Origem dos
Hebreus


Chegada à
Península


Sob os reinos
visigodos


A Invasão
Muçulmana

 
Na Reconquista

 


O Progrom de Lisboa


          As medidas adotadas por D. Manuel em seguida da conversão forçada tinham por finalidade promover a integração da massa de novos conversos (cristãos novos) à população cristã velha. Os judeus, batizados, levariam agora sobrenomes vulgares dos cristãos. Em alguns casos os sobrenomes judaicos permaneciam como alcunha: Jorge Fernandes Bixorda, Afonso Lopes Sapaio, etc.


Relato de época do Progrom

          Como o mal da conversão involuntária já lhes havia sido feito, restava aos judeus retornarem às suas casas e propriedades, que com a permissão da lei seriam devolvidas. Proibiu-se o casamento entre cristãos novos, objetivando a diluição da população cristã nova (e de seus recursos financeiros) entre a população cristã velha. Em 1499 foi proibida a saída de cristãos novos de Portugal. Entretanto, sabe-se que não deixaram de existir casamentos endogâmicos no grupo dos cristãos novos e a emigração destes a outras terras.

          Para que a integração dos cristãos novos fosse efetiva, seria necessário conceder-lhes acesso a tudo o que antes lhes era proibido: a igreja, a nobreza, os cargos municipais, a universidade, etc.

 

          Entretanto, a integração real não aconteceu. Os cristãos novos continuavam a ser identificados como judeus pelos cristãos velhos, continuavam a praticar o judaísmo em segredo, nos seus lares, e ainda outras vezes foram alvo da violência.

          “Com o édito de expulsão dos judeus, publicado nos primeiros dias de Dezembro de 1496, o baptismo forçado desta minoria, em 1497, não findou a marca que, no inconsciente colectivo da maioria cristã, deixou a existência do judeu. O sentimento anti-judaico afirmava-se agora com maior virulência do que anteriormente. Se já não existia oficialmente uma minoria religiosa, professante do judaísmo, a verdade é que se criara no reino uma minoria cristã que, fosse por hermetismo natural e defensivo, fosse por marginalização dos cristãos-velhos, vivia apartada da convivência íntima da grande maioria destes, sobretudo dos da camada popular”. (Maria José Pimenta Ferro Tavares, Judaísmo e Inquisição. Estudos, 1987)


Judiaria de Lisboa

 

 

          Como fruto desse sentimento anti-judaico, houve um levante popular contra os conversos, ocorreu em abril de 1506 o diabólico Progrom de Lisboa.

 

          Desde janeiro de 1506 uma peste assolava Lisboa, sendo que sua intensidade em abril era tanta que chegavam a morrer cento e trinta indivíduos por dia. Preces públicas pediam o auxílio divino. Em 15 de abril foi ordenada a realização de uma procissão de penitência, durante a qual o povo rezava aos gritos. Na exaltação religiosa, logo difundiu-se a notícia de um milagre: alguns diziam ver uma estranha luz vindo de um altar. Ou os dominicanos, aproveitando a ocasião e os ânimos, fabricaram a luz, ou a peste fomentava a imaginação popular. Havia entre o povo os que afirmavam ver a luz perfeitamente, porém havia também os que afirmavam ser o milagre uma fraude ou pura imaginação. A crença no “milagre” no entanto foi tomando vigor e no Domingo, após a celebração do serviço religioso, o povo discutia sobre a ‘maravilha’, cuja autenticidade era posta em dúvida por muitos. Entre estes um cristão novo, o qual manifestou sua incredulidade quanto ao milagre. Logo se acendeu contra ele a indignação dos crentes, incitada talvez pelos autores do suposto milagre. O blasfemo foi assassinado e queimado o seu corpo. Um frade excitava o povo atraído pelo tumulto causado com violentas declarações enquanto dois outros frades, o frei português João Mocho e o frei aragonês Bernardo, um com uma cruz e o outro com um crucifixo erguido, bradavam: Heresia! Heresia! Rapidamente se alastrou o fanatismo e o desgoverno pela cidade. Os cristãos novos que desprevenidamente circulavam pelas ruas eram espancados e mortos, arrastados, às vezes semivivos, às fogueiras prontamente construídas na Ribeira e no Rossio. Os dois frades enfureciam e guiavam a multidão naquela atividade infernal. Só neste dia pereceram mais de quinhentas pessoas. A chegada da noite não fez com que os ânimos se acalmassem. Na Segunda-feira, o barbarismo tomou maior vulto, sob formas ainda mais perversas, dando lugar à vingança, à calúnia, à luxúria e ao roubo. Novamente o povo reunido perseguia os cristãos novos, para queimá-los. Alguns dos cristãos velhos foram perseguidos e, para se salvar, tiveram que mostrar que não eram circuncidados. Invadiram e saquearam as casas dos cristãos novos, maltratando homens, mulheres, velhos e crianças. Tomavam crianças dos peitos das mães e, segurando-as pelos pés, atiravam-nas contra paredes, esmagando seus crânios. Donzelas e mulheres casadas eram prostituídas e atiradas nas fogueiras espalhadas pelas ruas inundadas por sangue. Com a chegada da noite veio também o cansaço dos carnífices e a algazarra cessou, dando oportunidade para que os cristãos novos fugissem ou se escondessem, auxiliados por cristãos velhos verdadeiramente tementes a D’us. Na terça, como as vítimas se tornavam escassas, a multidão foi se acalmando e, pela tarde, somavam-se cerca de dois mil o número total de mortos.

          O progrom de Lisboa, o estabelecimento da Inquisição e as demais perseguições fortaleceram nos judeus o desejo de abandonar Portugal. Alguns foram para o norte da Europa, fundando comunidades sefarditas em Amsterdã, Hamburgo, Antuérpia, entre outras. Outros, indo para o sul da França, fundam comunidades em Baiona, Bordéus, Biarritz, São João da Luz, Bidart, Tartas, etc. Os judeus portugueses chegaram também à Inglaterra e EUA. Houve também os que retornaram ao Oriente, estabelecendo-se na Turquia, entre outros países, e na Terra Santa. O padre Pantalião de Aveiro conta que, quando em visita a Safed na Palestina, ficou impressionado com os portugueses que lá encontrou e com suas mulheres, que choravam de saudades de Portugal.

          Judeus portugueses moradores na Holanda vieram, junto com os flamengos, para o Brasil colonial, fundando a primeira comunidade judaica 'oficial' nas Américas em conjunto com os cripto-judeus que aqui viviam. Membros dessa mesma comunidade, acabada a ocupação holandesa, foram para Nova Amsterdam (atual Nova Iorque), fundando uma das maiores e mais antigas comunidades judaicas; outros fundaram comunidades na América Central. O historiador Flávio Mendes de Carvalho conta-nos que um outro grupo de membros da comunidade judaica do Brasil Holandês foi estabelecer-se em Belém do Pará, dando início a uma das mais antigas comunidades israelitas do Brasil. (As raízes judaicas no Brasil, p. 23)

          Alguns permaneceram em Portugal, sendo assimilados ou praticando o cripto-judaísmo, dando origem aos grupos de marranos, existentes ainda hoje, em pleno século vinte. 

          Ainda um outro grupo de judeus portugueses veio diretamente para o Brasil, desde o início da colonização, e sobre este grupo trata a seção Descobrimento.


Página por Yaacov DaCosta.- e-mail
Copyright © 2001 [Memorial Brasil Sefarad]. Todos os direitos reservados.
Revisado em: 31-Oct-2001
No ar desde 16 de agosto de 2001.









         
1 1