LIÇÕES VIRTUAIS DE LATIM

Antonio Carlos Machado

Fortaleza – Ceará

março / 2002








LIÇÃO VIRTUAL N. 1


1. ORIGEM E EVOLUÇÃO DO LATIM


O latim deriva de línguas arcaicas faladas no Lácio e em Roma, consolidando-se gramaticalmente a partir do século III a.C. Do local de sua origem (Lácio – região da Itália central = Latium, no idioma deles) provém o nome LATIM.


Teve seu período clássico entre os anos 81 a.C e 17 d.C., época dos principais escritores latinos: Cícero, César, Vergílio, Horário, Ovídio, Tito Lívio, dentre outros.


O apogeu do Império Romano e as guerras de conquistas levaram o latim popular, falado pelos soldados romanos, para outras regiões da Europa, onde interagindo com idiomas locais, deu origem às línguas neolatinas.


Como acontece em todo idioma, havia a língua gramaticalmente correta dos literatos e a língua popular, falada pelo povo de pouca instrução e sem preocupação com a correção gramatical. Foi esta última que se espalhou pela Europa e, no caldeirão dos dialetos regionais, comandou a formação das linguas neolatinas, inclusive o português.


O português foi o resultado da mistura do latim com o galego, principal lingua falada na região do Condado Portucalense, que hoje corresponde à região de Portugal. Foi uma das linguas derivadas que mais demorou a se formar, sendo provavelmente este o motivo de ser o português tão semelhante ao latim.


O latim literário continuou a ser adotado e utilizado durante muitos séculos pelos escritores cristãos, mesmo depois de não ser mais falado como linguagem corrente na sua região de origem. Por influência dos monges, o latim era utilizado também como idioma dos intelectuais, filósofos e cientistas, que escreviam suas obras em latim, pela facilidade de serem lidos em qualquer parte da Europa. Somente a partir do século XVII, a literatura filosófica e científica passou a ser produzida em lingua vernácula.


Atualmente, o latim é a língua oficial da Igreja Católica, utilizado na produção dos documentos oficiais do Vaticano, seja da Cúria Romana, seja das entidades agregadas. As Universidades Pontifícias de Roma, por exemplo, expedem seus Diplomas em latim ainda hoje. Os documentos oficiais da Igreja Católica, originalmente escritos em latim, são imediatamente traduzidos no próprio Vaticano e distribuídos pelos diversos países já no idioma vernáculo.


Para não citar apenas exemplos distantes, nos anos de 1969/1970,no Seminário dos Frades Capuchinhos do Ceará, estudei filosofia em livros escritos em latim, editados na Itália.


Fora das instituições eclesiásticas, a língua latina continua a ser adotada na notação científica dos seres vivos, além de ter uso esporádico no ambiente forense.





LIÇÃO VIRTUAL N. 2


2. ALFABETO LATINO: COMPOSIÇÃO E PRONÚNCIA DAS LETRAS


O alfabeto latino primitivo era composto de 21 letras, ou seja, o mesmo alfabeto do português atual, excluindo-se o J, o V e o Z, mas incluindo-se o K. As letras I e U tinham valores ora de consoante, ora de vogal, conforme o contexto fônico do vocábulo. Por exemplo, o I e o U tinham valor de consoante quando vinham precedendo uma vogal, em qualquer posição na palavra. Nos demais casos, tinham valor de vogal. Daí encontrarem-se expressões do tipo: SVB VMBRA ALARVM TVARVM ou invés de SUB UMBRA ALARUM TUARUM. (Sob a sombra de tuas asas).


O sinal K foi logo no início aceito, por influência do grego. Também por essa mesma influência, a fim de facilitar as transcrições literárias, foram incorporados os sinais Y e Z. Mais tarde, lá pelo século XVI, foram incorporados à escrita latina também os sinais J e V, certamente por influência das próprias linguas neolatinas, então já existentes. Este assunto, no entanto, não é ponto pacífico entre os gramáticos.


Outra que é motivo de controvérsias é a pronúncia do latim. A mais difundida, na época do ensino do latim no Brasil (até a década de 60), era a pronúncia eclesiástica, com forte acento italiano, por influência dos padres da Igreja Católica.


