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| ARTE & CRÍTICA & OPINIÃO & ETC | |
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AS ARTES VISUAIS NA EDUCAÇÃO
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C. Roberto Lopes, Outubro de 2.000.
Both
of verbal and visual languages built human knowledge. We can create, preserve
and transmit knowledge through several visual symbolic systems man has created,
but educational systems underestimate it. This essential and specific relation
between Nature and man is surely developed by systematic study of visual arts.
The human visual perception experiences the effects of this study as quite
amazing.
O
conhecimento humano se constrói tanto através das linguagens verbais quanto
visuais. Através do contato crítico com os diversos sistemas simbólicos
visuais criados pelo homem, podemos criar, preservar e transmitir saber de uma
forma até agora subestimada pelos sistemas de ensino. Este contato essencial e
específico entre Natureza e homem é seguramente desenvolvido através do
estudo sistemático das artes visuais, sendo os efeitos deste estudo
apropriadamente descritos como mágicos pelos olhos da percepção humana.
Este texto é produto de um trabalho sério
empreendido na busca da compreensão do papel das artes visuais no
desenvolvimento da sociedade humana. Desejo ter tocado a visão de pelo menos um
destes papéis.
Da
primeira imagem fotográfica de um crepúsculo que produzi na década de 1.980
até as atuais considerações levantadas no fértil ambiente acadêmico do
CEFET-PR de Curitiba, meu interesse pela relação visual do homem com o mundo -
passando pelas imagens fotográficas - só tem se intensificado.
Não
pretendo apresentar uma visão dogmática sobre a questão do valor do
aprendizado das artes visuais, mas manter em pauta uma questão que considero
insubstituível: a da melhoria da qualidade de vida do homem do século XXI.
Abordo este tema através da consideração das artes visuais em seu caráter de
instrumento de investigação.
À
procura da beleza nós podemos passar por cima
de
muitos preconceitos.
Oscar
Niemeyer
Monteiro
Lobato
bem sabia que conhecimento se constrói, não acontece ao acaso. Por isso nunca
fugiu de debates que considerava importantes para o Brasil. E mesmo que chegasse
à conclusão – pública – de que errou. Se um país se faz com homens e
livros, como afirma Lobato, também é verdade que um país se faz com homens e
linguagens. O saber humano se constrói, na verdade, tanto através de
linguagens verbais quanto visuais. E por mais que a relação visual do homem
com o mundo seja tão espontânea quanto o ato de pensar, ainda assim o homem
moderno, com suas sociedades e culturas altamente complexas, não pode deixar de
dominar e mesmo elaborar sistemas simbólicos visuais efetivos. O
desconhecimento da natureza e produção de sistemas simbólicos visuais
utilizados tanto para a elaboração de conhecimento quanto para fins de interação
humana é tão danoso para o indivíduo e sociedade quanto o analfabetismo. Este
conhecimento visual pode ser desenvolvido nas sociedades modernas através de
suas instituições de ensino.
Houve
um ancestral humano que riscou pela primeira vez o chão com um graveto, ou uma
pedra com carvão. Este ancestral hipotético não só desenhou um risco, mas
percebeu uma nova possibilidade. Esta percepção pode ter sido em forma de medo
ou mera curiosidade lúdica. O importante é que este gênio abre a
possibilidade de não só ele próprio ter uma chance a mais de sobrevivência
em um mundo perigoso: ele possibilita que toda uma espécie preserve, distribua
e crie saber de uma forma inédita.
O
conhecimento humano acumulado e seu crescimento é tão vasto que pode intimidar
quem se disponha entrar em contato mesmo com uma sua pequena parte. Porém,
ninguém duvida que escrever, ler e falar são ferramentas eficazes para que
tomemos contato com este conhecimento, em níveis de complexidade que variam
quantitativamente e qualitativamente. Mas o que levaria alguém a achar que o
homem moderno pode prescindir de um aprendizado visual? Seria “tempo jogado
fora” aprendermos a desenhar, fotografar ou pintar? Esta pergunta é o mesmo
que perguntarmos se seria inútil desenvolvermos nossa percepção visual. O domínio
efetivo de linguagens visuais não somente complementa e valoriza o domínio
verbal, como nos abre novas possibilidades de relação com o mundo, sendo o
estudo das artes visuais o método por excelência de obtenção deste
conhecimento. E domínio efetivo não é apenas o aprendizado essencial que a mãe
e a família dão à criança - e a experiência de vida dá ao adulto. Domínio
efetivo inclui a possibilidade de tomarmos contato crítico com o conhecimento
visual e suas linguagens nas instituições de ensino. Portanto, o sistema de
ensino do século XXI deve ter por ideal proporcionar à sociedade um contato
sistemático e crítico, em variedade e intensidade, também com o conhecimento visual
produzido pelas mais diversas culturas. O conhecimento artístico visual – tão
importante ao desenvolvimento do ser humano - pode ser obtido através do
contato direto com a obra de arte, da produção artística e do ensino formal.
