S. MATIAS - Beja 

UMA ALDEIA DO BAIXO ALENTEJO

    

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Eis alguns dados e extractos do BOLETIM INFORMATIVO da Junta de Freguesia de S. Matias, Volume II, de Junho de 1998

Uma realização de Manuel Aleixo

Caracterização -  S. Matias, é uma povoação, com cerca de 700 habitantes, desenvolve a sua actividade profissional essencialmente na agricultura e também algum comércio, indústria e serviços.
Tem vindo a sofrer ao longo dos anos um esvaziamento e um e envelhecimento da população, sendo as causas principais, a falta de trabalho tradicional na agricultura, o abaixamento da taxa de natalidade e a falta de estruturas sócio - económicas, que permitam manter os aglomerados populacionais e evitar o êxodo para os grandes centros urbanos.

Dados de 1995:

Casas existentes 312
Casas desabitadas  65
Casas ocupadas com lojas, oficina, e escritórios e armazéns  22
Sede da Junta  1
Casa do Povo  1
Centro de Dia 1
Casas habitadas 222
N.º de pessoas existentes na freguesia 599
Montes existentes 20
Montes desabitados 4
N.º de pessoas existentes nos momentos 80
total de pessoas 679

 


Talvez seja importante, transcrever, também, para aqui, algumas partes da
  NOTA DE ABERTURA,
 do Senhor Presidente da Junta de Freguesia de S. Matias, o Senhor Olímpio José Carvoeira:

 As aldeias vão-se descaracterizando. As suas tradições e cultura naturais, vão-se diluindo no tempo. O associativismo quase no existe, as relações de família, a sensibilidade e preocupação para com aqueles que nos rodeiam, com os seus inúmeros problemas, são sentimentos do passado, quase me atrevo a dizer.

Todos nós sabermos que a vida moderna decorre uma velocidade estonteante, no há tempo para nada. Mas então como é?...

A nossa terra precisa de todos os seus filhos, vamos ter que começar a olhar mais para «ela» e arranjar um pouquinho de tempo para lhe dedicar. Com o nosso esforço, boa vontade e algum espírito de sacrifício, vamos pôr as nossas capacidades ao seu serviço e fazer alguma coisa pelas crianças, pelos jovens, pelos idosos, em suma, pela nossa terra, a terra que nos viu nascer e onde gostamos de viver.

... Nada na vida nos é dado de mão beijada, tudo tem que ser conquistado. Unamos os nossos esforços. Todos não somos demais para o conseguir.

Olímpio José Carvoeira


NÚCLEOS CULTURAIS da ALDEIA de S. MATIAS


Nesta Aldeia do Baixo Alentejo, Concelho de Beja, ficando a 12 Km, na estrada para Évora, além de outras Associações, também existe um Grupo Coral.

Grupo Coral do Centro Cultural e Desportivo de S. Matias

São Matias - Beja - 7800 -751 S. Matias

Responsáveis pelo Grupo: Manuel Raposo e Manuel Pinto

Data da Fundação - 1986

Número de Elementos - ?

Principais MODAS: ?


Espaço para a Fotografia do Grupo Coral de S. Matias
Este é o Grupo Coral de Évora.

Ver Também, no índice geral desta PÁGINA joraga2000, a Página dedicada aos Grupos Corais Alentejanos. O Grupo de S. Matias aparece na LISTA com o número 27, juntamente com os Grupos do Concelho de Beja.

Algumas Fotografias actuais, dos tempos antigos e uma montagem, fornecidas por Manuel Aleixo...


Uma de porta com arco a precisar de reparação cuidada.


A máquina debulhadora, que nas primeiras décadas do séc. XX, percorria os montes...


O casal Aleixo, e o modo de trajar dos anos 40


Montagem com a Igreja e casas da aldeia...