Os estudiosos da gramática comparativa, na área de linguística, tentaram construir uma pronúncia do latim mais original, sendo esta chamada de pronúncia restaurada. Há ainda a pronúncia aportuguesada, que também era utilizada no Brasil na época do ensino do latim nas escolas.


Essas informações têm aqui apenas caráter ilustrativo, já que não iremos praticar a pronúncia. Para efeitos práticos, sugiro que se adotem os mesmos valores fonéticos das letras na pronúncia portuguesa, observando-se as seguintes particularidades:

a) as vogais mantêm sempre seu som original, em qualquer posição que ocupem no vocábulo, evitando-se pronunciar o “o” como “u” e o “e” como “i” no final das palavras;

b) os ditongos “ae” (æ) e “oe” pronunciam-se como “e”;

c) a sílaba “ti”, quando não for tônica nem precedida por “s”, será pronunciada como “ci”;

d) a letra “x” tem sempre o som de “ks”, como na palavra “fixo”;

e) o grupo “ch” tem sempre o som de “k”;

f) os conjuntos “qu” e “gu” pronunciam-se sempre como se houvesse um trema no “u”;

g) o grupo “ph” tem o som de “f”.


Não se usavam acentos gráficos em latim, porém em alguns livros se usavam os mesmos acentos do português, a fim de facilitar a leitura. Como regra geral, atente-se para o fato de que não existem palavras oxítonas em latim, a não ser aquelas de uma sílaba só. Havendo dúvida, deve-se consultar um dicionário.


Convém observar que há divergências entre os gramáticos quanto a algumas das informações acima expostas. Vocês poderão encontrar pequenas variações, dependendo do autor da gramática que pesquisarem. Isso é bastante compreensível, uma vez que não se sabe exatamente como era pronunciado o latim, porque a pronúncia original não foi conservada, mas sofreu influências ao longo dos séculos.





LIÇÃO VIRTUAL N. 3


3. EXPLICAÇÕES GERAIS SOBRE A ESTRUTURA DA LÍNGUA LATINA

(DECLINAÇÕES, DESINÊNCIAS E CASOS)


DECLINAÇÃO - O latim é uma língua decclinável. Isto significa que é fundamentada na sintaxe e por isso a terminação das palavras muda de acordo com a sua função dentro da frase. Da mesma como os verbos assumem uma forma diferente para cada pessoa (eu, tu, ele, nós, vós, eles), os substantivos, adjetivos, numerais, bem como os particípios dos verbos em latim também alteram a terminação de acordo com o contexto. A isto se chama ‘declinação’.


DESINÊNCIA - Chama-se ‘desinência’ à parte final da palavra que se altera de acordo com a sua função sintática; chama-se ‘radical’ à parte fixa da palavra. Assim, todas as palavras têm um radical e uma desinência. Isto vale para verbos, substantivos, adjetivos. Note apenas que os verbos se conjugam, enquanto as outras palavras se declinam.


CASOS - No latim, há cinco declina&cceddil;ões, dentro das quais se enquadram todas as palavras.

Cada declinação tem seis casos, assim identificados, tomando como exemplo a palavra ‘Maria’:

CASO

FUNÇÃO DA PALAVRA

Nominativo


quando a palavra é sujeito na frase ou predicativo do sujeito; (ex: Maria é bonita).

Vocativo

quando exprime exclamação, interpelação; (ex: Ó Maria, és bonita).

Acusativo

quando é objeto direto; (ex: Amo Maria)

Dativo

quando é objeto indireto; (ex: Dei uma rosa a Maria)

Genitivo


quando é um complemento restritivo, regido pela preposição “de”, exprimindo em geral um possessivo’; (ex: A casa de Maria)

Ablativo




Complemento que indica modo, meio, origem, condição, lugar, tempo. Em português, as palavras vêm acompanhadas com uma preposição (com, por, em), mas em latim esta preposição é geralmente oculta. (ex: com Maria, por Maria)


A regra básica para se identificar a que declinação pertence uma palavra é verificar a sua desinência do genitivo singular. Nos dicionários, a palavra sempre aparece na sua forma do nominativo, seguida pelo genitivo. Portanto, assim se reconhecem as declinações das palavras:

1a. declinação

desinência do genitivo em ‘æ’;

2a. declinação

desinência do genitivo em ‘i’;

3a. declinação

desinência do genitivo em ‘is’;

4a. declinação

desinência do genitivo em ‘us’;

5a. declinação

desinência do genitivo em ‘ei’.