As
artes visuais nos abrem caminhos que de outra forma estão fora da nossa
capacidade de reconhecimento. Uma inteligência visual aguçada pelo aprendizado
gera percepções originais – insights - que de outra forma
passar-nos-iam desapercebidas. Através da interação com obras de arte notáveis,
como as action paint de Jackson Pollock ou os beijos do fotógrafo
Robert Doisneau,
libertamo-nos dos limites da contingencialidade, pois entramos em contato com a
Natureza - tanto a nossa natureza interior quanto a do artista, e a cósmica,
propriamente dita, que transcende nossas concepções de realidade. Sem esta
relação especial com a vida, legada por nossos ancestrais através da seleção
natural, é muito difícil inclusive que sintamos que padecemos de sua falta.
Numa boa hipótese, podemos nos conscientizar de que somos nostálgicos,
de que algo importante está à nossa frente, mas o espírito não o apreende em
seu todo: de que nos encontramos, na verdade, impedidos de reconhecê-lo para
iniciarmos um diálogo.
Este
diálogo especial, propiciador de uma relação crítica e criativa do homem com
a sua realidade, pode ser desenvolvido. É valoroso termos uma visão aguçada
do que se nos apresenta diante dos olhos. Em outras palavras, devemos estar
aptos a formar opiniões e tomar decisões embasadas em critérios estéticos
pessoais. Uma simples opinião pessoal sobre o que é belo ou feio pode agregar
qualidade à nossa vida.
Agora,
será preciso tornarmo-nos artistas para compreendermos as sutilezas da vida que
nos são dadas através do uso de uma linguagem visual? Devemos tornarmo-nos fotógrafos,
desenhistas ou pintores? Como adquirimos senso estético em um mundo que cada
vez mais exige-nos competência e identidade pessoal? Na verdade, podemos
desenvolver nosso senso estético através de uma educação formal efetiva. O
sistema de ensino de todo o país que se propõe formar não apenas cidadãos
capazes de prover uma vida melhor para sua família, mas de construir um país
com forte atuação no contexto global, inclui em sua agenda a educação artística.
Desta
forma, disciplinas que visam a capacitação do cidadão na elaboração de
saber estético através do contato, compreensão e produção de sistemas simbólicos
visuais efetivos, devem acompanhá-lo do ensino pré-escolar até a formação
superior. História da arte, Estética, Teoria da Cor, Semiótica, teoria e técnica
de linguagens como Desenho, Fotografia, Pintura, Escultura, Gravura, etc., são
apenas alguns exemplos das muitas disciplinas que podem ser ofertadas.
O
saber estético se constitui em um dos pilares do espírito humano. Sem ele
renunciamos a possibilidades de nosso ser. Sem ele somos terrivelmente cegos,
surdos e mudos diante de aspectos essenciais da vida. Para o neurologista inglês
Oliver Sacks, a arte expande nossa consciência para limites que estão
além do imaginável.
De
uma forma que pode ser apropriadamente descrita como mágica aos olhos da experiência
perceptiva humana, a arte liberta o homem do jugo da contingencialidade, pois
constitui-se de uma linguagem que põe em contato artista, espectador e Natureza
– tanto a natureza interior do homem quanto a cósmica propriamente dita. A
experiência perceptiva visual humana, porque de caráter vivencial e afetivo,
portanto anterior ao pensamento analítico, constitui-se num a priori que
transcende as limitações espaço-temporais de nossa intelectualidade.
Assim,
obras de arte de notório valor podem aproximar-nos de visões singulares e
poderosas que abordam aspectos relevantes da vida. Ao estudarmos as
possibilidades de expressão desenvolvidas por grandes artistas através de seus
sistemas simbólicos visuais, iniciamos não somente uma viagem pela Natureza
orientados pelo olhar inteligente destes artistas, mas ganhamos a possibilidade
de, através do razoamento estético, nós mesmos elaborarmos conhecimento.
Assim, um artista do século XXI pode utilizar-se, por exemplo, de técnicas
como o sfumato
de Leonardo da Vinci e do dripping de Pollock, sem deixar
de ser efetivo e pessoal; assim, Duchamp
pode desenhar bigodes em reproduções gráficas da Mona Lisa sem deixar de ser
genial. Na verdade, ao estudarmos as possibilidades expressivas das linguagens
visuais, podemos desenvolver facilmente poderosos sistemas simbólicos pessoais,
ainda que simples. Estes sistemas podem servir para armazenar, distribuir e
criar saber. Enfim, podem nos auxiliar a ver de uma forma nova – portanto crítica
e pessoal - aspectos relevantes da vida.
Uma
característica humana marcante é que cada um de nós domina por toda a vida a
capacidade de aprender. Mesmo alguém em idade avançada pode surpreender a si
próprio e aos outros com uma visão nova e valorosa de aspectos essenciais da
vida. E para que isto aconteça vigorosamente nas sociedades humanas - e não
apenas como um brilhante acaso - o estudo dos mais diversos sistemas simbólicos
visuais criados pelo homem, sua operação, e principalmente a capacidade de
cada um de nós desenvolver sistemas simbólicos visuais efetivos, devem ser
parte integrante da agenda das instituições educacionais modernas.
O
homem é em grande medida o criador do homem. Os formadores de opinião de cada
país podem escolher entre possibilitarem o florescimento de um povo de espírito
inventivo e afortunado, ou de um exército de nostálgicos - os despojados de
seus tesouros essenciais. Em última análise, a escolha entre a virtude da
liberdade conscienciosa e o pecado do desconhecimento dos meios está ao alcance
das mãos de cada um de nós.
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Referência
Bibliográfica
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