 


UMA EXPLICAÇÃO de joraga2000

             Esta Página, como já tive oportunidade de afirmar noutras situações, é uma PÁGINA estritamente PARTICULAR, inserida no contexto da minha PÁGINA particular, devido às minhas ligações com S. Matias, e aos muitos amigos que lá tenho, e portanto de minha inteira de minha inteira responsabilidade. Atrevi-me a inseri-la neste conjunto, com a ajuda especial da minha companheira Maria de Fátima da Vinha Borges e de Manuel de Sousa Aleixo e Família que me forneceram alguns elementos, fotos, e outro material, tanto para este, como para os dois trabalhos especiais que desenvolvi relacionados com S. Matias: GRITOS NA SOLIDÃO - DÉCIMAS de INOCÊNCIO DE BRITO e PRESÉPIO - AUTO POPULAR DO NATAL do POVO de S. MATIAS - Beja. Tive já a oportunidade, em 1999 e 2000, de oferecer um exemplar destes dois trabalhos ao Ex.mo Senhor Presidente da Junta de Freguesia, o  Sr. Olímpio José Carvoeira, e à Ex.ma Senhora Presidente da Casa do Povo, a Sr.ª D. Isabel Borges, que fazem o favor de ser meus amigos e sempre me trataram com a maior simpatia, e por quem nutro a maior admiração pelo trabalho que vêm desenvolvendo em favor desta população e desta terra que também é um pouco minha por adopção. Entretanto os GRITOS NA SOLIDÃO de Inocêncio de Brito, foram, no essencial, publicados na Revista ARQUIVO DE BEJA, vol XII - série III, de Dezembro de 1999.
Brevemente, na Página dedicada à POESIA e às DÉCIMAS vou transcrever as de Inocêncio de Brito, e pelo menos algumas partes do trabalho realizado, deixando aqui um breve resumo, bem como a Introdução escrita pela sua Bisneta D. Cremilde de Brito e a Décima dedicada ao seu avô, de José Fialho Brito da Silva, que seguindo a arte do seu avô, já me confiou um caderno com muitas Décimas de sua autoria, que ao longo destes meses, vou organizar e estudar para depois lhe devolver.

 Uma apresentação de GRITOS NA SOLIDÃO
DÉCIMAS DE INOCÊNCIO DE BRITO

 

A introdução a este trabalho, por. Cremilde de Brito
bisneta do Poeta que foi Professora em S. Matias e residente em Beja.

 ...o segredo do POETA
possivelmente naqueles OLHOS sedutores
de azul-marinho, inesquecíveis...

 «Que mistério se encerrava naqueles olhos azuis para se gravarem indelevelmente na memória de uma criança de cinco anos?
            Havia neles qualquer coisa de tão extraordinariamente invulgar que nunca mais se esqueciam.
            Aos oitenta e cinco anos o seu olhar tinha a cor e o brilho dos olhos de um jovem, a pureza e a ternura duma criança, uma cor intensamente azul-marinho que eu nunca antes vira e jamais esquecerei.
            Não era a saudade da sua Terra e dos seus familiares que lhe transmitia aquela ternura porque estava na casa duma filha rodeado pelos netos e não “num lugar solitário”.
            Talvez sentisse a nostalgia dos longos e frios serões de boémia, da “vida reinadia” com companheiros e amigos, dos imensos horizontes do Alentejo que lhe inspiraram as rimas.
            Era o fulgor da paixão pela liberdade (que mostrou ao recusar o lugar de escrivão do juiz). Como poderia trocar pela pequenez dum escritório o rubro entardecer dos dias de Verão, ou o pôr do Sol de uma tarde de Outono, a terna canção dos passarinhos numa bela manhã de Primavera, a magnificência dos “raios purpurinos dourando o cume da serra” ou “a luz divina as campinas prateando”?
            A sua alma sensível que se indignou com o Regicídio e com a crueldade da guerra, com o “desejo de mandar”, “a cegueira de conseguir”, a “ambição de possuir” reflectia-se no seu rosto ainda “alegre e sedutor”.
            Pensaria certamente na sua companheira falecida, a esposa que não cantou enquanto ela viveu, mas que depois homenageou com um autêntico hino de exaltação ao seu lugar incomparável no seio da família. Chamou-lhe “anjo”, “ser adorável”, “formosa e bela”, lembrando que, sem a sua presença, a vida é “insuportável”, que a mulher é insubstituível no lar e que, como Mãe, quando ela falta, a “sorte não sorri”, os filhos são “como cegos”, porque onde ela não mantiver “amor, paz, santa união, é sempre uma escuridão, dê-lhe o sol onde lhe der”. Nessa casa só há penas e amarguras e falta a luz da esperança.
            Não andava “à procura da paz” porque ele era um homem de paz, sensível e bom e, na luz dos olhos que eu recordo estava a Paz de Deus, a pureza da sua Fé na “Virgem Bela”.
            É assim que eu vejo ainda aquele corpo franzino, aqueles olhos azuis e doces, aqueles olhos de Poeta.»

