão viva e provocativa
que aportam um estimulante contraste com a servil postura defensiva da
maioria dos reformistas de hoje, que se limitam a reagir à agenda
dos reacionários dizendo: «Estamos de acordo no que é essencial:
criar emprego, lutar contra o crime, defender nossa pátria com
energia; mas os métodos moderados conseguem isto melhor que as propostas
extremistas dos conservadores».
Se tudo segue igual,
faz mais sentido concentrar nossa energia em temas que não recebem
a atenção pública; é melhor trabalhar com projetos
que podem ser executados limpa e diretamente por seus próprios
interessados do que através de agencias governamentais. Mesmo que tais
compromissos não pareçam demasiado sérios, criam
um mal precedente. A dependência diante do estado quase sempre se
volta contra algo (comissões designadas para suprimir a corrupção
burocrática sempre acaba se desdobrando em novas burocracias corruptas;
leis desenhadas para desbaratar grupos reacionários armados terminam
sendo utilizadas principalmente para perseguir grupos radicais desarmados).
O sistema prefere
matar dois pássaros com um único tiro do que aceitar seus oponentes
oferecer «soluções construtivas» a suas próprias
crises. De fato necessita uma certa oposição para dar conta
dos problemas, forçar a racionalização, exercitar
seus instrumentos de controle e encontrar desculpas para impor novas formas
de controle. Medidas de emergência são imperceptivelmente
convertidas em procedimentos normais, de igual forma regulamentações
que normalmente poderiam ser contestadas são introduzidas em situações
de pânico. A lenta e constante destruição da personalidade
humana por todas as instituições da sociedade alienada,
da escola à fábrica, da propaganda ao urbanismo, aparecem como
normais quando o espetáculo enfoca obsessivamente crimes individuais sensacionais,
manipulando pessoas até a histeria em favor da ordem pública.
Correção
política, ou igualdade na alienação
A alienação,
acima de tudo, prospera quando pode desviar a contestação
social para disputas por posições privilegiadas dentro dela.
Esta é uma
questão particularmente espinhosa. Toda desigualdade social necessita
ser desafiada, não só por ser injusta, mas porque enquanto permanecer
pode ser utilizada para dividir as pessoas. Lograr igualdade na escravidão
salarial ou oportunidades iguais para chegar a ser burocrata ou capitalista
apenas constitui uma vitoria do capitalismo burocrático.
É natural e
necessário que as pessoas defendam seus próprios interesses;
mas se o fazem identificando-se demasiado exclusivamente com algum grupo
social particular tendem a perder de vista a situação mais
geral. Na medida em que categorias cada vez mais fragmentadas pelejam
por migalhas destinadas a cada uma, caem em jogos mesquinhos de culpabilização
mutua e a noção de abolir a estrutura hierárquica é
completamente esquecida. Pessoas que sempre estão dispostas a denunciar
diante da mais leve insinuação de estereótipos acabam
entusiasmando-se a ponto de agrupar quase todo mundo entre os «opressores»,
e então se perguntam porque encontram reações tão
fortes por toda parte, inclusive por gente consciente de que tem pouco
poder real sobre suas próprias vidas, e muito menos sobre a dos
demais.
Fora os demagogos
reacionários (alegremente adotados pelos «progressistas» como alvos
fáceis para o ridículo) os únicos realmente beneficiados por estas disputas
de aniquilação mutua são aqueles que lutam por postos
burocráticos, concessões do governo, vagas acadêmicas, contratos
publicitários, clientes comerciais, ou partidos políticos nas épocas
de vacas magras. Farejar a «incorreção política» lhes permite
derrubar rivais e críticos e reforçar suas próprias posições
como especialista reconhecido ou porta-voz de sua facção
particular. Os diversos grupos oprimidos e que são suficientemente
estúpidos para aceitar tais porta-vozes não percebem a mudança
senão diante da sensação agridoce do ressentimento
autojustificado e da ridícula terminologia oficial evocada pela neolingua
de Orwell.(5)
Há uma distinção
crucial, embora às vezes sutil, entre lutar contra os males sociais
e alimentar-se deles. Ninguém aumenta seu poder porque
é alentado a refastelar-se em seu próprio vitimismo. A autonomia
individual não se desenvolve refugiando-se em alguma identidade
grupal. Não se demonstra igualmente inteligência rechaçando
o pensamento lógico. Não se promove o diálogo radical perseguindo
pessoas que não se conformam com alguma ortodoxia política, e menos
ainda lutando para reforçar legalmente tal ortodoxia.