Pergunta: por que se usa o genitivo para identificar as declinações e não o nominativo, que é a forma original da palavra?

Resposta: porque em algumas declinações, o nominativo pode assumir terminações diversas, mas no genitivo a terminação é sempre a mesma.



Estas informações ditas assim em forma descritiva podem parecer até confusas ou complexas, no entanto, o conhecimento e a boa compreensão delas será fundamental para o entendimento das noções gramaticais que virão nos próximos capítulos.


Agora, uma curiosidade. Do ponto de vista morfológico, em geral, os adjetivos da língua portuguesa derivam do genitivo das palavras em latim. Por ex: ‘lex’ deu origem a ‘lei’; mas é do seu genitivo ‘legis’ que derivam: legislativo, legista, legal, legislador. ‘Tempus’ deu origem a ‘tempo’, mas é do genitivo ‘temporis’ que derivam: temporal, temporário. ‘Lumen’ deu origem a ‘luz’, mas é do genitivo ‘luminis’ que derivam: luminoso, luminária.





LIÇÃO VIRTUAL N. 4


4. PRIMEIRA DECLINAÇÃO


A primeira declinação em latim abrange as palavras terminadas em ‘a’ no nominativo e que no genitivo têm a desinência ‘æ’. Isto se aplica aos substantivos, adjetivos, numerais e aos particípios passados dos verbos.

Exemplos:

‘insula’ (pronúncia: ínsula) = ilha;

‘incola’ (pron: íncola) = habitante;

‘rotunda’ (pron. paroxítona) = redonda;

‘deducta’ (paroxítona) = deduzida.


Seguindo a regra já apresentada, temos em ‘insula’ o radical ‘insul’ e a desinência ‘a’; em ‘incola’, o radical é ‘incol’ e a desinência ‘a’. Portanto, na hora de declinar, o que vai alterar é apenas a desinência.


Casos da primeira declinação:

Casos

Singular

Plural

Nominativo:

insula

insulæ

Genitivo:

insulæ

insularum

Dativo:

insulæ

insulis

Acusativo

insulam

insulas

Vocativo:

insula

insulæ

Ablativo:

insula

insulis


Exemplos:

1. A ilha é redonda. – Insula rotunda est. (Note que é comum no latim o verbo vir no final da frase)

Comentários: insula = sujeito; rotunda = predicativo do sujeito; ambos, pois, estão no caso nominativo.


2. O habitante da ilha – Insulæ incola.

Comentários: não há artigos em latim; habitante = incola, por não ter nenhuma regência, fica no nominativo; insulæ = da ilha, possessivo, regido pela preposição ‘de’, portanto, vai para o genitivo.


3. Vejo a ilha. - Insulam video.

Comentários: insulam = a ilha, objeto direto, vai para o acusativo; video = vejo, 1a. pessoa do singular do verbo ver no indicativo presente. Não existe o artigo.


4. Perigo nas ilhas. – Periculum in insulis.

Comentários: A preposição ‘in’ (em, no, na, nos, nas) sempre rege ablativo, ou seja, a palavra a ela vinculada vai para o ablativo. Daí a palavra ‘insula’ assume a forma ‘in insulis’, porque está no ablativo plural; periculum = perigo, está no nominativo neutro da 2a. declinação (que será estudada adiante).





LIÇÃO VIRTUAL N. 5


5. PARTICULARIDADES DA PRIMEIRA DECLINAÇÃO


Inicialmente, convém lembrar que os gêneros das palavras em latim nem sempre correspondem ao que elas são em português. Na primeira declinação, com terminação ‘a’ no nominativo e ‘æ’ no genitivo, a maioria das palavras é do gênero feminino. Porém, há também as do gênero masculino em latim terminadas em ‘a’, como por ex:

‘Incola’ (pron: íncola) = habitante;

‘nauta’ = marinheiro;

‘athleta’ = atleta;

‘agricola’ (pron: agrícola);

‘pöeta’ = poeta (note-se que esta palavra tem um trema no ‘o’, para evitar que seja pronunciado ‘e’, assim como em ‘coelum’, que se pronuncia ‘célum’).


