"Deus não joga dados", disse Einstein, dando a entender que na sua opinião a Natureza não poderia operar através de leis estatísticas, tal como proposto na Teoria Quântica. Anos mais tarde, quando Einstein já estava morto há vários anos, o físico Stephen Hawking (aquele da cadeira de rodas), através de uma discussão imaginária com o autor da relatividade, replicava: "Deus não só joga dados, mas Êle ainda os esconde".
A recorrência a Deus em um assunto científico não se refere à eterna controvérsia sobre a existência, ou não, de Deus. Em uma discussão entre cientistas, ou em um texto de divulgação cientifica, a palavra "Deus" é empregada em substituição às leis pelas quais a Natureza produz os fenômenos. Einstein poderia ter dito que "A Natureza não joga dados", ou que "A Natureza não opera por leis estatísticas", mas essas duas formas expressariam apenas uma opinião, enquanto que dizer "Deus não joga dados" traduz uma convicção inabalável.
A Mecânica Quântica foi desenvolvida sobre o princípio fundamental de que a Natureza opera por leis estatísticas, e essa foi a principal razão da resistência de Einstein contra a famosa teoria. Provavelmente muitos leitores não entendem a ferrenha resistência do criador da Relatividade contra a Física Quântica. Afinal, pensariam esses leitores, em um jogo de dados a sequência dos números que se obtém com o rolar do dado se dá através de leis estatísticas. Ou seja, trata-se de um fenômeno estatístico. E há muitos fenômenos na Natureza que ocorrem seguindo leis estatísticas. Então por que a Física Quântica não pode também funcionar por leis estatísticas?
Para explicar a aversão de Einstein contra a Física Quântica vamos recorrer ao jogo de dados. Suponhamos que façamos 100 lançamentos do dado, e obtemos a seguinte sequência: 2, 4, 5, 2, 1, 6, 6, 3, 1, 4, 3, 3, 5, ... etc. Iremos observar que cada um dos números 1, 2, 3, 4, 5, e 6, será obtido aproximadamente 100÷6 vezes. Assim, a quantidade 100÷6 é decorrente de uma lei estatística.
Mas suponhamos que digamos ao leitor o seguinte: "Obtenha uma sequência de 100 resultados, mas sem usar o dado. Queremos saber quantas vezes vai aparecer o número 6, mas você não pode usar o dado".
Certamente você irá responder: "Mas isso não faz sentido. As leis estatísticas precisam de um mecanismo. No caso em questão, o mecanismo é o rolar do dado, que produz os resultados estatísticos. Se eu não posso usar o dado, de onde vou extrair os resultados?"
Bem, você já começou a entender a estupefação de Einstein. As leis estatísticas precisam ser decorrência de mecanismos. Podemos usar outros mecanismos para obte-las. Por exemplo, dividamos um disco em 6 partes, nas quais escrevemos os números 1, 2, 3, 4, 5, e 6. Façamos o disco girar, e observemos quantas vezes cada número irá parar em um ponto previamente estabelecido. Depois de girar o disco cem vezes, o resultado será o mesmo do jogo de dados: cada número submete-se à tendência de ser obtido 100÷6 vezes. Podemos também usar uma gaiola esférica, do tipo usado na extração de números da loteria. Dentro dela colocaremos seis bolinhas numeradas de 1 a 6. Ao realizar uma sequência de 100 extrações, sempre retornando a bolinha extraída na extração anterior para dentro da gaiola, o resultado que obteremos será o mesmo do jogo de dados: cada número submete-se à tendência de ser obtido 100÷6 vezes. Ou seja, não importa o mecanismo usado, o resultado sempre segue a "lei estatística", e portanto, por ser lei, o resultado sempre será o mesmo.
Mas na Física Quântica não há mecanismos. Nesta teoria os fenômenos acontecem como se você pudesse extrair a sequência 2, 4, 5, 2, 1, 6, 6, 3, 1, 4, 3, 3, 5... sem usar qualquer mecanismo para obte-la. Você não usa o jogo de dados, não usa o disco, não usa a gaiola, mas apesar disso você consegue obter a sequência estatística. Faz sentido? Na Física Quântica a sequência estatística aparece por si, sem que haja uma causa que a produza. Será que a Natureza pode produzir uma sequência estatística sem usar um mecanismo para obte-la? Se pode, isso é uma violação do princípio da causalidade, segundo o qual qualquer fenômeno precisa ter uma causa que o produza. Era essa falta de causalidade da Física Quântica que Einstein não podia aceitar. Na opinião dele a Natureza não pode funcionar através da violação do princípio da causalidade.
Vamos a seguir ilustrar o que acabamos de dizer. O físico Niels Bohr propôs o famoso modelo de átomo de hidrogênio, no qual o elétron salta entre níveis diferentes de energia. Ao executar um salto entre dois níveis, o átomo emite um fóton de luz. Bohr chegou a esse modelo porque ele explica a escala de Balmer.
Imagine que você irá observar um menino galgando os degraus da escada da
Figura A
, da seguinte maneira:
1. Ele só pode pular os degraus de um em um (não pode saltar de dois em dois).
2. Ao chegar a um degrau, ele irá agitar a bandeira que se encontra lá. Quanto mais alto for o nível do degrau, maior a energia com que ele agitará a bandeira.
A Figura B mostra a sequência da energia de agitação das bandeiras, que você irá observar ao ficar olhando o menino. Pergunta-se: Qual é a causa que produz a sequência observada por você, mostrada na Figura B?
Existem duas causas:
1. Causa tipo 1: A intensidade da energia com que a bandeira tremula é consequência do nível em que o menino se encontra.
2. Causa tipo 2: A sequência é devida ao movimento do menino, conforme indicado na Figura A (da esquerda para a direita).
Quando explicou a escala de Balmer com seu modelo de átomo, Bohr obteve sucesso apenas com relação à determinação da causa tipo 1 acima (os cálculos de Bohr mostraram que os saltos do elétron entre os níveis de energia da eletrosfera reproduziam a escala de Balmer, e que a intensidade da energia do fóton emitido depende do nível em que o elétron se encontrava, tal como no caso da energia com que o garôto agita as bandeiras na Figura A).
Mas pelo modelo dele não podemos explicar a sequência dos pulos do elétron (causa tipo 2). E isso porque as experiências mostraram que o movimento do elétron é diferente do movimento do garoto da Figura A. Enquanto o garoto não pode saltar por sobre um degrau, o elétron faz isso:.o elétron faz saltos entre níveis não consecutivos. A
Figura C
mostra o caminho que o elétron deve percorrer. Saltando entre níveis não consecutivos, ele pode por exemplo pular nas seguinte sequência (veja
Figura C
):