
Os Bastidores
2001 chegou.
Ou melhor, o futuro chegou.
E nenhum filme, antes ou depois, conseguiu feito tão estrondosamente mítico quanto a história criada pela combinação da genialidade do escritor de ficção científica Arthur C. Clarke e do mestre do cinema e da imagem Stanley Kubrick.
Tudo começou no início da década de 60. A década em que John Kennedy havia dito que, antes de terminada, o Homem haveria de ir até a Lua e voltar. Porque ele havia escolhido ir. Mas mesmo antes desse espetacular feito, em 20 de julho de 1969, o Homem foi muito mais longe, "além de Júpiter e do infinito", em uma viagem de cor, luz, som e música que nos levaria dos primórdios da pré história até a criação de uma nova raça.
Arthur Clarke já era um famoso escritor de ficção científica quando foi contatado por Stanley Kubrick, que estava à procura do "proverbial bom filme de ficção científica". Após ler vários contos de Clarke, os dois chegaram à conclusão de que o conto "A Sentinela", escrito em 1951, daria uma boa base para o filme que queriam fazer. Nele, Clarke contava a história de um artefato descoberto na superfície da Lua que provava que extra-terrestres a haviam visitado, e possivelmente também à Terra, num passado distante.
Kubrick colocou Clarke em uma suíte de uma hotel em Nova York e os dois se puseram a trabalhar. Clarke nunca havia escrito um script na vida, mas isso não tinha importância. Ele escreveu 2001 não como um filme, mas como um livro de onde Kubrick tiraria seu filme. Provavelmente um arranjo destes nunca havia sido feito na história do cinema, mas a idéia era tão ambiciosa e os gênios envolvidos tão excêntricos a seu modo que não poderíamos esperar outra coisa. Quem ler os primeiros esboços do script pode notar a lingüagem extremamente literária da história. Para todos os efeitos, Clarke estava escrevendo um livro. Caberia à genialidade de Kubrick transpor a imaginação de Clarke para a tela.
Eventualmente, quando o trabalho de Clarke acabou se arrastando mais do que o previsto, Kubrick começou a filmá-lo antes mesmo do livro estar terminado. Clarke conta:
"...os dois projetos (filme e livro) aconteceram simultaneamente, com feedback nas duas direções. Assim eu tive a estranha experiência de fazer revisões no manuscrito depois de ter visto algumas cenas baseadas em uma versão anterior da história - um modo estimulante, apesar de caro, de escrever um livro"
Além de tudo, a complexidade dos efeitos visuais, inéditos para a época e algumas das excentricidades de Kubrick (que nunca entrava em um avião, apesar do filme estar sendo escrito em Nova York e filmado na Inglaterra) fez das filmagens de 2001 uma das mais estranhas da história.
Do conceito inicial da "sentinela", Kubrick e Clarke acrescentaram a pré-história do homem e seu primeiro "contato imediato". Também mudaram a forma da "sentinela". No conto os astronautas encontram uma espécie de "máquina" em forma de pirâmide na superfície da Lua, que continha um campo de força que repelia tudo à sua volta. Para o filme Clarke usou de outra idéia tirada de um de seus contos mais fantásticos, "A Muralha das Trevas", de 1949, para criar....o Monolito. Aquela forma negra, matemática, simétrica e enigmática que ao mesmo temo impõe curiosidade e temor em quem o vê. "A Muralha das Trevas" contava a história de um estranho planeta nos confins do Universo que era cortado por uma estranha muralha negra. Há descrições dela que muito lembram o monolito de 2001, como em:
"Quando Shervane olhou para cima, em direção àquela monstruosa chapa de ébano que tanto perturbara sua mente, ela lhe pareceu suspensa e prestes a esmagá-lo com seu peso. Com dificuldade, ele afastou os olhos da visão hipnótica e se aproximou para examinar o material de que era constituída. (...) era fria ao toque. Na verdade, mais fria do que deveria ser (...) Não parecia nem dura nem macia, já que a textura iludia o tato de um modo difícil de analisar." ("A Muralha das Trevas", de "O Outro Lado do Céu", p. 84, Ed. Nova Fronteira).
