Fotografia de Casamento
Filipe Ferreira

 

Incrível e perturbante o fato de que o saudosismo não leva a lugar nenhum. Leva ao passado, é claro, mas com que finalidade? Se isto não estivesse incrustado na natureza humana, seria eternamente dispensável. Talvez Aline pensasse assim por um breve período, logo que se divorciou, e depois sucumbiria ao fascínio da nostalgia. Mas, por durante aquele tempo nebuloso, queimou uma a uma, no fogão, todas as fotos que encontrou pela frente. 1987, Califórnia. 1993, Rio. 1991, Florianópolis. 1994, Nápoles. 1986, Porto Alegre. Porto Alegre? Sim, Igreja Auxiliadora, 26 de agosto. Um dia que nem duzentos anos de terapia faria desaparecer. Fotografia de casamento, em papel sem brilho, revelada pela Kodak. A caligrafia revelava um Rafael ainda extasiado de paixão, com dizeres que não podiam ser confundidos: “o dia mais inesquecível de nossas vidas, para o resto do sempre”. Então o sempre havia acabado.

Aline, poeta de versos parcos, vinda da própria Porto Alegre, lá pelos lados da Floresta. Rafael, relações públicas de um só emprego, sendo a prefeitura sua segunda casa para o resto de seus dias ativos. Aline, sonhadora, simples, silenciosa. Rafael, inteligente, ciumento, infiel. Bastava dizer “depois de tantos anos!” e dar de ombros com um suspiro discreto? A obra de Aline estagnou, visto que já fazia as típicas “operações tartaruga” por anos a fio e,  seu último apanhado de versos constava em alguns sebos com o nome de “Compêndio do amor eterno”. Rafael seguiu, inabalável;  Aline manteve a compostura ao passo de que destruía os links do passado. Fotos eram o principal alvo: dispunha sobre o fogo, ao menos, cinqüenta por semana. Não restaria nada além do material na massa cinzenta e mais uma foto sem brilho aparente. A fotografia de casamento. Mas por que guardara justo aquela fotografia, de todas a mais ordinária?

Rafael tomou-a nos braços e depois de um longo beijo, queixou-se do tecido branco e transparente, muito áspero. Aline não podia deixar de sorrir—para tudo e todos, radiante. O colega da faculdade, que virara videomaker e fotografo, assobiou lá do pé da escadaria. Rafael virou primeiro, a gravata já retornara do busto de Aline e só faltava suas feições para tudo ficar estático, para sempre. Quando Aline retornou o rosto para o último resquício de sol, ainda exibia o sorriso, interminável, e depois da luz, tudo virou história. Um ângulo de plano geral os cobriu e ninguém precisava de mais zoom para perceber a perene felicidade no rosto do casal. Eram um só.

Aline desligou a boca do fogão e não segurou-se de pé. Aquela foto permanecera no porta-retrato do criado mudo durante virtuosos onze anos. Decorara os tons, o sentido da iluminação, a disposição do vestido em seu corpo e os detalhes de suas faces. E agora, aquelas duas pessoas na foto lhe eram completos estranhos. Então porque razão manter em alguma gaveta aquela mentira? Mais um símbolo que com o passar do tempo deixou de ser convenção. Uma última réplica a felicidade: “sim, ela existe, mas é breve e inconstante.”—a foto prova. Praticamente todas as fotos eram assim, mas agora estavam em forma de pó, não podiam dizer mais nada sobre os velhos tempos.

Tentou mais algumas vezes se desfazer da última fotografia, a de casamento, sem sucesso algum. Rafael as vezes era visto, sempre com uma mulher diferente, em diferentes pontos da cidade. Aline saiu com alguns homens até que encontrou um advogado que além de testemunhar a decisão de Aline de queimar uma foto velha, ainda deixou claro de que não fazia questão nenhuma de casar no religioso. Eles tiraram algumas fotos juntos, mas nenhuma de inspirações imortais, apenas fotos despretensiosas e casuais. Aline parou de escrever (quando mesmo começara?), e dedicou-se a algumas pinturas sem nenhum valor artístico: tinha que deixar algo para trás, desde que fosse uma experiência solo.

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