Há ainda aquelas palavras que só existem na forma plural, não têm singular, como por ex:

‘Nuptiæ’ (pron: núpcie) = núpcias; ‘divitiæ’ (pron: divície) = riquezas;

‘Athenae’ (pron: aténe) = Atenas (a cidade grega).


Há também algumas palavras que têm um sentido no singular e outro diferente no plural.

Por ex:

‘copia’ (pron: cópia) = no singular, abundância; já ‘copiæ’ (pron: cópie) = no plural, tropas, exército;

‘littera’ (pron: lítera) = no singular, letra; ‘litteræ’ (pron: lítere) = no plural, carta, correspondência;


Há mais dois casos excepcionais em que não se faz o genitivo em ‘æ’, como é a regra. São duas expressões do latim arcaico, que se conservaram pela tradição.

São elas:

‘paterfamilias’ e ‘materfamilias’, respectivamente, pai de família e mãe de família, que são consideradas corretas ao lado de ‘pater familiæ’ e ‘mater familiæ’, as formas que seguem a regra gramatical.


É curioso notar que não há palavras do gênero neutro na primeira declinação. Só há palavras masculinas ou femininas.


É oportuno observar ainda que a língua latina é muito pródiga em exceções. Evitarei descer a muitos detalhes, destacando apenas algumas formas excepcionais mais usadas.





LIÇÃO VIRTUAL N. 6


6. SEGUNDA DECLINAÇÃO


A segunda declinação em latim abrange as palavras terminadas no nominativo em ‘er’, ‘us’ e ‘um’ e que no genitivo têm a desinência ‘i’.


Exemplos:

‘puer’ (pronúncia: púer), ‘pueri’ (gen., pron: púeri) = menino;

‘piger’ (pron: píger) ‘pigri’ (gen.pron:pígri). = preguiçoso;

‘bonus’ (pron. bónus), ‘boni’ (gen.pron:bóni) = bom;

‘verbum’ (paroxítona), ‘verbi’ (gen.pron:vérbi) = palavra.


Observa-se que há uma maior diversidade de formas do caso nominativo, porém, a desinência no genitivo é sempre em ‘i’. Note que as palavras com nominativo em ‘er’, fazem o genitivo apenas acrescentando o ‘i’, no entanto, outras trocam o ‘er’ por ‘ri’. Estes detalhes sempre aparecem nos dicionários e são facilmente perceptíveis na hora da consulta.


Casos da segunda declinação:

Singular

Nom:

puer

ager

bonus

verbum

Gen:

pueri

agri

boni

verbi

Dat:

puero

agro

bono

verbo

Acus:

puerum

agrum

bonum

verbum

Voc:

puer

ager

bone

verbum

Abl:

puero

agro

bono

verbo


Plural:

Nom:

pueri

agri

boni

verba

Gen:

puerorum

agrorum

bonorum

verborum

Dat:

pueris

agris

bonis

verbis

Acus:

pueros

agros

bonos

verba

Voc:

pueri

agri

boni

verba

Abl:

pueris

agris

bonis

verbis


Em geral, as palavras terminadas no nominativo em ‘er’ e ‘us’ são masculinas, enquanto as terminadas em ‘um’ são do gênero neutro. Observe que as palavras neutras, fazem o nominativo plural em ‘a’, enquanto as demais o fazem em ‘i’.


Exemplos:

1. Puer bonus est. – O menino é bom.

Comentários: puer = sujeito; bonus = predicativo do sujeito; ambos, pois, ficam no nominativo.


2. Agricolæ filius piger est. = O filho do agricultor é preguiçoso.

Comentários: não há artigos em latim; agricolæ = do agricultor, possessivo regido pela preposição ‘de’, portanto, vai para o genitivo da 1a. dec; ‘filius’ e ‘piger’, respectivamente, sujeito e predicativo do sujeito, ficam no nominativo.


3. Templa Romæ video. – Vejo os templos de Roma.

Comentários: ‘templa’= templos, objeto direto, vai para o acusativo plural do neutro que, por coincidência, é igual ao nominativo plural de ‘templum’;

‘Romæ’ – de Roma, possessivo regido por ‘de’, vai para o genitivo da 1a. declinaçao.