Apesar das várias similaridades, ainda assim há diferenças entre o livro final e o filme. Conta Clarke:
"No livro, o destino da espaçonave Discovery era Iapetus (e não Japetus), a mais enigmática das várias luas de Saturno. O sistema saturnino era alcançado via Júpiter: a Discovery fez uma aproximação com o gigante vermelho, usando seu gigantesco campo gravitacional para produzir um efeito de "estilingue", acelerando para a segunda parte de sua viagem. Exatamente a mesma manobra foi usada pelas sondas Voyager em 1979, quando elas fizeram o primeiro reconhecimento detalhado dos gigantes exteriores. No filme, no entando, Stanley Kubrick sabiamente evitou confusão colocando o terceiro encontro entre o Homem e o Monolito entre as luas de Júpiter. Saturno foi tirado totalmente do script, apesar de Douglas Trumbull (o responsável pelos efeitos especiais em 2001) ter usado mais tarde sua experiência adquirida para filmar o planeta dos anéis em seu próprio filme, "Silent Running."
Segundo Clarke, desde o início do filme a idéia era fazer algo mítico e grandioso. É interessante notar, no entanto, que apesar de toda esta preparação prévia, todos estes scripts e até a criação de um livro independente no processo, o filme de Kubick usou tudo isso apenas como "pano de fundo" para sua obra prima. Ao contrário das primeiras versões do script, em que se imaginava que um narrador iria contar em off a história, o produto final é realmente uma obra que parece não dar a mínima em explicar a si mesmo. Diria até que um dos principais charmes do filme está exatamente no fato de que ele é, assim como aquele estranho monolito negro, um grande ponto de interrogação. O que é o monolito? De onde veio? Para que serve? Porque a Discovery está indo para Júpiter? Porque o computador de bordo, o sempre educado HAL 9000, fica louco? O que acontece no final? O que houve com David Bowman?
Apesar de todas estas perguntas terem respostas, é quase como se a melhor resposta para elas é....não importa.
O próprio Clarke, felizmente ou infelizmente, acabou entrando no próprio jogo e passou os próximos anos de sua vida escrevendo pálidas continuações de 2001. Com exceção de "2010 - Odyssey Two", que como livro é brilhante e gerou um filme apenas razoável e tradicional, Clarke acabou perdendo seu tempo e o nosso em livros como "2061" e o sofrível "3001 - Odisséia Final". Claro que eu uso o termo "sofrível" em comparação com o trabalho do próprio Clarke. Aos 83 anos ele ainda é capaz de escrever livros melhores que a maioria dos atuais escritores de ficção científica juntos.
Os efeitos especiais deram um salto tremendo em 2001. Realizados
por Douglas Trumbull e supervisionados pelo próprio Kubrick, vemos naves
cruzando silenciosamente o espaço, astronautas flutuando em gravidade zero,
trabalhando na superfície da Lua e aquele maravilhoso e inesquecível
"Portal Estelar" do final do filme.
O "set" ao lado, por exemplo, chamado de "roda gigante", foi especialmente construído para simular o módulo de comando da nave Discovery. A idéia científica por trás do conceito é a seguinte: para simular a gravidade em uma viagem espacial seria necessário que uma parte da nave girasse constantemente, substituindo a lei da gravidade pela aceleração centrípeda. Com o cenário ao lado, fazia-se um efeito semelhante girando-o como uma grande roda gigante enquanto os atores, dentro, andavam normalmente em sua parte inferior. Como a câmera ficava presa em um ponto fixo, a imagem final parecia mostrar os astronautas literalmente andando pelas paredes. A primeira cena em que vemos Frank Poole, por exemplo, é perfeita. Nós o vemos fazendo um cooper ao redor do eixo central do módulo de comando, como uma formiga andando pelas paredes de um balde.