Nem se faz historia
reescrevendo-a. A verdade é que necessitamos nos libertar do respeito
acrítico ao passado e discernir onde houve tangiversão. Mas temos
que reconhecer que apesar de nossa desaprovação diante dos
prejuízos e das injustiças do passado, é improvável
que teríamos atuado melhor diante das mesmas condições.
Aplicar os padrões atuais retroativamente (corrigir a cada momento
os autores do passado que utilizaram antigas formas masculinas convencionais,
ou querer censurar Huckleberry Finn porque Huck não se
refere a Jim como uma «pessoa de cor») só reforça a ignorância
histórica que o espetáculo moderno logra estimular com tanto êxito.
Inconvenientes do
moralismo e do extremismo simplista
Muitos destes absurdos
derivam da falsa assunção de que ser radical implica viver
conforme algum «princípio» moral — como se ninguém pudesse
agir pacificamente sem ser um pacifista total, ou defender a abolição
do capitalismo sem desfazer-se de todo seu dinheiro. A maioria das pessoas
tem demasiado sentido comum para seguir realmente estes ideais simplistas,
mas se sentem com freqüência vagamente culpados por não
fazê-lo. Esta culpabilidade lhes paralisa e lhes faz mais susceptíveis
à chantagem dos manipuladores esquerdistas (que nos dizem que se
não temos a coragem de nos sacrificar, devemos apoiar acríticamente
aqueles que o fazem). Ou tratam de reprimir sua culpa denegrindo a outros
que parecem mais comprometidos: um trabalhador manual pode orgulhar-se
de não vender-se mentalmente como um professor; que quiçá
se sente superior a um publicitário; que pode por sua vez menosprezar
a alguém que trabalha na industria de armamento
Converter problemas
sociais em questões morais pessoais distrai a atenção
de sua solução potencial. Tentar mudar as condições
sociais mediante a caridade é como tentar elevar o nível
do mar derramando caixas de água no oceano. Se alguém logra
algum bem mediante ações altruístas, confiar nelas
como estratégia geral é fútil porque sempre serão
a exceção. É natural que a maior parte das pessoas
considera antes seus próprios interesses aos interesses de seu
próximo. Um dos méritos dos situacionistas foi haver superado as
invocações esquerdistas da culpa e do auto-sacrificio destacando
que a primeira causa para fazer uma revolução somos nos
mesmos.
«Ir ao povo» para
«servi-lo», «organiza-lo», «radicaliza-lo» conduz normalmente à
manipulação e resulta com freqüência em apatia
ou hostilidade. O exemplo das ações independentes dos outros
é um meio de inspiração mais forte e saudável.
Na medida em que as pessoas começam a atuar por si mesmas tornam-se
mais dispostas a trocar experiências, colaborar em termos de igualdade
e, caso necessário, solicitar assistência específica. E quando
ganha sua própria liberdade é muito mais difícil
voltar atrás. Um dos grafites de maio de 69 dizia: «Não estou a
serviço do povo (muito menos de seus chamados líderes) — que o
povo se vire sozinho». Outro assinalava mais sucintamente: «Não
me liberte — Eu cuido disso».
Uma crítica total
significa que tudo é questionável, não uma oposição
a tudo. Os radicais esquecem isto com freqüência e caem em
uma espiral de oposições mutuas mediante afirmações
cada vez mais extremistas, supondo que qualquer compromisso eqüivale
a vender-se, que todo prazer eqüivale a cumplicidade com o sistema.
Realmente, estar «a favor» ou «contra» alguma posição política
é bem fácil, e normalmente tão sem sentido, como estar a
favor ou contra algum time de futebol. Aqueles que proclamam arrogantemente
sua «total oposição» a todo compromisso, toda autoridade,
toda organização, toda teoria, toda tecnologia, etc., normalmente
não tem nenhuma perspectiva revolucionaria nenhuma
concepção prática sobre como o sistema presente pode
ser derrubado ou como poderia funcionar uma sociedade pós-revolucionária.