Video (pron: vídeo)– eu vejo, 1a. pessoa do singular do verbo ver.


4. Discipulus libros Magistri portat. = O aluno (discípulo) leva os livros do Professor.

Comentários: discipulus – aluno, sujeito da frase, fica no nominativo; libros = objeto direto, acusativo plural de ‘liber’. Esta palavra significa ‘livro’, como substantivo, e ‘livre’, como adjetivo.

‘magistri’, possessivo, gen. sing. de ‘magister’ (=professor).

Portat – verbo portare (levar, carregar)


Observe que a ordem das palavras na frase não prejudica a compreensão, porque pela identificação das desinências, é possível saber qual a função da palavra no contexto, independente de sua posição. Por ex: ‘discipulus’ é nominativo, portanto, só pode ser sujeito; ‘libros’ é acusativo, portanto, é objeto direto; temos o verbo ‘portat’ (de ‘portare’ = levar), que é transitivo direto e indireto (levar algo ou alguém a algum lugar). Assim vemos que ‘libros’ é obj. direto, ‘Magistri’ é gen. sing. de ‘magister’ (=professor). Analisando cada palavra, chega-se à sua tradução. A tradução sempre deve ser feita em vista do contexto todo da frase.





LIÇÃO VIRTUAL N. 7


7. TERCEIRA DECLINAÇÃO


A terceira declinação em latim é a que comporta maiores variações e abrange o maior número de palavras. Nela se incluem as palavras terminadas no nominativo em 'or', 'er', 'us', 'os', 'es', 'as', 'is', 'ex' 'en' , consoante mais 's', ou seja, há uma variedade enorme de terminações, com a única característica em comum que é no genitivo singular ter a desinência 'is'.


As duas primeiras declinações, assim como as duas últimas, que ainda veremos, têm desinências mais constantes no nominativo. Mas nesta terceira declinação, é praticamente impossível estabelecer uma regra. Destarte, não sendo conhecida a palavra, a única alternativa é consultar o dicionário.


Exemplos:

Em 'or' - 'pastor' (pronúncia: pástor), 'pastoris' (pron: pastóris - gen.) = pastor;

Em 'er' – 'pater' (pron: páter) 'patris' (pron: pátris - gen). = pai;

Em 'us' - 'tempus' (pron. témpus), 'temporis' (pron: témporis - gen.) = tempo;

Em 'os' – 'flos', 'floris' (pron: flóris - gen.) = flor;

Em 'es' – 'vulpes' (pron: vúlpes), 'vulpis' (pron: vúlpis - gen) = raposa;

Em 'as' – 'libertas' (pron: libértas), 'libertatis' (pron: libertátis) = liberdade;

Em 'is' – 'canis' (pron: cánis), 'canis' (gen = nom) = cão, cachorro;

Em 'ex' – 'lex', 'legis' = lei;

Em 'en' – 'lumen' (pron: lúmen), 'luminis' (pron: lúminis) = luz;

Em consoante + 's' – 'mors', 'mortis' = morte; 'princeps', 'principis' (pron: ambos com tônica na 1a. sílaba) = príncipe.


Observa-se que há uma imensa diversidade de formas do caso nominativo, porém, a desinência no genitivo é sempre em 'is'. E note também que o radical a ser usado para aplicação das desinência nos demais casos segue o padrão do genitivo, e não o do nominativo.


Casos da terceira declinação:

Singular

Nom:

pastor

flos

lex

tempus

Gen:

pastoris

floris

legis

temporis

Dat:

pastori

flori

legi

tempori

Acus:

pastorem

florem

legem

tempus

Voc:

pastor

flos

lex

tempus

Abl:

pastore

flore

lege

tempore


Plural:

Nom:

pastores

flores

leges

tempora

Gen:

pastorum

florum

legum

temporum

Dat:

pastoribus

floribus

legibus

temporibus

Acus:

pastores

flores

leges

tempora

Voc:

pastores

flores

leges

tempora

Abl:

pastoribus

floribus

legibus

temporibus


Nos exemplos citados, apenas a palavra 'tempus' é do gênero neutro. Convém não esquecer que os gêneros das palavras em latim nem sempre correspondem ao que as palavras são em português. Na dúvida, é necessário consultar um dicionário.