Cremilde Brito

E o Senhor José Fialho, neto e herdeiro da arte poética do seu avô, dedicou-LHE esta DÉCIMA:

 

Foi por Deus predestinado
Sem pompas sem gabarito
Só agora homenageado
O Poeta Inocêncio de Brito

Foi um homem excepcional
Em toda a sua existência
Não pagou nada à ciência
Nem à cultura geral
Não foi um intelectual
Nem num colégio educado
Foi sim um privilegiado
Da divina providência
Perante tal evidência
Foi por Deus predestinado

Não foi à escola mas deu
Lições aos que precisavam
Dando aos que o rodeavam
Aquilo que ele aprendeu
Não estudou no liceu
Nem em qualquer outro lado
Sem honras de magistrado
Foi um mestre permanente
Porquê tão tardiamente
Só agora homenageado

 

Viveu tão humildemente
Tão simplesmente acabou
Foi por onde passou
Estimado por toda a gente
Delicado eloquente
Em oração, ou por escrito
Prestigiou o distrito
Com mérito nacional
Foi tudo isto afinal
Sem pompas sem gabarito

 

Prestigiar com dignidade
A história, a poesia
E tudo o que ele dizia
É pura realidade
Ninguém com a verdade
Lhe apontou qualquer delito
Foi um hábil perito
Dos seus puros ideais
Quem pode esquecer jamais
O Poeta Inocêncio de Brito

 Palmela, 13 de Julho de 1999 , José Fialho

 


DUAS DÉCIMAS DO MESTRE INOCÊNCIO


 

MINHA TERRA, MINHA TERRA
ÉLA LÁ E EU AQUI
OS ANJOS DO CÉO ME LEVEM
PRÀ TERRA ONDE EU NASCI 

Quasi no resto da vida
Intentei abandonar-te
Cruamente desprezar-te
Tornar-te como esquecida
Ao não vêr-te hoje patria querida
Só paixão em mim se encérra
Tua ausencia me fáz guerra
E tal saudade me obriga
Que a todo o momento diga
Minha terra, minha terra

Sem os menores embaraços
Sai dela para fóra
E no sítio onde habito agora
As pedras pra mim são laços
Mover para lá meos passos
Minhas pernas não se atrévem
Mãossinhas que tão bem escrevem
Escrevão a Deos que é pai nosso
Visto que eu lá ir não posso
Os anjos do Céo me levem

 

Foi éla onde nasceu
Este homem tão seu amante
Hoje tornou-se um viajante
Todo o amor lhe perdeu
Foi éla o berço aonde eu
Os infantis sonos dormi
Desde que os olhos abri
Ternamente nos amâmos
E hoje presentes nos achamos
Éla lá e eu aqui

 

Minha naturalidade
Patria dos meos ascendentes
Minha e dos meos descendentes
És tu na realidade
Deixar-te foi crueldade
Já meos erros conheci
E já contrito a Deos pedi
Pra que contes da minha morte
Por seu amór me transporte
Prà terra aonde eu nasci

 Nota: Os acentos, por exemplo “Éla” e “Prà” foram conferidos pelos manuscritos.