Alguns inclusive tentam justificar esta carência declarando que
uma simples revolução nunca poderia ser o bastante radical
para satisfazer sua eterna rebeldia ontológica.
Esta ênfase
do tudo ou nada podem impressionar temporariamente a alguns espectadores,
mas seu efeito último é simplesmente aborrecer às pessoas.
Cedo ou tarde as contradições e hipocrisias conduzem ao
desencanto e à resignação. Ao projetar sobre o mundo
suas próprias frustrações, os extremistas acabam
concluindo que toda mudança radical é sem esperança
e reprime a experiência total; ou quiçá se alienam
em alguma posição reacionária igualmente néscia.
Imagine se todo radical
tivesse que ser um Durruti. É melhor nos esquecermos dele e nos
dedicarmos a questões mais realizáveis. Mas ser radical
não significa ser o mais extremo. Em seu sentido original significa
simplesmente ir à raiz. A razão da necessidade de ser radical
para lutar pela abolição do capitalismo e do estado não
significa que este seja o objetivo mais extremo que se possa imaginar,
significa que chegou a ser desgraçadamente evidente que menos que
isso não bastará.
Temos que dar-nos
conta daquilo que é necessário e suficiente; buscar projetos
que sejamos verdadeiramente capazes de fazer, que sejam factíveis
dentro de uma probabilidade realista. O que passar disso é ar quente.
Muitas das táticas radicais mais velhas e inclusive mais efetivas
— debates, críticas, boicotes, greves, ocupações, conselhos
operários — logram popularidade precisamente porque são
simples, relativamente seguras, amplamente aplicáveis, e bastante
abertas para conduzir a possibilidades mais amplas.
O extremismo simplista
busca naturalmente seu contraste mais extremo. Se todos os problemas podem
ser atribuídos a uma mera camarilha sinistra de «fascistas totais»
tudo o mais parecerá comparativa e confortavelmente progressista. A realidade
é que as formas atuais de dominação moderna são
normalmente bem sutis, proliferam soltas e sem oposição.
Fixar a atenção
nos reacionários só os reforça, os faz parecer mais poderosos
e fascinantes. «Não importa que nossos oponentes nos ridicularizem
ou nos insultem, ou mesmo nos apresentem como palhaços ou criminosos;
o essencial é que falem de nós, que se preocupem conosco»
(Hitler). Reich destacou que «instruir as pessoas para que odeiem a polícia
só fortalece a autoridade da polícia e a investe de um poder
místico aos olhos dos pobres e desvalidos. Os fortes são odiados
mas também temidos, invejados e seguidos. Sentimentos de medo e
inveja por parte dos ‘despossuidos’ explica uma parte do poder dos reacionários
políticos. Um dos principais objetivos da luta racional pela liberdade
é desarmar aos reacionários expondo o caráter ilusório
de seu poder» (People in Trouble).
O principal problema
que implica em comprometimento é mais prático do que moral:
é difícil atacar algo quando nos mesmos estamos implicados nele.
Criticamos com evasivas por medo que outros nos critiquem por sua vez.
Se torna mais difícil conceber grandes idéias ou atuar com audácia.
Como se observou com freqüência, muitos alemães consentiram
a opressão nazi porque ela foi implementada de maneira bem gradual
e esteve a principio dirigida principalmente contra minorias impopulares
(judeus, ciganos, comunistas, homossexuais); até que chegou ao
ponto de afetar a população como um todo, incapacitada de
fazer qualquer coisa.
É fácil condenar
retrospectivamente aqueles que capitularam diante do fascismo ou do estalinismo,
mas é provável que a maioria de nós não faria
diferente se estivesse no lugar deles. Em nossas ilusões, nos pintamos
como um personagem dramático enfrentando uma opção
bem definida diante de uma audiência que a valoriza, imaginamos
que não temos problema em levar a cabo a decisão correta.