A título de indicação, apresento alguns exemplos de como as palavras aparecem nos dicionários, para facilitar a compreensão e a localização delas.

No dicionário, encontra-se: dolor, oris – significa que o genitivo de 'dolor' (pron: dólor) é 'doloris' (pron: dolóris); pater, tris – significa que o genitivo de 'pater' é 'patris'; mulier, eris – significa que o genitivo de 'mulier' (pron: múlier) é 'mulieris' (pron: mulíeris). E assim sucessivamente.


Labor, laboris = trabalho;

Uxor, uxoris = esposa;

Mulier, mulieris = mulher;

Dolor, doloris = dor;

Frater, fratris = irmão;

Iter, itineris = caminho;

Custos, custodis = guardião;

Nepos, nepotis = neto, sobrinho ou descendente familiar;

Mos, moris = costume;

Miles, militis = soldado;

Pes, pedis = pé;

Sermo, sermonis = sermão, discurso;

Fortitudo, fortitudinis = fortaleza;

Ratio, rationis = razão;

Civitas, civitatis = cidade;

Laus, laudis = louvor;

Judex, judicis = juiz;

Urbs, urbis = cidade;

Grex, gregis = rebanho

Nomen, nominis = nome;

Caput, capitis = cabeça;

Flumen, fluminis = rio;

Virtus, virtutis = virtude;

Bos, bovis = boi;

Pecus, pecoris = rebanho;

Avis, avis = ave;

Canis, canis = cachorro;

Nobilis, nobilis = nobre;

Sapiens, sapientis = sábio;

Felix, felicis = feliz;

Corpus, corporis = corpo.


Estes exemplos bem demonstram a variedade de que se compõe a terceira declinação. Sugiro, como exercício de fixação das desinências, que se tomem estas palavras ou algumas delas e as declinem em todos os casos, no singular e no plural, seguindo os exemplos apresentados.





LIÇÃO VIRTUAL N. 8


8. PARTICULARIDADES DA TERCEIRA DECLINAÇÃO


A terceira declinação é a que apresenta maior complexidade, maior quantidade e variedade de palavras e também a que comporta mais exceções. Procuro evitar ao máximo estas referências a exceções, porém, termina sendo inevitável falar sobre elas.


Vejamos, pois, algumas informações. Primeiro, há uma distinção entre as dois grupos de palavras da terceira declinação:

Parassilábicas - aquelas que têm o mesmo núe;mero de sílabas no nominativo e no genitivo. Ex: panis, is (pão), civis, is (cidadão), navis, is (navio), ignis, is (fogo), sedes, is (sé ou sede, no sentido de local);

Imparassilábicas - aquelas que têm número dee sílabas no genitivo maior que no nominativo. Ex: labor, laboris (trabalho), gutur, guturis (obs: sílaba tônica em 'gu' nas duas, =garganta), opus, operis (obra), fraus, fraudis (dano).


Por que esta distinção? Pelo seguinte: as parassilábicas fazem o genitivo plural em 'ium', enquanto as imparassilábicas fazem o genitivo plural em 'um', conforme explicado no capitulo anterior. Por ex: 'civis' fica 'civium', 'navis' fica 'navium'; porém 'gutur' fica 'guturum', 'opus' fica 'operum'.


Mas até nesta particularidade há exceções. Por ex: 'lis, litis' (processo), embora seja imparassilábico, faz o genitivo plural em 'ium' (litium). E há também o oposto, ou seja, parassilábicas que fazem o genitivo plural em 'um', por ex: 'canis' fica 'canum', 'pater' fica 'patrum'. Há ainda algumas palavras que admitem as duas possibilidades. Por ex: 'apis' (abelha) pode ficar no genitivo plural 'apium' ou 'apum', 'mensis' (mês) pode ficar 'mensium' ou 'mensum', 'vates' (adivinhador) pode ficar 'vatium' ou 'vatum'. Não há, pois, uma regra monolítica.

Faço esta observação não para confundir os iniciantes, mas apenas para que ninguém se espante ao se deparar num texto com esta forma do genitivo plural de algumas palavras.