 

 

NÊSTE LUGAR SOLITARIO
ONDE O ACASO ME TEM
BRADO NINGUEM ME RESPONDE
OLHO NÃO VÊJO NINGUEM

Estou por cá bem felismente
Só me faz incomodar
Uma pendencia de olhar
Para a parte do nascente
Passo a vida tristemente
Neste continuo fadario.
Sinto-me louco ando vario
E o caso é está bem visto
Que não dou remedio a isto
Nêste lugar solitario

Que mais pra eu viver triste
Um cinge as armas de Elrei
E o mais novinho não sei
Ao mênos aonde existe
Pra que o pai o não aviste
A distancia me o esconde
Lançar a vista pra onde
Se o pobre pai nada vê
Estar-lhe bradando pra quê
Brado ninguem me responde

 

 A côr que não desmerêce
É amôr de pai pra filhos
E se ausente dêsses caudilhos
Mais a côr resplandêce
É lembrança que não esquêce
E não pode esquecer a quem
Tem um aqui, outro álem
Onde a sórte os colocou
E eu por sórte tamem estou
Onde o acaso me tem

 

De dia mando o sentido
Levar novas e trazêr
Tanto dêles quero sabêr
Tão pouco conrespondido
À noite um sonho atrevido
Com illusões me entertem
Illude-me o querer bem
Que os estou vendo e ouvindo
E eu tão nescio acordo rindo
Olho não vêjo ninguem

 Inocêncio de Brito

Nota: Ortografia conferida pelo manuscrito.
 Por onde andou este homem enquanto um dos filhos fazia o serviço militar? Porque é que não sabe do outro? Porque nunca fala da mulher, ou da mãe dos filhos?
É ele mesmo que responde, com NOTAS escritas pelo próprio ao lado do MOTE:
"Esta obra fis eu quando estive no monte Corvesso. E, os filhos estavão em diferentes pontos." "Um era militar, e o mais moço estava com as cabras da Apariça ao pé de Moura. E eu não sabia onde êle estava." Monte Corvesso? Ou Monte Corveiro? No original parece-nos poder ler Corvesso, mas as pessoas contactadas não conhecem tal nome e este, como é uma nota, ao lado da Décima, não deve ser invenção. Há algum Monte, para os lados de Ferreira, com este nome ou parecido?

 


OUTROS POETAS DE S. MATIAS


MANUEL ANTÓNIO DE CASTRO,

 (Cuba Alentejo, nasceu em ???? e morreu em 1972), o Manuel de Castro, da Cuba, dedicou uma DEIXA – DÉCIMA à MORTE DO ALFERES BORGES DOS REIS de S. Matias, Beja.

 

In DEIXAS, de Manuel de Castro, Pesquisa e Comentários de Cristóvão Enguiça, recolha de familiares e população de Cuba, edição da Câmara Municipal de Cuba, Julho de 1987, p.48.

 

O ALFERES BORGES DOS REIS,
NATURAL DE S. MATIAS,
NUM DESASTRE DE AVIÃO
ENCONTRA O FIM DOS SEUS DIAS.

Nascido na humildade
De simples filho do povo,
Deixa ver logo de novo
Robusta mentalidade.
Com poucos anos de idade,
Bem menos de dezasseis,
Já em Beja dava leis
De conceituado aluno,
Era o primeiro no seu turno
O Alferes Borges dos Reis.

Foi Alferes aviador
Este herói predestinado,
Por todos conceituado,
Piloto de alto valor;
O comando superior
Incumbiu-o de uma missão,
Alto treino de instrução
Que a rigor executava,
Sem se lembrar que findava
Num desastre de avião.