Mas as situações que encaramos na realidade são normalmente
mais complexas e obscuras. Nem sempre é fácil saber onde fixar
limites.
Pois que os fixemos
em algum lugar, deixemos de lado a preocupação
pela culpa, vergonha e autojustificação, e tomemos a ofensiva.
Vantagens
da audácia
Este espírito é
bem ilustrado por aqueles trabalhadores italianos que foram à greve
sem fazer reivindicações de nenhum tipo. Tais greves não
apenas são mais interessantes que as negociações
usuais dos sindicatos burocráticos, como podem inclusive ser mais efetivas:
os chefes, sem saber o que fazer, acabam muitas vezes concedendo muito
mais do que o grevista se atreveria reivindicar. Estes podem então
decidir sobre seu segundo passo sem ter se comprometido com nada.
Uma reação
defensiva contra este ou aquele sintoma social consegue na melhor das
hipóteses tão somente alguma concessão temporária
sobre o tema específico. A agitação agressiva que rechaça
o limite exerce maior pressão. Diante de movimentos imprevisíveis
mui extensos, como a contracultura dos anos sessenta ou a revolta de maio
de 68 — movimentos que põem tudo em dúvida, gerando contestações
autônomas em muitas frentes, ameaçando estender-se por toda
a sociedade. Demasiado vastos para ser controlados por líderes cooptaveis
— os dominadores se precipitam em limpar sua imagem, aprovam reformas,
aumentam os salários, libertam prisioneiros, declaram anistias,
iniciam processos de paz — qualquer coisa com a esperança de adiantar-se
ao movimento e restabelecer seu controle. (A absoluta incontrolabilidade
da contracultura americana, que se estendeu intensamente até o
próprio exército, jogou provavelmente um grande papel, tanto que
o movimento anti-guerra explicitou forçar o fim da guerra do Vietnã).
O lado que toma a
iniciativa define os termos da luta. Na medida em que segue inovando,
retêm também o elemento surpresa. «A audácia é
na prática um poder criativo. Quando a audácia se defronta com
a vacilação já tem uma vantagem significativa porque
o próprio estado de vacilação implica uma perda de
equilíbrio. Apenas quando a audácia se defronta com uma
previsão cauta fica em desvantagem». (Clausewitz, Sobre a guerra).
Mas a previsão cauta é mui rara entre aqueles que controlam
esta sociedade. A maior parte dos processos de mercantilização,
espetacularização e hierarquização são
cegos e automáticos: mercadores, os meios de comunicação
e os líderes seguem simplesmente suas tendências naturais de obter
dinheiro, captar audiência ou recrutar seguidores.
A sociedade do espetáculo
é com freqüência vítima de suas próprias falsificações.
Posto que cada nível da burocracia trata por si mesmo de proteger-se
com estatísticas infladas, cada «fonte de informação» sobrepuja
às outras com historias mais sensacionais, cada estado supera outro
em competência, os departamentos governamentais e as companhias
privadas põem em prática suas próprias operações
de desinformação independentes (ver capítulos 16 e 30 sobre
os Comentários à sociedade do espetáculo), até
mesmo os dominadores que excepcionalmente vislumbram alguma lucidez dificilmente
poderão averiguar o que é que realmente está ocorrendo.
Como observa Debord em outro lugar do mesmo livro: um estado que reprimiu
seu próprio conhecimento histórico já não mais pode
conduzir-se estrategicamente.
* * *
Vantagens e limites da não-violencia
«Toda a historia
do progresso da liberdade humana mostra que qualquer concessão,
seja ela qual for, nasce da luta. . . . Se não
há luta não há avanço. Aqueles que professam
a liberdade mas lamentam a agitação são homens
que querem colher sem arar a terra. Que querem chuva sem trovões
e relâmpagos. Que querem o oceano sem o imponente bramido de suas
águas. A luta pode ser moral; pode ser física; pode ser moral
e física ao mesmo tempo, mas deve ser uma luta. O poder não concede
nada sem que se lhe peçam. Nunca o fez e nunca o fará».
