
A primeira etapa para quem quer conhecer a
Terra mais profundamente é a casca que a envolve, que tem uns 20
quilômetros de espessura. Desde que o planeta surgiu, há 4,6
bilhões de anos, essa embalagem mudou bastante. Aliás, até
3,8 bilhões de anos atrás, ela praticamente nâo existia.
Era só rocha quente e mole. De lá para cá a superficie
foi esfriando, mas ficaram umas falhas. Por isso, hoje o invólucro
terrestre parece mais um quebra-cabeça. Ele é formado por
doze peças, chamadas placas tectônicas, que constituem os
continentes e o chão dos oceanos.
As emendas entre as peças não
são perfeitas. Por isso, elas abrem fendas para que o material quente
vindo do manto suba e passe a fazer parte do solo. Tanto nos continentes
quanto no fundo do mar. Quando duas placas se chocam, uma entra um pouco
sob a outra, é geralmente nessas regiões que surgem os vulcões."
No caso de uma placa continental se
chocar com uma oceânica, a segunda leva a pior e vai parar embaixo
da primeira. Isso porque a crosta, nos oceanos, é mais fina, com
cerca de 7 quilômetros de espessura. Na trombada, podem surgir montanhas
também. Foi assim que se formou a Cordilheira dos Andes: a placa
do Pacíco bateu com a da América do Sul. Já o choque
entre duas massas oceânicas é mais calmo porque ambas são
"leves". Elas se acomodam e abrem espaço para o material do manto
subir, esfriar no contato com a água gelada e, assim, formar grandes
montanhas no fundo do mar.
A segunda escala da viagem ao interior da
Terra é a mais agitada. No manto formam-se as correntes de convecçâo,
movimentos de gigantescas porções de material quente que
fazem com que os continentes mudem de lugar. Tudo isso acontece graças
a duas fontes de calor. Uma delas é o núcleo extemo, a camada
logo abaixo do manto. Assim como todo o planeta, com o passar do tempo
esse núcleo está perdendo temperatura e, muito lentamente,
vai se resfriando, jogando energia para fora. A outra fonte está
dentro do próprio manto. Na sua composição existem
substâncias radioativas que produzem calor.
Quando partes do manto esquentam, ficam
mais leves e sobem para perto da crosta. Acontece que elas também
descem, embora os cientistas não saibam exatamente como. A principal
ipótese é que, depois de esfriar, o material que subiu ganha
peso e vai descendo até atingir a fronteira com o núcleo
externo. Quando é pesada demais, desce toda de uma vez e se espalha,
como numa explosão de fogos de artificio.
Esse sobe-e-desce pode dar a idéia
de que o manto é líquido, mas não é bem assim.
Seu comportamento é meio estranho. Ele é duro, tanto que
certos tipos de ondas sísmicas, que só se propagam em sólidos,
conseguem caminhar dentro dele. No entanto, numa escala maior de tempo
(como alguns milhões de anos), o manto sofre alterações
e não parece tão sólido assim.
A última escala da descida, e a mais
fascinante, é exatamente o centro da Terra. A ciência já
sabia que esse núcleo é feito de ferro, mas só a partir
de 1994 é que ele começou a mostrar melhor a cara. Primeiro
vieram novas pistas sobre a composição quínica. O
fato de a densidade do núcleo ser 1096 menor que a do ferro puro
indicava que havia outros elementos em sua formaçâo. Uma experiência
realizada no Instituto Carnegie de Washinton simulou a pressão e
a temperatura lá do fundo. E conseguiu calcular a estrutura e a
densidade de outros elementos ali presentes, que correspondiam as características
do oxigênio ou a uma mistura de oxigênio com enxofre. O oxigênio
não se dissolve em ferro metálico em condições
ambientaìs normais, mas a alta temperatura e a pressão do
núcleo permitem essa solubilidade.
Restava saber de que forma esse material
estava organizado. A pressão muito alta faz com que a estrutura
do núcleo seja cristalina, ou seja, suas partículas ficam
perfeitamente alinhadas.