 

De assuntos colegiais
Ele entendia de tudo,
Ganhava bolsas de estudo
E ganhava ensinando os mais.
Era o ídolo dos seus pais
E aqui destas freguesias,
Tinha gerais simpatias
Numa grande circunferência,
Esta viva inteligência
Natural de S. Matias.

 

 Sorraia, pequeno rio
Nos campos de Coruche corre,
Perto dele onde morre
Um herói de tanto brio,
Destino cruel e frio
Que tens tantas tiranias,
Tanto matas como crias,
Tragédias não te comovem
E um bravo, distinto jovem
Encontra o fim dos seus dias!

 Nota: Embora não se refira directamente a Inocêncio de Brito, dadas as ligações que estes poetas tiveram entre si, e das Décimas dedicadas a Cuba, que o poeta dedicou a Manuel de Castro, “Eu sou pássaro e tu laço”, achámos por bem incluir aqui esta DEIXA de Manuel de Castro, por se referir a um filho de S. Matias, que dá nome a uma rua vizinha da que foi dedicada a Inocêncio de Brito.

 

ANTÓNIO MIGUEL CARMO

(S. Matias? Beja, nasceu em... e morreu em????)

  

ADEUS, MINHA QUERIDA AMADA,
ESCUTA, DÁ-ME ATENÇÃO:
EU CÁ VOU JÁ DE ABALADA
COM PENAS NO CORAÇÃO

 

Cá levo uma saudade
Que não a posso deixar.
Não me deixas de lembrar,
Acredita que é verdade.
Não me percas a amizade,
Fica de mim bem lembrada.
Cá te levo retratada
Dentro do meu coração
E aceita um aperto de mão
Adeus, minha querida amada.

Se soubesses, meu amor,
A dor que o meu peito sente!
Tu hás-de-me lembrar sempre,
Ó minha branca flor.
Para mim tens todo o valor,
Ó minha doce adorada.
Sempre serás minha amada,
Se eu não chegar a morrer...
E agora é que tem de ser,
Eu cá vou já de abalada.

 

Vê lá, se tens sentimentos,
Ó minha rosa tão querida...
Vou-te dar a despedida.
Acaba-se o nosso bom tempo...
Cá vais no meu pensamento,
Ó minha rosa em botão,
Amor do meu coração...
Já te não posso falar.
Não faço senão chorar,
Escuta, dá-me atenção.

 

Com a esperança de não voltar
De ti me vou despedir,
Mas se ainda tornar a vir,
Eu lá te irei visitar...
Eu desejava falar
Contigo com atenção.
Levo uma grande paixão
Causada a teu respeito
E cá vai, meu leal peito,
Com penas no coração.

 Esta DÉCIMA é de ANTÓNIO MIGUEL CARMO,  pai de D. Antónia Carvalho e dita por ela, em 6 de Abril de 1996.
Esteve 18 meses, nas linhas de fogo, da 1ª GRANDE GUERRA MUNDIAL, de 1914/18.
(?Ver ??) Nasceu em Junho de 1896 (faria 100 anos neste ano de 1996 ) e faleceu em 25 de Março de 1968.
Talvez tenha sido esta DÉCIMA e outros poemas que ela recorda, que deixaram à filha esta inclinação ou vocação para a poesia. (Logo que possível, vamos acrescentar algumas Décimas e outros poemas de D. Antónia Carvalho, que vi em S. Matias, numa bonita casa perto da Igreja).

Uma DÉCIMA do Senhor Joaquim Ruaz,

 Natural de S. Matias, nascido em 1934, esta Décima foi publicada no Boletim Informativo da Junta de Freguesia de S. Matias, Beja, Volume II, Junho de 1998.