—Frederick
Douglas
Qualquer pessoa com
algum conhecimento de história tem a consciência de que as
sociedades não mudam sem uma resistência tenaz e freqüentemente
selvagem a quem está no poder. Se nossos ancestrais não houvessem
recorrido a violentas revoltas, muitos daqueles que agora virtuosamente
as deploram certamente seriam servos ou escravos.
O funcionamento rotineiro
desta sociedade é muito mais violento do que qualquer reação
que virtualmente venha a ocorrer contra ela. Imagine o escândalo
que provocaria um movimento radical que executasse 20.000 oponentes; pois
esta é a estimativa mínima do número de crianças que o sistema
presente condena à morte por inanição a cada
dia. Assim, as vacilações e compromissos permitem que
esta violência continue em marcha indefinidamente, causando em última
instancia milhares de vezes mais sofrimento que uma simples e decisiva
revolução.
Afortunadamente, uma
revolução moderna, genuinamente majoritária, teria
relativamente pouca necessidade de violência exceto para neutralizar
aqueles elementos da minoria dominante que tratam de manter violentamente
seu próprio poder.
A violência
pela violência é não apenas indesejável, além
de gerar pânico (e deste modo, a manipulação) também
promove a organização militarista (portanto, a hierarquia).
Quanto à não-violencia ela implica em uma organização
mais aberta e democrática; tende a promover a serenidade e a compaixão
e rompe o ciclo miserável do ódio e da vingança.
Mas temos que evitar
fazer da não-violência um fetiche. A velha réplica, «Como
se pode trabalhar pela paz com métodos violentos?» não tem mais
lógica do que dizer a um homem que está se afogando para que fique
em terra firme e se afaste da água. Ao esforçar-se por resolver
«mal entendidos» mediante o diálogo, os pacifistas esquecem que alguns
problemas se baseiam em conflitos de interesses objetivos. Os pacifistas
tendem a subestimar a malícia dos inimigos enquanto exageram sua
própria culpabilidade, censurando inclusive seus próprios
«sentimentos violentos». A prática de «declarar-se» (contra a guerra,
etc.), que pode parecer uma expressão de autonomia pessoal, na
realidade reduz o ativista a um objeto passivo, «mais um pela paz», que
(como um soldado) põe seu corpo na frente de batalha ao mesmo tempo
em que abdica da investigação ou da experimentação
pessoal. Aquele que quiser descartar uma noção de guerra
excitante e heróica deve ir além de uma noção
de paz servil e miserável. Ao definir seu objetivo como sobrevivência,
os ativistas pela paz tem pouco a dizer àqueles que estão
fascinados pela aniquilação global precisamente porque adoeceram
por uma vida quotidiana reduzida à mera sobrevivência, de
maneira que vêem a guerra não mais como uma ameaça
mas como uma libertação bem vinda diante de uma vida chata
e atolada em uma ansiedade mesquinha.
Sentindo que seu purismo
não resiste à prova da realidade, os pacifistas costumam
manter uma ignorância intencional sobre as lutas sociais do passado
e do presente. Embora com freqüência sejam capazes de intensos
estudos e de uma autodisciplina estóica em sua prática espiritual
pessoal. Aparentemente crêem que um conhecimento histórico e estratégico
ao nível do Reader’s Digest será suficiente para sustentar
suas iniciativas de «compromisso social». É como alguém
que espera evitar a queda de uma mala eliminando a lei da gravidade, acham
mais simples imaginar uma luta moral infindável contra a «cobiça,»
o «ódio,» a «ignorância», a «intolerância,» do que
ameaçar aquelas estruturas sociais que realmente reforçam
esses males. Se eventualmente alguém insiste que se enfrente estas
questões, se queixam de que a contestação radical
é um terreno mui estressante. Como de fato o é, mas tal
objeção se torna estranha quando vem daqueles cujas práticas
espirituais afirmam tornar as pessoas capazes de enfrentar os problemas
com objetividade e equanimidade.
Há um momento
maravilhoso em A cabana do tio Tom: Uma certa família
ajuda alguns escravos a escapar para o Canadá, quando aparece um homem
do sul procurando por escravos fugidos. Alguém lhe aponta uma escopeta
e lhe diz, «amigo, não precisamos de sua ajuda por aqui». Penso
que este é o tom correto: não escorregar no ódio,
nem mesmo no desprezo, mas estar disposto a fazer o que for necessário
diante de uma determinada situação.