Há ainda aquelas palavras que fazem o acusativo singular em 'im' e o ablativo singular em 'i', ao invés de acusativo 'em' e ablativo 'e', que é a regra. Por ex: 'sitis' (sede, necessidade de água) fica 'sitim' no acusativo e 'siti' no ablativo singular; 'tussis' (tosse), fica 'tussim' e 'tussi', respectivamente; 'febris' (febre) fica 'febrim' e 'febri'. São apenas alguns exemplos.

Para tranquilizar alguns mais apressados, aviso que o uso de uma gramática e de um dicionário é sempre necessário para se estudar latim. Não há como memorizar tantas excepcionalidades.


Também há aquelas palavras empregadas apenas no plural, embora em português o seu uso seja admitido no singular. Ex: maiores, um = antepassados; cervices, um = nuca; parentes, um = pais; verbera, um = açoites; moenia, um = muralhas.





LIÇÃO VIRTUAL N. 9


9. QUARTA E QUINTA DECLINAÇÕES


Tomarei a um só tempo a quarta e a quinta declinações por terem regras mais uniformes e por possuirem um menor número de vocábulos. Na quarta declinação estão as palavras terminadas em ‘us’, que fazem o genitivo singular também em ‘us’. Apenas para esclarecer, há palavras terminadas em ‘us’, que fazem o genitivo em ‘i’; estas pertencem à segunda declinação. Para saber se a palavra terminada em ‘us’ fará o genitivo em ‘us’ (4a.) ou em ‘i’ (2a.), temos que recorrer a um dicionário. Não há regra para isto.


Casos da quarta declinação: (tomaremos uma palavra feminina – manus e uma palavra neutra – cornu)


Singular:


Nom:

manus (pron: mánus = mão)

cornu (pron: córnu = chifre)

Gen:

manus

cornus

Dat:

manui

cornui

Acus:

manum

cornu

Voc:

manus

cornu

Abl:

manu

cornu


Plural:


Nom:

manus

cornua (pron: córnua)

Gen:

manuum

cornuum

Dat:

manibus

cornibus

Acus:

manus

cornua

Voc:

manus

cornua

Abl:

manibus

cornibus


Temos, portanto, dois grupos de exemplos. O primeiro se aplica às palavras masculinas e femininas; o segundo se aplica às do gênero neutro. Exemplos: fructus, (masculino, fruto), exercitus (m., exército), senatus (m, senado), arcus (m., arco), specus (m, caverna), portus (m., porto), magistratus (m., magistrado), acus (f., agulha), domus (f., casa), genu (neutro, joelho).


A quinta declinação reúne as palavras terminadas em ‘es’, que fazem o genitivo singular em ‘ei’. Quase todas são femininas, devendo ser feita uma ressalva à palavra ‘dies’ (dia), que é feminina, quando se trata de um dia determinado, uma data, mas é masculino, quando se trata de um dia indeterminado.


Casos da quinta declinação:


Casos

Singular

Plural:

Nom:

dies (pron: díes)

dies

Gen:

diei (pron: diêi)

dierum (pron: diérum)

Dat:

diei

diebus (pron: diébus)

Acus:

diem (pron: díem)

dies

Voc:

dies

dies

Abl:

die

diebus


A quinta declinação contém poucas palavras. Exemplos: res (coisa), fides (fé), spes (esperança), meridies (meio-dia).





LIÇÃO VIRTUAL N. 10


10. OS GÊNEROS DOS SUBSTANTIVOS



Na língua latina, há três gêneros das palavras (substantivos e adjetivos ou outras categorias gramaticais quando são usadas como substantivos): masculino, feminino e neutro. 'Neutro' vem da palavra 'neuter', que significa 'nem um nem outro', referindo-se às palavras que não são nem masculinas nem femininas.

Não existe um padrão fixo para se determinar o gênero de uma palavra em latim, mas podem-se adotar as seguntes regras gerais:


1. São masculinos os nomes de homens, de povos, de rios, de meses;

2. São femininos os nomes de mulheres, de países, de ilhas, de cidades, de árvores e os substantivos abstratos;

3. São neutros os nomes das letras, dos verbos (no infinitivo, quando são tomados como substantivos, por ex: o andar, o