 

AS FLORES

 

Até nas próprias flores
Há a diferença da sorte
Umas enfeitam amores
Outras enfeitam a morte

 

Quando o mundo se formou
Com distinta perfeição
Na sua vegetação
Tão completo ficou
Em plantas que germinou
Há nelas grandes primores
Demonstrando seus valores
Em algumas medicinais
Com efeitos tão desiguais
Até nas próprias flores

Santa Isabel um dia
Quando seu esposo encontrou
Em lindas rosas transformou
As esmolas que trazia
Do seu regaço caía
Rosas de diversas cores
Que enfeitaram seus andores
Por um especial condão
Nas mesmas rosas de então
Umas enfeitam amores

 

Elas mesmas é que são
O brilho da Natureza
Que encerram toda a beleza
Na sua composição
Divinos poderes na mão
Tem, quem lhe deu este porte
Sendo o seu destino forte
No desempenho de uma função
Sobre a sua própria missão
Há a diferença da sorte

 

Em bouquês para namorados
Amor se transporta nelas
Conjugações das mais belas
São as que enfeitam noivados
Mas para os que forem sepultados
São símbolos de passaporte
Para aquele que transporte
O que da vida lhe resta
Flores enfeitam a festa
Outras enfeitam a morte

 

Outra (III) DÉCIMA, de Francisco Piriquito Junior, S. Matias, Beja, in POETAS POPULARES DO Concelho de Beja, Edição da Câmara Municipal de Beja, 1987.

 

NÃO SOU ESPERTO, NEM BRUTO
NEM BEM, NEM MAL EDUCADO
SOU APENAS O PRODUTO
DO MEIO EM QUE FUI CRIADO.

 (Com MOTE de uma QUADRA de António Aleixo e em sua homenagem, – MOTE ALHEIO)

 

Ao 1embrar o personagem
Que este mote escreveu
A oportunidade que me deu
Para lhe prestar homenagem
Com espírito de camaradagem
Defendo o meu reduto
Ao meu cérebro recruto
Talento e sabedoria
Para dizer como ele dizia:
Não sou esperto nem bruto.

Não posso rivalizar
Com poetas deste quilate.
Cometia um disparate
Se nisso fosse pensar.
Limito-me a valorizar
O meu saber diminuto
Para não ficar de luto
Nem sequer mal cultivado.
Do que tenho concretizado
Sou apenas o produto.

 

Não sigo suas pegadas
Nem o posso igualar.
Ao seu mote vou juntar
Estas minhas simples quadras
Humildemente rimadas
Com este significado
Para que não seja abandonado
O Património Cultural.
Sou um cidadão afinal
Nem bem, nem mal educado.

 

Falando de António Aleixo
Grande poeta algarvio
Quem me dera ter seu brio
Circular no mesmo eixo...
Quem não tem o apreteixo
Dum cérebro privilegiado
Como ele foi dotado...
Eu não tive esse condão
Vou mantendo a tradição
Do meio em que fui criado.

 

Evocando outra figura “esquecida” de S. Matias

 

o PÔTRA

Uma célebre Décima (mesmo só dez versos) do PÔTRA

O senhor Luís Alves, natural de S. Matias, Beja, com cerca de sessenta anos em 1999, autodidacta, senhor de uma cultura e de uma memória fora do vulgar, pode passar um dia inteiro, dizendo por exemplo, factos episódios, datas de nascimento ou morte de grandes personalidades, começando no dia um de Janeiro e seguindo por aí fora..., criando e resolvendo problemas complicadíssimos, dizendo volumes e medidas de rios montanhas quedas de água...

 A propósito deste fenómeno que foi Inocêncio de Brito, no final do século dezanove e primeiras décadas do século XX, lembrou-se de um outro PASTOR DE CABRAS, do tempo de frei Manuel do Cenáculo (n. 1724, foi Bispo de Beja e arcebispo de Évora; em 1770, renovou a Diocese de Beja, que tinha deixado de o ser durante uns tempo)...