As reações
contra os opressores são compreensíveis, mas aqueles que
chegam a se envolver demasiadamente com eles correm o risco de escravizar-se
tanto mental como materialmente, amarrados a seus amos por «vínculos de
ódio». O ódio para com os amos é em parte uma projeção
de ódio a si mesmo por todas as humilhações e compromissos
que se tem aceito, que é o resultado da vaga consciência
de que os chefes existem em última instancia apenas porque os governados
os toleram. E mesmo que «a escória tenda a levantar-se como espuma»,
a maioria das pessoas que ocupam posições de poder não
atuam de modo mui diferente do que faria qualquer outro diante da mesma
posição, com os mesmos interesses, tentações
e novos medos.
Vigorosos revanches
podem ensinar as forças inimigas a respeitar-te, mas tendem também
a perpetuar antagonismos. A misericórdia às vezes atrai
para teu lado os inimigos, mas pode também simplesmente lhes dar
uma oportunidade para a recuperação e novamente te golpear.
Nem sempre é fácil determinar qual destas duas políticas é
melhor e em que circunstancias. As pessoas que tem suportado regimes particularmente
viciados querem naturalmente ver castigados aqueles que os perpetraram;
mas um excesso de vingança mostra a outros opressores presentes
ou futuros que é melhor para eles lutar até a morte uma
vez que não tem nada a perder.
Mas a maioria das
pessoas, inclusive aqueles que foram vergonhosamente cúmplices
do sistema, observam para onde sopra o vento. A melhor defesa contra a
contra-revolução não é ruminar ofensas do
passado ou possíveis traições futuras, mas aprofundar
a insurgencia ao ponto de atrair todo mundo.
NOTAS
1. A difusão
por parte da I.S. de um texto denunciando uma assembléia internacional
de críticos de arte na Bélgica foi um belo exemplo disso: «Foram enviadas
cópias a um grande número de críticos ou entregues pessoalmente.
A outros foram feitos telefonemas onde se lia o texto completo ou em parte.
Um grupo forçou sua entrada no Clube de Imprensa onde os críticos
estavam sendo recebidos e espalharam os panfletos na audiência . . .
Em resumo, foram dados todos os passos necessários para não
dar nenhuma possibilidade aos críticos de ser inconscientes da existência
do texto».
2. «A ausência
de um movimento revolucionário na Europa reduziu a esquerda a sua
mínima expressão: uma massa de espectadores que desmaia de arrebatamento
cada vez que os explorados das colônias se alçam em armas
contra seus donos, e que não podem evitar de ver estes levantes
como o epítome da revolução. . . . Ali onde há
um conflito eles vêem sempre o Bem lutando contra o Mal, ‘revolução
total’ versos ‘reação total’. . . .. A crítica revolucionária
começa bem além do bem e do mal; está enraizada na história
e opera sobre a totalidade do mundo existente. Em nenhum caso pode aplaudir
a um estado beligerante ou apoiar à burocracia de um estado
explorador em processo de formação. . . . É
obviamente impossível por agora buscar uma solução
revolucionaria à guerra do Vietnã. é necessário
em primeiro lugar por fim à agressão americana para permitir
que a luta social real no Vietnã se desenvolva de um modo natural,
i.e. para capacitar aos trabalhadores e camponeses vietnamitas redescobrir
seus inimigos dentro de seu próprio pais: a burocracia do norte
e os estratos dominantes e proprietários do sul. Uma vez que os
americanos se retirem, a burocracia estalinista tomará o controle do pais
inteiro — esta conclusão é inevitável. . . .
A questão é não dar apoio incondicional (e nem mesmo
condicional) ao Vietcong, mas lutar consistente e intransigentemente contra
o imperialismo americano». («Das guerras locais» I.S. #11, pp.
195-196, 203.)