 Quando este sábio pastor andava nas suas vistas e andanças pelo Alentejo, alguns lavradores que sabiam do seu interesse pela literatura e pela poesia, falaram-lhe de um pastor de cabras, o PÔTRA que era um poeta repentista... Cheio de curiosidade quis um dia pôr à prova o famoso pastor com fama de repentista... Levado à sua presença, diz o bispo:

- Faz-me um poema, pastor!

- Dê-me, então, Senhor, o Mote!

No entusiasmo e na galhofa o Bispo bateu as palmas...

Sem esperar mais, sai-se o pastor:

  

Senhor meu, bateu as palmas
Pois nós não somos iguais
Eu sou pastor de animais
E vós sois pastor das almas
Sofro frio e sofro calmas
Sofro do tempo os rigores
Vós brilhais entre os doutores
Servindo aos sábios de exemplo
Eu no prado e vós no templo
Nós ambos somos pastores.

 Mais uma achega de José Penedo sobre o PÔTRA

Nunca foi possível saber, se existiu, de facto, a DÉCIMA completa do Popular Poeta – o POTRA. Talvez não tenha mesmo existido, porque não era disso que se tratava, mas tão só de uma DÉCIMA simples, como resposta ao desafio lançado pelo Bispo,  como se usa nas DÉCIMAS silvadas quando se rima, com Décimas, ao DESPIQUE. Apesar disso e tentando evocar o inspirado Pastor – o POTRA, que gozava de grande fama em Beja e por todos os seus arredores, onde havia feiras e grandes despiques, um dia, o poeta menor, José Penedo, tentou “engendrar” o que seria a DÉCIMA completa, tendo a QUADRA completa como MOTE...

 

Um Bispo, Pastor de Almas,
Encara o POTRA, pastor...
O Senhor bateu as palmas:
- Nós ambos somos Pastores!

Conta a estória, que, um dia,                   - Creio que um analfabeto
O Frei Manuel do Cenáculo,                   Não pode versos fazer!...
Governando com seu báculo                    Não sabes ler, escrever!...
E grande sabedoria,                                 Mas dizem que és esperto...
Quando os montes percorria                   - Eles fazem do longe perto!...
Sofrendo o rigor das calmas                    Meu labor não são as almas,
Recebendo flores e palmas,                     Mas sofrer, do tempo, as calmas,
Encontra o POTRA, o pastor                  Da chuva e frio, o rigor...
Poeta de grande valor!                             Eu sou, de animais, pastor...
Ele, um Bispo Pastor de Almas!              E o Senhor bateu as palmas...

 - Como te chamas, pastor?                      - Senhor meu bateu as palmas!!!
Tens fama de grande bardo!                    Pois nós não somos iguais...
Faz um verso a meu agrado                     Eu sou pastor de animais
E terás os meus louvores                          E vós sois Pastor das almas!
Pois muitos te dão valor...                        Sofro frio e sofro as calmas
‑ Pois se o ouviste(s), Senhor                  Sofro, do tempo, os rigores.
E o pedis com tal calor                             Vós brilhais entre os Doutores
Venha o MOTE para o verso!...               Servindo, aos sábios de exemplo!
E o Bispo de olhar travesso                      Eu, no prado, e vós no Templo...
Encara o Potra, pastor:                            Nós, ambos, somos pastores!

 


PROSA POÉTICA de A.A.
inspirada no OLHOS dos VELHOS da ALDEIA de S. MATIAS


 Remetendo para OS OLHOS tema glosado pelo mestre Inocêncio de Brito, ver a Décima, que muitos conhecem: «OS OLHOS, ÓRGÃOS  DA VISTA...», "uma filha adoptiva de S. Matias que assina A.A. enviou-nos este poema: 

 NO OLHAR DOS VELHOS DA MINHA ALDEIA...