3. «Em sua forma mistificada,
a dialética chegou a ser uma moda na Alemanha porque parecia transfigurar
e glorificar o estado de coisas existente. Em sua forma racional é
um escândalo e uma abominação para a sociedade burguesa
e seus professores doutrinários, porque compreendendo o estado
de coisas existente reconhece simultaneamente a negação
deste estado, sua dissolução inevitável.; porque
contempla o movimento fluido de toda forma social historicamente desenvolvida,
e portanto leva em conta sua transitoriedade tanto como sua existência
momentânea; e por não deixar que nada se imponha sobre ela
é, em sua essência crítica, revolucionária.» (Marx,
El Capital.)
A cisão entre
marxismo e anarquismo mutilou a ambos. Os anarquistas criticaram devidamente
as tendências autoritárias e redutivamente economicistas
no marxismo, mas geralmente o fizeram de uma maneira adialética, moralista,
ahistórica, contrapondo vários dualismos absolutos (Liberdade versos
Autoridade, Individualismo versos Coletivismo, Centralização
versos Descentralização, etc.) e deixando a Marx e a outros
quantos marxistas radicais um virtual monopólio sobre a análise
dialética coerente — até que os situacionistas voltaram novamente
a unir os aspectos libertários e dialéticos. Sobre os méritos e
imperfeições do marxismo e do anarquismo ver A Sociedade
do espetáculo §§ 78-94.
4. «O que emergiu
nesta primavera em Zurich como manifestação contra o fechamento
dos centros juvenis se estendeu por toda Suíça, alimentando
o descontentamento de uma geração jovem ansiosa por romper
com o que eles vêem como sociedade sufocante. ‘Não queremos
um mundo onde a garantia de não morrer de fome se paga com a certeza
de morrer de aborrecimento’, proclamam aos quatro ventos pelas vitrines
de Lausanne». (Christian Science Monitor, 28 de outubro de 1980.)
O slogan é do Tratado de saber viver... de Vaneigem.
5. Para alguns exemplos
hilariantes ver Henry Beard e Christopher Cerf’: The Official Politically
Correct Dictionary and Handbook (Villard, 1992): é difícil
discernir com freqüência se os termos politicamente corretos
neste livro são satíricos, se foram propostos realmente a serio
ou se foram inclusive adotados e reforçados oficialmente. O único
antídoto para tal delírio são umas quantas sadias gargalhadas.
Fim do capítulo 2
de «A alegria da revolução» de Ken Knabb. Versão
original: The Joy of Revolution.
No copyright.
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Capítulo
1: Coisas da vida
Utopia ou precipício. «Comunismo» estalinista e «socialismo» reformista
são simples variantes do capitalismo. Democracia representativa
versus democracia delegativa. Irracionalidades do capitalismo. Revoltas
modernas exemplares. Algumas objeções comuns. O dominio
crescente do espetáculo.
Capítulo 2:
Excitação preliminar
Descobertas pessoais. Intervenções críticas. Teoria versus
ideologia. Evitar falsas opções e elucidar as verdadeiras.
O estilo insurrecional. Cine radical. Opressão versus jogo. O escândalo
de Estrasburgo. A miséria da política eleitoral. Reformas e instituições
alternativas. Correção política, ou igualdade na alienação.
Inconvenientes do moralismo e o extremismo simplista. Vantagens da audácia.
Vantagens e limites da não violência.
Capítulo
3: Momentos decisivos
Causas das diferenças sociais. Convulsões de pós-guerra.
Efervescência de situações radicais. Auto-organização
popular. O FSM. Os situacionistas en maio de 1968. O obrerismo está obsoleto,
mas a posição dos trabalhadores continua sendo o ponto central.
Greves selvagens e ocupações. Greves de consumo. O que podia
ter acontecido em maio de 1968. Métodos de confusão e cooptação.
O terrorismo reforça o estado. O momento decisivo. Internacionalismo.
Capítulo 4: Renascimento Os utópicos não prevêem a diversidade
pós-revolucionária. Descentralização e coordenação.
Salvaguardas contra os abusos. Consenso e dominio da maioria. Eliminar
as raízes da guerra e do crime. Abolição do dinheiro. Absurdo
da maior parte do trabalho presente. Transformar o trabalho em jogo. Objeções
tecnofóbicas. Temas ecológicos. O florescimento de comunidades livres.
Problemas mais interessantes.
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