No olhar dos velhos da minha aldeia, repousam memórias de tempos em que a seara era mais dourada, o trigo era mais verde e a terra sigilata se contorcia em movimentos sensuais despertados pelas carícias do arado e recebia. qual mulher ardendo em paixão, a semente lançada à terra.

 No olhar dos velhos da minha aldeia, repousam imagens claras de raparigas junto ao poço, descalças e de saias arregaçadas, matando o calor com a água que lhes molhava o rosto e escorria por entre os seios, percorrendo lugares secretos dos corpos brancos que eles tentavam adivinhar.

 No olhar dos velhos da minha aldeia, repousam alegrias de conversas à mesa da taberna em que um naco de pão e queijo e uma garrafa de vinho, alimentavam a esperança de um amanhã sem fome, sem dor, e o cante fortalecia as almas unindo-as numa só, chegando mais alto, sentindo-se mais fortes...

 No olhar dos velhos da minha aldeia, repousam ainda aqueles que já empreenderam a viagem mas que continuam vivos no ondular do trigo, nas oliveiras grávidas de luz e nos chaparros guardiões do sol.

 No olhar dos velhos da minha aldeia, repousam, enfim. as almas antigas dos sábios, dos simples, dos que choram de emoção ao ver a vida em cada planta recém-nascida, em cada gota de água que a alimenta, e continuam crianças desvendando o milagre de cada novo amanhecer.

 A. A., S. Matias, Beja, Primavera de 1999.


A INOCÊNCIO DE BRITO

Homenagem modesta de José Penedo, aprendiz de fazedor de Décimas...

 

Mestre Inocêncio de Brito,
Que foi Mestre de Doutores,
Nas Quadras foi grande perito,
Viveu grandes dissabores.

 

Foi pastor, foi professor
Almocreve e tudo o mais;
Lidava com animais,
Cavava a vinha ao rigor;
Carregou palha ao calor...
Nas campinas, o seu grito
É um clamor infinito
Bradando, na solidão,
Como se fora um pregão:
Mestre Inocêncio de Brito.

Todo o tema lhe servia
À profunda inspiração:
Era o povo, era a nação,
Os olhos onde ele lia
A guerra que se acendia
A família? O pai? Aflito!
Uma ovelha ou um cabrito...
Ou gritando as injustiças
Dos Costas ou dos Buiças,
Nas Quadras foi grande perito.

 

Pelas andanças da vida
Encontrou muitos poetas
Uns sábios, outros patetas...
Nas feiras foi conhecida
A sua fama subida
De despique aos cantadores
Glosando da vida as dores
Mostrando ao Castro, ao Aleixo,
Com fundamento e preceito
Que era Mestre de Doutores.

 

Enquanto os outros vendiam
Suas Quadras e talento
Lançando versos ao vento
Os seus gritos acendiam
Fogos e luzes que ardiam
Como ideias, como flores,
Cantando raivas, amores,
Os trabalhos que sofria,
As penas, as dores que via...
Viveu grandes dissabores.

 

Mestre Inocêncio de Brito
Natural de S. Matias
Foi um poeta esquecido
Foi rico, de mãos vazias.

Um mestre que foi pastor
Cavador, apanha fardos
Ensinou alguns doutores
Dá lições a alguns letrados.

 


O PRESÉPIO - Um AUTO DO NATAL do POVO DE S. MATIAS
outro trabalho que seria importante divulgar.


 

 


Esta é a minha HOMENAGEM, por agora, a S. Matias, a terra que, desde que parti do Alentejo, em 1995, me mantém ligado a Beja e a essa Região onde trabalhei quase duas décadas. Prometo continuar. Talvez este trabalho possa ser um esboço para a PÁGINA oficial a criar pelas autoridades competentes, e para que os "filhos" naturais de S. Matias e os amigos, dispersos pelo Mundo, possam contactar com a terra onde nasceram ou onde têm alguns amigos.... Quando, e se visitar esta Página, e tever elementos ou críticas ou sugestões, CONTACTE:

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